VIDA CRISTÃ E MATURIDADE DE FÉ

                                  CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

 

c)O Mistério de Deus e do Homem

b) Compreender a Ternura de Deus

c) Maturidade de Fé e Opções de Vida

 

a) O Mistério de Deus do Homem

É muito frequente encontrarmos pessoas com ideias distorcidas acerca de Deus.

Por vezes estas pessoas defendem ideias e opiniões sobre a divindade como se Deus fosse uma questão de opinião pessoal.

O conhecimento de Deus e do seu plano salvador não é uma questão arbitrária.

Não há crescimento na Fé sem uma caminhada de aprofundamento da Palavra de Deus, o único modo de chegar a ver as coisas com os critérios do mesmo Deus.

Só existe um alicerce seguro sobre o qual se edifica a Fé: a revelação de Deus. Só o próprio Deus pode dizer quem Deus é.

A revelação é um dom que a pessoa vai conhecendo e acolhendo de modo gradual e progressivo.

A caminhada de aprofundamento da Fé não é uma questão de mera investigação.

O crescimento da Fé pressupõe uma caminhada comunitária alimentada pela Palavra de Deus, pela oração e pela abertura ao Espírito Santo que habita no nosso coração.

É este o contexto adequado para o crente acolher o dom da revelação de Deus.

Quanto mais o crente aprofunda os conteúdos da revelação, mais o rosto de Deus se vai tornando claro para si.

O padrão para o crente confrontar a sua compreensão do mistério de Deus e do Homem é, naturalmente, Jesus Cristo.

O Deus de Jesus Cristo não é um polícia sempre disposto a acusar e a punir as nossas infracções.

Também não é um sujeito infinito que criou o Universo que mantém sob vigilância e controlo arbitrário.

Do mesmo modo, o Deus de Jesus Cristo não é um pai natal a correr de um lado para o outro, carregando um saco de presentes que vai distribuindo ao acaso.

O Deus da revelação não é uma tábua de salvação à qual devemos recorrer quando estamos aflitos.

Não é um mágico que podemos pôr ao nosso serviço através de umas rezas mecânicas com efeitos automáticos.

O Deus da Fé Cristã é uma comunidade familiar de três pessoas. Deus é comunhão amorosa.

Podemos dizer com toda a verdade que o Universo é um projecto sonhado, dialogado e posto em marcha por uma comunidade de amor.

A revelação de Deus mostra-nos que o amor está primeiro.

A primeira realidade a existir é uma comunidade de três pessoas que se relacionam de modo familiar.

A Bíblia fornece-nos os pilares fundamentais para compreendermos o mistério de Deus e do Homem.

As Sagradas Escrituras são o fundamento e a mediação básica para o Espírito Santo actualizar a revelação no dia a dia da nossa vida.

O Deus revelado pelas Escrituras é o Criador de todas as coisas.

O Universo, portanto, não é um conjunto de forças e estruturas que existem ao acaso.

A génese do Cosmos brota de um diálogo interpessoal amoroso.

Visto à luz da Palavra de Deus, o Universo é um projecto com um sentido e uma finalidade boa.

Os cristãos não são como os dualistas gregos para quem havia uma realidade espiritual boa e uma realidade material má.

Eis o que dizem os actos dos Apóstolos a este propósito:

“ O Deus que criou o mundo e tudo o que nele existe é o Senhor do Céu e da Terra.

Ele não habita em santuários feitos pela mão dos homens como se precisasse de alguma coisa, ele que a todos dá a vida, a respiração e tudo o mais.

Este Deus criou o género humano a partir de um só homem, a fim de este habitar e encher a face da terra.

Fixou a sequência dos tempos e os limites para a sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo, tacteando.

Este Deus está perto de cada pessoa humana. É nele que todos nós vivemos, nos movemos e existimos (…).

E nós mesmos já somos da raça de Deus, pelo que não devemos pensar que a Divindade é semelhante às esculturas de ouro, de prata ou de pedra trabalhadas pela arte dos escultores. (Act 17, 24-29).

