OS MISTÉRIOS DO
TEMPO
CALMEIRO MATIAS

Deus Santo,
louvado sejais por terdes dado à Criação a
possibilidade de emergir e se estruturar de modo harmonioso e progressivo ao
longo do tempo.
Vós iniciastes a génese da Criação a partir
de um leque primordial de possíveis, permitindo que a sua marcha aconteça numa
sequência de causas e efeitos.
Por ser um processo histórico, a marcha
criadora acontece de modo evolutivo, impelido pelos impulsos do tempo.
Na verdade, sem o tempo não podia acontecer
a génese evolutiva que possibilita a estruturação harmoniosa e progressiva das
realidades que constituem a Criação.
Com efeito, sem a sucessão e o dinamismo
do tempo a vida animal não podia evoluir nem atingir as maravilhosas complexidades
que lhe possibilitam os saltos qualidade.
Deus Santo,
Vós não precisais do tempo para serdes
uma família de três pessoas em perfeita comunhão amorosa.
Mas precisais do tempo para conduzir a
Criação à sua perfeição e plenitude!
Não tivestes necessidade do tempo para
serdes um Deus infinitamente perfeito, pois sois uma emergência permanente e
eterna de três pessoas infinitamente perfeitas em total convergência de
comunhão amorosa.
Mas nós, sem a dinâmica do tempo, não
podíamos atingir a nossa plena realização pessoal e comunhão amorosa.
O tempo surge no campo da nossa
experiência com uma gama diversificada de formas e dinamismos.
E é assim que descobrimos o tempo como realidade
que podemos medir pelos cronómetros.
A este nível, o tempo nasce como ponto-instante
e vai-se estruturando em segundos, minutos e horas.
Como realidade entretecida nos ciclos da
natureza, o tempo adquire uma duração especial a que damos o nome de ano.
Como realidade entretecida no tecido da
natureza, o ano apresenta-se-nos com os matizes coloridos e a força geradora e
os matizes coloridos da Primavera, do Verão, do Outono e do Inverno.
Considerando o tempo na unidade
misteriosa dos anos, este imprime a sua marca irreversível no rosto das
pessoas.
Isto é de tal modo verdadeiro que nós,
ao olharmos para o rosto de uma pessoa, detectamos facilmente nele as impressões
digitais do tempo em forma de anos.
Na verdade, ao cruzarmo-nos com outros
seres humanos, nós percebemos de modo espontâneo se ela tem cerca de vinte, cinquenta
ou mais anos.
Para calcularmos a realidade do tempo de
forma mais alargada, nós inventamos uma ciência que consiste em juntar os anos
de modo a formar séculos e milénios.
Deste modo torna-se mais fácil para nós
descobrir e analisar as impressões digitais do tempo no tecido da matéria e no
evoluir da História.
É admirável a exactidão com que os
peritos medem em séculos e milénios as marcas que os anos foram imprimindo na
estrutura das rochas, das plantas, bem como de homens ou animais fossilizados.
Ao nível das dimensões cósmicas quase
infinitas, o tempo é medido com essa unidade imensa a que damos o nome de ano-luz.
Os astrofísicos conseguem calcular os
milhões de quilómetros que nos separam das diversas estrelas através dessa
gigantesca unidade de medida a que damos o nome de ano-luz.
Mas existe ainda o tempo a nível da
vivência íntima da pessoa humana.
Temos, em primeiro lugar, o tempo
psicológico: como passam depressa as horas para dois jovens enamorados que,
numa tarde agradável de verão, partilham gestos de ternura junto ao mar.
Mas, pelo contrário, como as horas são
longas para a pessoa que está esperando por alguém que demora em chegar.
Temos ainda a experiência do tempo
biológico: como as feridas provocadas no corpo das crianças ou dos jovens
cicatrizam depressa.
De facto, as células jovens
reproduzem-se de modo muito acelerado.
Pelo contrário, como demoram a
cicatrizar as feridas nos corpos das pessoas idosas. Os pensos renovam-se ou
substituem-se por tempos que parecem nunca mais ter fim!
Outra experiência frequente do tempo
psicológico é o modo rápido como o tempo passa para o idoso.
É um dado mais que conhecido este de
ouvir um idoso a repetir a conhecida jaculatória: “Que depressa passa o tempo!”
Com o adolescente passa-se exactamente o
contrário, pois para ele nunca mais chega a idade de poder ter uma mota ou um
carro e poder sair à vontade!
Finalmente, os cristãos têm ainda a
experiência da Hora de Deus (kairós).
O Kairós é o tempo oportuno da salvação,
o momento em que o crente sente que Deus está a iluminar e a convidar-nos a
decidir e agirmos de acordo com a sua vontade amorosa para connosco.
Felizes dos que procuram auscultar a
vontade de Deus e procuram agir de acordo com ela, pois a vontade de Deus
coincide rigorosamente com o que é melhor para nós!