Este Deus que está em nós e no qual nós estamos, ama-nos ternamente e sonhou um plano para nós, o qual consiste em fazer de nós membros da própria Família Divina.

Este plano de assunção e incorporação das pessoas humanas na Família Divina representa a cúpula do projecto criador de Deus.

A salvação da Humanidade, portanto, é a cúpula da criação.

Deus criou por amor. Além disso programou uma aliança de amor com a Criação através do Homem.

Este projecto, Deus o realizou através do mistério da Encarnação:

“O Verbo é a luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, ilumina todos os seres humanos.

Foi por ele que o mundo foi criado, mas o mundo não o conheceu.

Mas àqueles que o receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.

Estes não nasceram dos laços do sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco.

E nós contemplámos a sua glória, a glória que possui como filho unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade” (1, 12-14).

Um pouco mais à frente, o evangelho de João explicita melhor este nascer de Deus, o qual não é fruto da carne e do sangue:

“Em resposta, Jesus declarou-lhe: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer do Alto, não pode ver o Reino de Deus”.

Perguntou-lhe Nicodemos: “Como pode um homem nascer, sendo velho?

Porventura poderá entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?”

Jesus respondeu-lhe: “Em verdade em verdade te digo: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.

Aquilo que nasce da carne é carne, e aquilo que nasce do Espírito é espírito.

Não te admires por eu te ter dito que tendes de nascer do Alto” (Jo 3, 3-6).

Como sabemos, o ser humano não nasce feito. Nascemos para renascer.

A pessoa humana não surge humanizada. O processo da humanização de uma pessoa só pode acontecer em relações com os outros e com Deus.

Começamos por ser o que os outros fizeram de nós. À partida não escolhemos nada.

Mas isto não é o mais importante. O decisivo é o que fazemos com os talentos ou possibilidades de realização que recebemos dos outros.

Por outras palavras, o mais importante não é o que os outros fizeram de nós, mas o que nós fazemos com o que recebemos dos outros.

Ainda antes de nos habitarmos, isto é, ainda antes de sermos conscientes, já estamos habitados pelos outros.

Por outras palavras, à medida em que nos vamos tornando conscientes e responsáveis já estamos habitados pelos valores, os critérios, os modos de ver e ajuizar que os outros nos transmitiram através da educação.

A nossa consciência vai-se estruturando precisamente através deste processo educativo. E à medida em que se vai estruturando, vai-se tornando altifalante do Espírito Santo.

Portanto, quando escutamos a voz da nossa consciência e agimos em harmonia com ela, estamos a escutar a voz dos que nos transmitiram os valores.

Ao mesmo tempo estamos a escutar a voz maternal do Espírito Santo, a qual se faz ouvir no do dia a dia da nossa vida através da consciência.

Os apelos do Espírito Santo acontecem sempre como interpelação a agir na linha do amor.

No entanto, cada pessoa ouve os apelos do Espírito Santo segundo a configuração da sua consciência.

A pessoa nasce para renascer. Não nascemos acabados. É isto que o evangelho de São João quer dizer quando nos fala da necessidade de nascermos de novo pelo Espírito Santo.

Esta verdade é explicitada no baptismo, o sacramento que proclama a filiação divina da pessoa humana. Eis as palavras do evangelho:

“Quem não nascer da água e do Espírito não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3).

No evangelho de João a água é símbolo do Espírito Santo.

Foi para realizar este plano amoroso que Deus enviou o Seu Filho unigénito ao mundo:

“Deus amou tanto o mundo que lhe entregou o seu Filho unigénito, a fim de que todo o que crê nele não se perca mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

 

Ao tornar-se nosso irmão mediante a encarnação, o Filho de Deus fez-se nosso irmão, a fim de também nós sermos filhos de Deus.

Deste modo, o Filho de Deus passou da condição de Filho único de Deus para primogénito de muitos irmãos, como diz São Paulo:

“ Porque àqueles que conheceu antecipadamente, também os predestinou para serem uma imagem perfeita de seu Filho, ao ponto deste ser o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8, 29).

Segundo o Livro do Apocalipse, uma das principais características de Deus é que faz todas as coisas bem feitas.

Além disso, Deus é o Senhor de todos os povos e o que faz é sempre correcto e justo:

“Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus todo-poderoso!

Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações!” (Apc 15, 3).

 

Segundo o livro do Génesis, a criação do Homem mereceu uma atenção especial de Deus.

Esta atenção significa uma intervenção especial, a qual consistiu num sopro ou beijo primordial:

“Então o Senhor Deus formou o Homem do pó da Terra e insuflou-lhe o sopro da vida. E o Homem transformou-se num ser vivo” (Gn 2, 7).

Este gesto especial de Deus na criação do Homem é expressa em hebraico pelo termo “Neshama”, o qual tanto pode significar sopro como beijo ou até as duas coisas: ao beijar o barro primordial, o hálito da vida passou de Deus para o Homem.

Este beijo ou sopro, na Bíblia, significa a comunicação do Espírito Santo.

Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, repete o gesto primordial da comunicação do Espírito:

“Em seguida, soprou sobre ele e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).

O primeiro é o beijo primordial que inaugura a marcha da humanização do Homem.

O segundo é o beijo da plenitude que inicia a divinização do mesmo Homem.

Estamos perante afirmações que nos dizem uma verdade fundamental: Deus faz história com o Homem.

O Espírito Santo é a pessoa que tem a missão de estar presente na marcha da história humana, tanto em relação à criação como à salvação.

Através da missão histórica do Espírito Santo, o Deus Criador age também como dinâmica de salvação.

Deus intervém na história, mas não na sequência dos factos históricos, em si.

O Espírito Santo actua no coração dos seres humanos que são os verdadeiros autores desses mesmos factos.

A acção do Espírito Santo realiza-se em forma de apelo, iluminação, convite ou sugestão.

Intervém no sentido de ajudar o ser humano a optar na linha do amor, condição essencial para a humanização das pessoas e das sociedades.

A acção do Espírito Santo acontece de dois modos fundamentais:

Como presença pedagógica de Deus no coração das pessoas: é a intervenção especial de Deus na Criação do Homem.

Por ser Amor, Deus é dinamismo inesgotável e suscitador de novidade permanente.

Dizer que Deus é Amor significa que pode tudo o que é possível ao Amor e em grau infinito de perfeição e capacidade.

Ao mesmo tempo, significa que não pode nada contra o amor.

Uma das notas fundamentais do Amor é o poder criador e gerador de novidade permanente. Deus nunca se repete.

A emergência permanente de novidade, em Deus, não significa acréscimo de plenitude ou felicidade.

Pelo contrário, significa uma plenitude e felicidade que nunca diminui nem se torna repetitiva.

Por ser Amor, Deus é pessoas em relações. A génese cósmica emergiu do próprio diálogo comunitário de Deus e encontra a sua plenitude na Comunhão da Santíssima Trindade.

Deus imprimiu no tecido do Universo as Suas impressões digitais: as relações.

Tudo está marcado com o selo das relações: átomos, moléculas, estrelas, planetas, sistemas solares e galáxias.

Mas é sobretudo na emergência histórica da Humanidade que acontece a dinâmica das relações à imagem e semelhança de Deus: relações interpessoais e de comunhão amorosa.

Diz a Bíblia que no momento da criação do Homem, Deus parou, pensou e só depois agiu, insuflando o Espírito de vida no coração do barro amassado.

É esta a intervenção especial de Deus na criação do Homem.

O processo evolutivo é o barro a amassar-se. Só depois de a vida biológica atingir a complexidade específica do Homem o barro fica amassado.

A criação é um processo dinâmico e progressivo. Existe lógica, ordem e intencionalidade na Criação. Como sopro primordial a actuar no processo criador do Homem, o Espírito Santo está connosco mas nunca em nosso lugar.

 O sopro ou comunicação do Espírito não nos substitui na tarefa da nossa realização.

Ao germinar seres pessoais, o Universo torna-se irreversível e eterno. O Universo pré pessoal não é eterno.

Por ser Amor, Deus é eterno, pois o amor é fonte de si mesmo e tende sempre a exprimir-se de maneira única, original e irrepetível. Por isso Deus é novidade permanente.

A criação surge como obra de amor. Não é fruto do acaso. É um grito imenso de harmonia. A sua contemplação faz-nos exultar de júbilo e gera em nós ondas de poesia.

Mas ao criar o Universo, Deus pensou no Homem expressamente.

Por isso o Espírito Santo está a realizar a intervenção especial de Deus na criação da Humanidade até esta estar acabada.

Com o aparecimento do Homem, Deus já tem alguém para fazer uma Aliança. Criador e Criação já podem comungar!

São Paulo diz que o Espírito Santo é o Amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Como princípio animador de relações de amor, o Espírito santo, no nosso coração, é impulso de diálogo, encontro e comunhão.

É uma pessoa infinitamente perfeita. Por outras palavras, o Espírito Santo realiza todas as características pessoais em grau de perfeição infinita.

Além da sua identidade de ser único, original e irrepetível, acontece como ser livre, consciente e responsável.

Como a pessoa só encontra a sua plenitude na comunhão, o Espírito Santo encontra a sua plenitude na reciprocidade da comunhão Trinitária.

É o coração de todo o dinamismo comunitário. Por isso, a sua acção é personalizante.

 

É também o princípio animador do face a face do Pai com o Filho e o elo de união de todas as concretizações e formas de comunhão humana.

No nosso íntimo é o poder de nos tornarmos membros da Família Divina, não pela vontade da carne ou do Homem, mas por vontade de Deus (Jo 1, 12-13).

O Espírito Santo é o grande dom do Pai e do Filho pelo facto de ser no Espírito que o Pai nos acolhe como filhos e o Filho como irmãos. É o sangue de Jesus a circular nas veias do Corpo de Cristo do qual somos membros (Jo 6, 63). Este corpo é a unidade orgânica das pessoas. É espiritual, pois a carne e o sangue não podem tomar parte no Reino de Deus (1 Cor 15,50-51).

É o sopro de Deus sobre o barro primordial de que fala a Bíblia (cf. Gn 2, 7).

Na realidade o texto bíblico sugere que Deus, depois de ter amassado o barro humano primordial, lhe deu um beijo. Nesse momento, o hálito da vida divina, passou de Deus para o Homem. Este hálito divino ou o sopro vital não é outra coisa senão o Espírito Santo a actuar no interior pessoal e espiritual do homem.

Ninguém é capaz de se estruturar como pessoa sem se relacionar com outras pessoas. E o modo como a pessoa se estrutura depende do estilo de pessoas com as quais se foi cruzando relacionalmente.

Desta dinâmica relacional dependem dimensões fundamentais para a pessoa humana se realizar e ser feliz: a língua, os valores, as preferências, a cultura e outras. Ora, acontece que as pessoas humanas são estruturalmente uma abertura à transcendência. Esta dimensão tem a ver com esta acção pedagógica do Espírito Santo no coração do Homem.

Este modo de o Espírito Santo habitar o coração do homem é universal, isto é, comum a todos os homens. É condição essencial para acontecer a humanização da Homem.

Este beijo primordial repete-se em cada homem e dura a vida toda de uma pessoa, bem como o processo histórico de toda a Humanidade. De facto, o tempo da criação do Homem é a génese total da histórica. Por outras palavras, a criação do Homem está a acontecer até ao fim da história humana.

Não nascemos feitos e acabados. Nascemos para renascer. Deus inicia a criação de modo a este se criar em processo histórico. Os de Deus à Humanidade são sempre feitos em forma de possíveis, afim de a os poder aceitar ou não.

De outro modo não seriam dons mas imposições. O modo concreto de a pessoa aceitar os dons de Deus é realizar os possíveis que tem. É a parábola dos talentos.

Procedendo deste modo, a pessoa está a ser fiel a Deus e aos seres humanos através dos quais recebeu os seus talentos ou possíveis.

Além disso está a realizar-se como pessoa humana e a possibilitar a realização dos outros, pois ninguém pode realizar-se a não ser em relações com os demais. Por outras palavras, à medida em que nos humanizamos estamos a possibilitar a humanização daqueles que se cruzam connosco na vida.

Somos o resultado de um beijo primordial de Deus. Esta intervenção especial de Deus só aconteceu em relação ao homem.

Não aconteceu, por exemplo, em relação aos animais.

Além do beijo primordial que possibilita a humanização do homem, em Cristo Deus deu ao Homem o beijo da plenitude.

Este segundo beijo não aconteceu em função da criação do Homem, mas sim em função da sua salvação ou divinização.

 O primeiro beijo foi-nos dado por Deus Pai, a fim de nos criar. O segundo beijo foi-nos dado por Deus Filho, a fim de nos incorporar na Família divina como filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação a Deus Filho.

Em qualquer destes beijos é-nos comunicado o Espírito Santo, mas de modo diferente. No primeiro beijo o Espírito Santo é-nos comunicado como presença pedagógica em função da humanização do Homem.

Na segunda, como dinamismo intrínseco à maneira da seiva que vem da cepa da videira e circula para os ramos, tornando-os participantes da vida da videira (Jo 15, 1-8).

A comunicação divinizante do Espírito Santo, diz o evangelho de João, é como uma Água viva que Cristo nos dá e faz jorrar um manancial de vida eterna no nosso íntimo (Jo 7, 37-39).

Somos habitados pelo amor de Deus desde o primeiro momento da nossa existência. Isto é verdade, tanto a nível pessoal como colectivo.

É assim o mistério da pessoa, a qual é sempre habitada por outras pessoas. Ninguém se pode construir sozinho.

Bem sentimos como somos habitados pelas pessoas que nos marcaram, sobretudo na nossa infância.

O aprofundamento do mistério humano revela-nos que a plenitude da pessoa não está em si, mas na reciprocidade das relações de amor e comunhão.

A Carta aos efésios diz que fomos talhados para formarmos uma família com Deus mediante Jesus Cristo:

“Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos por meio de Jesus Cristo, de acordo com o plano que, amorosamente, elaborou para nós (…).

Deste modo nos manifestou o mistério da sua vontade e o plano amoroso que tinha estabelecido, a fim de conduzir os tempos à sua plenitude: submeter todas as coisas a Cristo, tanto as do céu côa as de terra.

Foi também em Cristo que fomos escolhidos como sua herança, predestinados de acordo com o desígnio que, livremente decidiu para nós” (Ef 1, 5-11).

Para conhecermos em profundidade o mistério do Homem precisamos de conhecer também os mistérios de Jesus Cristo e de Deus.

Por outras palavras, o conhecimento pleno do Homem não é apenas uma conquista da razão humana. É também um dom que Deus no concede através da Revelação.

Como pessoa, o Espírito santo realiza a natureza divina de modo diferente do modo em que a realiza o Pai, e o filho.

As qualidades das pessoas divinas são diferentes, pois a natureza divina realiza-se em cada uma delas de modo original, único e irrepetível.

Temos assim três modos diferentes de a natureza divina se concretizar, embora em total unidade e reciprocidade: paternidade, filiação e princípio animador de relações de comunhão.

As qualidades do Pai e do filho encontram-se em perfeita reciprocidade e são dinamizadas por esse vínculo de comunhão amorosa que é o Espírito Santo.

Pela dinâmica da Encarnação, o Espírito santo instaura uma interacção relacional directa entre a pessoa divina do Filho Eterno e a do homem Jesus de Nazaré.

Nesta interacção e reciprocidade as pessoas não se anulam. A interioridade espiritual humana de Jesus e a divina do Logos fazem um e o mesmo Cristo.

O mistério de unidade das pessoas do Pai e do Filho fazendo um só no Espírito Santo é o melhor padrão para exemplificar a unidade humano-divina de Cristo:

“Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).

Tal como acontece na união do pai e do Filho, a pessoa do Espírito Santo é o coração da unidade humano-divina de Cristo.

Na encarnação não há substituição da interioridade humana de Jesus pela Divindade do Logos. O Divino nunca anula o Humano.

Como a Humanidade forma uma união orgânica com Cristo, todos os seres humanos são incorporados na Comunhão divina em Cristo (Jo 17, 21-23).

Esta comunhão é animada pelo Espírito Santo, o amor maternal de Deus que é, como vimos, o princípio animador de relações de comunhão.

São Paulo diz que todos os que estão unidos a Cristo são uma Nova Criação (2 Cor 5, 17).

A assunção do humano no divino é o movimento complementar da encarnação ou enxerto do divino no humano.

Deus Pai predestinou-nos para sermos seus filhos em Cristo (Ef 1, 5).

Na verdade, a plenitude da Humanidade é a comunhão com a Divindade. São Paulo diz que o Pai ressuscitou-nos com Cristo, fazendo-nos sentar com Ele nos Céus (Col 2, 12).

Com a ressurreição de Cristo teve início a ressurreição da Humanidade.

O dinamismo ressuscitador do Espírito Santo continua a actuar na história humana até a Humanidade atingir o fim da sua génese histórica e ficar definitivamente assumida na comunhão com Deus.

A plenitude das pessoas humanas, portanto, é a comunhão orgânica com as pessoas divinas.

Por outras palavras, a Família Humana foi divinizada e incorporada na comunhão da Família Divina, graças ao mistério da Encarnação e da ressurreição de Cristo.

 

 

b) Compreender a Ternura de Deus

Quando aprofundamos o mistério de Deus estamos a conhecer a realidade do homem nos seus aspectos mais profundos.

O salmista fica espantado perante esta maravilha que é o homem criado à imagem e semelhança de Deus.

Este homem transcende o animal, aproximando-se dos seres celestiais.

Mais espantoso ainda é saber que Deus se ocupa do Homem, considerando-o um ser que lhe é muito querido:

“ Quando contemplo os céus,

Obra das tuas mãos,

A lua e as estrelas que tu criaste, eu pergunto-me:

 O que é o homem para que te ocupes dele,

O filho do homem para nele pensares e fazeres dele quase um ser divino?

De glória e honra o coroaste” (Sal 8, 4-6).

Por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, o Homem é uma expressão de Deus.

Mas isto aplica-se de modo privilegiado a Jesus de Nazaré, a quem a Carta aos Colossenses chama uma imagem perfeita de Deus:

“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a Criação” (Col 1, 15).

De tal modo o ser e o agir de Jesus se aproximava do ser e do agir de Deus que, segundo o evangelho de São João, Jesus diz que quem o vê Jesus, vê Deus Pai (Jo 14, 9).

Não exageramos nada se dissermos que a ternura de Deus para com o Homem se exprime de três formas diferentes:

1-A ternura paternal de Deus Pai para connosco que se exprimiu no gesto de nos enviar o seu Filho

2-A ternura fraternal de Deus Filho por todos nós e que se exprimiu na decisão da Encarnação;

3- A ternura maternal do Espírito Santo que nos vai preparando, a fim de fazermos parte da Família de Deus.

“E porque sois filhos, Deus Pai introduziu nos vos corações o Espírito de seu Filho, o qual clama “Abba”, ó Pai” (Ga 4, 6).

Como vemos, a ternura de Deus por nós exprime-se de modo diferente por cada pessoa divina, consoante a identidade e a missão de cada pessoa divina.

O Pai e o Filho fazem-nos experimentar a sua ternura por nós através do Espírito Santo, a pessoa divina que tem a missão de estabelecer os vínculos da comunhão orgânica entre a Humanidade e a Divindade.

Além disso, o Espírito Santo actualiza e plenifica nos nossos corações a revelação de Deus conduzindo-nos, deste modo, à verdade plena:

“Mas o Consolador, o Espírito Santo que o qual o Pai vai enviar em meu nome, ele vos ensinará todos as coisas e vos recordará tudo o que vos disse” (Jo 14, 26).

É o Espírito Santo que nos introduz no diálogo da Santíssima Trindade, pois, por nós mesmos, não temos qualquer capacidade para falar adequadamente com Deus:

“Do mesmo modo o Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza.

Nós não sabemos o que dizer ou pedir a Deus nas nossas orações, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos indizíveis” (Rm 8, 26)

Eis a razão pela qual devemos ser atentos e gentis com o Espírito Santo que habita em nós e com o qual fomos selados para o dia da salvação (Ef 4, 30).

O Espírito Santo é o vínculo vital da comunhão orgânica que liga a Humanidade com a Divindade.

Eis a razão pela qual dizemos que o Espírito Santo encarnou pelo Espírito Santo.

Com o seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo actualiza no coração das pessoas o mistério da salvação:

“Eu vou enviar-vos o Espírito Santo, o qual procede do Pai e vos mostra a verdade.

Ele vos dirá todas as coisas acerca de mim, pois virá para testemunhar de mim” (Jo 15, 26).

Como vemos, as três pessoas divinas estão envolvidas no mistério da salvação humana.

No entanto, como vimos, cada qual com a sua originalidade própria:

O Pai com seu jeito paternal de amar. O Filho com a sua originalidade e seu jeito fraternal de amar em relação a nós.

E o Espírito Santo que, com a sua ternura maternal, nos insere na comunhão familiar de Deus (Rm 8, 14-17).

 

c) Maturidade de Fé e Opções de Vida

A Fé Cristã confere aos crentes os horizontes mais amplos e profundos que é possível ter para saborear o sentido da vida pessoal, da História Humana e da génese do Universo.

Mas um cristão não chegará nunca a ter uma Fé adulta se não cultivar os conteúdos doutrinais da Palavra de Deus.

Uma coisa é esforçar-se por ser uma pessoa boa, outra é tentar ser uma pessoa adulta na vida cristã.

Mas a vida cristã não se esgota nos seus conteúdos doutrinais.

Um crente que toma Deus e os conteúdos da Fé a sério, procura viver de acordo com essa mesma Fé.

Se as Escrituras me falam da verdade de Deus e do Homem então temos de viver de acordo com a sua verdade.

Se tomo a Palavra de Deus a sério tenho de correr o risco!

A Carta aos Efésios aconselha os crentes a viverem como cristãos, e não como gentios:

“Não andeis como os gentios, na futilidade dos seus pensamentos, com o entendimento obscurecido, alienados da vida de Deus devido à ignorância e à dureza de coração” (Ef.4,18).

A nossa interioridade pessoal é um manancial de energias espirituais que formam uma identidade pessoal a crescer de maneira única, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa.

Somos seres em construção a todos os níveis do nosso ser, incluindo o espiritual.

A comunicação com Deus acontece a partir deste núcleo íntimo, o qual está para além das forças exteriores que tentam amarrar-nos nos limites do que é mortal.

O Espírito Santo convida-nos a encontrarmo-nos com Deus ao nível da transcendência, isto é, ao nível da nossa interioridade pessoal-espiritual que é o ponto de encontro com Deus e o mais profundo de nós mesmos, como diz o evangelho de João:

“Deus é espírito e os que o adoram devem adorá-lo em Espírito e Verdade” (Jo.4,24).

Deus é a origem e a cúpula de todas as energias espirituais.

No mais íntimo de mim mesmo, este Deus está em mim e por mim.

Um ser humano é tanto mais um cristão adulto quanto mais age em conformidade com estas verdades.

Eis o que é uma fé que nos convida para opções concretas, dando à nossa vida uma configuração cristã.

O sentido destas opções, portanto, não pode ser outro senão imprimir a dinâmica do amor às nossas relações e decisões.

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

Se Deus está em mim, então o fundamental, a fonte da minha felicidade está ao meu alcance.

Sabemos que, graças ao Espírito santo que nos habita é possível viver em comunhão permanente com as pessoas divinas.

São Paulo diz que o Espírito Santo que é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Além disso o Espírito Santo dá-nos a certeza de que somos filhos de Deus e leva-nos a exultar de alegria dizendo: “Abba” ó Pai.

Esta comunhão orgânica tem o jeito das relações familiares.

Somos filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho.

O Espírito Santo é a ternura maternal de Deus a moldar-nos constantemente e a configurar-nos com Cristo, a fim de sermos plenamente membros da Família Divina.

Podemos ter a certeza de que se nos prepararmos para acolher a vida plena da comunhão humano-divina esta está ao nosso alcance.

As nossas decisões, escolhas, e opções de vida são o grande impulsionador do que vamos sendo.

A Fé confere-nos os horizontes e os critérios para agirmos no sentido de conseguirmos o melhor, como diz o evangelho de Marcos:

 “Se acreditas, todas as coisas são possíveis para o que acredita” (Mc.9,23).

A fé converte-nos em crentes, capacitando-nos para termos sucesso nas nossas realizações. Mas isto é um dom que nos vem do Espírito Santo:

“Jesus abriu-lhes a mente, a fim de entenderem as Escrituras” (Lc.24,45).

Marcos dá-nos a garantia do sucesso pleno dos que acreditam e tomam Deus a sério:

 “Todas as coisas são possíveis para aquele que acredita” (Mc.9,23).

Mateus vai nesta mesma linha:

 “Se tiveres fé nada será impossível para ti” (Mt.17,21).

A Fé capacita-nos para tudo podermos em Deus:

“Faça-se segundo a tua fé” (Mt.9,29).

Tudo isto quer dizer que Deus está em nós e por nós.

Mas não esqueçamos que o Deus que está em nós e por nós nunca está em nosso lugar.

Por outras palavras, o Deus que nos possibilita o melhor, nunca nos substitui.

A Fé dinamiza as nossas forças espirituais que formam o núcleo da nossa personalidade.

Quando agimos movidos pela Fé, o nosso pensamento e a nossa acção ficam em sintonia com Deus:

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir sobre a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm.12,2).

Com Deus podemos realizar o melhor dos nossos talentos e possibilidades.

Mas nada disto acontecerá se não se não soubermos para onde queremos ir e com que forças podemos contar.

Esta descoberta é uma revelação de Deus e não uma mera invenção arbitrária.

Eis a razão pela qual é tão importante criarmos espaços de silêncio e diálogo com Deus sobre os nossos planos e objectivos, como nos aconselha a Carta aos Gálatas:

 “Se vivemos pelo Espírito, pautemos também a nossa vida pelo Espírito” (Ga.5,25).

O exercício da Fé dá-nos a confiança e a segurança para agirmos sem medo, diz o evangelho de Marcos:

“Tende fé em Deus. Em verdade vos digo, se alguém disser a este monte: atira-te daí e lança-te ao mar sem vacilar no seu coração, acreditando que isso vai acontecer, acontecerá” (Mc.11,22-23).

Este texto quer dizer que temos ao nosso dispor a força mais poderosa do Universo: a presença de Deus em nós.

Teremos acesso a esta força na medida em que procuremos exercitar a nossa fé, isto é, agir em conformidade com aquilo em que acreditamos pela revelação de Deus.

Os evangelhos falam-nos várias vezes de que os Apóstolos, antes da ressurreição de Jesus, não eram ainda capazes de passar da doutrina da Fé ao exercício da mesma Fé:

“Homem de pouca fé porque duvidaste?” (Mt.14,31).

A razão desta fragilidade e incoerência é porque ainda não tinham recebido o Espírito Santo.

Ora nós já vivemos na plenitude dos tempos, isto é, nos tempos da comunicação do Espírito Santo.

Fomos baptizados no Espírito Santo, a fim de formarmos uma união orgânica com Cristo, diz São Paulo:

“Fomos baptizados num mesmo Espírito, a fim de formarmos um só Corpo” (1 Cor 12, 13).

Quando Jesus foi a Nazaré não pode lá fazer milagres, pois aquela gente não tinha fé:

“E não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade deles” (Mt.15,38; Mc.6,6).

Tenhamos sempre presente de que o facto de uma actividade ou missão se tornar para nós fácil ou difícil depende da nossa capacidade de confiarmos em Deus e agirmos em conformidade com essa confiança. Eis o que significa a maturidade da vida cristã.