O QUE É A GRAÇA DE DEUS?

                                        Calmeiro Matias

 

 

 

 

 

 

A graça de Deus é o dinamismo da vida divina a circular em densidade humana no nosso coração. Esta vida divina é o resultado da nossa incorporação orgânica no mistério de Cristo ressuscitado.

Segundo o evangelho de São João, esta união orgânica é algo semelhante à união da cepa da videira com seus ramos (Jo 15, 1-8). Para São Paulo, trata-se de algo semelhante à união que existe entre os membros do corpo e o seu princípio coordenador, isto é, a cabeça (1 Cor 10, 17; 12, 27; 12, 13).

Na videira, o princípio que vivifica os ramos é a seiva que vem da cepa. No corpo humano é o sangue que leva os elementos essenciais para a vida das células. Na comunhão orgânica de Cristo com a Humanidade, o princípio animador é o Espírito Santo. É pelo Espírito Santo que somos incorporados com Cristo na comunhão familiar da Santíssima Trindade, filhos e herdeiros em relação a Deus Pai e irmãos e co-herdeiros em relação a Deus Filho (Rm 8, 14-17).

A Graça é um dom que nos é comunicado através de Jesus Cristo (Ef 2, 7). Tem a ver com a comunicação intrínseca do Espírito Santo que é como uma Água Viva que vem de Senhor ressuscitado para nós, tornando-se em nós um manancial de vida eterna (Jo 7, 37-39).

São Paulo ao falar da Graça relaciona-a sempre com Cristo ou com Deus Pai. No fundo é o modo como Deus Pai se comunica a nós no Espírito Santo e o modo com que o Filho se nos comunica neste mesmo Espírito. São João, ao falar da comunicação do Espírito Santo, relaciona esta comunicação umas vezes com o Pai, outras com o Filho. É a mesma verdade de São Paulo.

A Carta aos Efésios diz que a Graça nos é comunicada por Deus através de Cristo, fazendo de nós pessoas aceites na comunhão divina (Ef 1, 6). A Graça capacita-nos para agirmos de acordo com a vontade de Deus (Rm 1, 5; 6, 16). Isto significa que só estamos em sintonia com Deus mediante o Espírito Santo.

A Graça está com todos os que amam sinceramente a Jesus Cristo, (Ef 6, 24). Os Gálatas não devem anular a Graça de Deus, voltando para os ritos, normas e preceitos da Lei Judaica. Com efeito, diz Paulo, se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu em vão (Ga 2, 21). Para São Paulo o contrário da Graça é a Lei Mosaica: “É Deus que nos torna aptos para sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito dá vida” (2 Cor 3, 6).

Paulo recebeu de Deus a garantia de que a Graça era suficiente para ele realizar a obra do Evangelho, apesar das suas debilidades e limitações (2 Cor 12, 9). Isto significa que o Espírito Santo optimiza as nossas capacidades, tornando-nos aptos a levar por diante a obra do Evangelho (2 Cor 12, 9).

Através de Cristo, diz Paulo, recebemos a Graça e o Apostolado, a fim de levarmos à obediência da fé a totalidade das nações (Rm 1, 5). Dizer que a graça de Deus que nos capacita para obra do Evangelho é o mesmo que dizer que é Deus quem nos torna capazes de anunciar a palavra de modo eficaz: “Não é que sejamos capazes de conceber alguma coisa como de nós mesmos. A nossa capacidade provém de Deus” (2 Cor 3, 5).

O evangelho de Lucas diz que o Menino Jesus ia crescendo em estatura e sabedoria, pois a Graça de Deus estava sobre Ele (Lc 2, 40). Faz-nos lembrar o Espírito Santo a pairar sobre as águas primordiais.

O evangelho de João, referindo-se a Cristo, diz que Ele estava cheio de Graça e Verdade (Jo 1, 14). É de Cristo que todos recebemos Graça sobre Graça (Jo 1, 16). Com efeito, acrescenta, a Lei foi dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17).

Após o Pentecostes, dizem os Actos, os Apóstolos ficaram cheios de poder, pois a Graça pairava sobre eles (Act 4, 33). Quando a Bíblia diz que o Espírito Santo paira sobre as pessoas, que dizer que as consagra e capacita para realizarem uma missão.

Paulo, dizem os Actos dos Apóstolos, foi chamado por Jesus Cristo para testemunhar o Evangelho da Graça de Deus (Act 20, 24). As potestades maléficas não têm poder sobre nós, pois não estamos sob o domínio da Lei mas sob o domínio da Graça (Rm 6, 14). Se estamos salvos pela Graça, então não é devido às obras da Lei. De outro modo, a Graça já não seria Graça (Rm 11,6). 

São Paulo confessava que o sucesso da sua evangelização era obra da Graça de Deus: “Pela Graça de Deus sou o que sou e a graça que me foi concedida não foi estéril. Pelo contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles, não eu, mas a Graça de Deus que está comigo” (1 Cor 15, 10).

Estes textos demonstram como a Graça se identifica com a acção do Espírito Santo em nós. Ele é a seiva que vem da cepa para os ramos ou o sangue de Cristo que circula pelos membros do seu corpo, vivificando-os e tornando-os fecundos.

Paulo explicita esta verdade de maneira brilhante quando diz “que ninguém, falando sob a acção do Espírito Santo, pode dizer: ‘Jesus é maldito. ’ Do mesmo modo ninguém pode dizer que Jesus é o Cristo ressuscitado, a não ser pelo Espírito Santo” (1 Cor 12, 3).

Noutra passagem muito bonita, acrescenta: “Como o Corpo é um só e tem muitos membros e os membros do Corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. Fomos todos baptizados no mesmo Espírito, a fim de formarmos um só Corpo. De facto, tanto judeus e gregos como escravos e livres, todos bebemos de um só Espírito” (1 Cor 12, 12-13).

Eis uma expressão muito significativa: Beber o Espírito Santo. Não é difícil ver a relação existente entre um texto destes e a Eucaristia. São João diz que o Espírito Santo é a Água viva que faz jorrar no nosso íntimo a Vida eterna (Jo 7, 37-39; 4, 14). É a seiva que vem da Cepa para os ramos, tornando-os fecundos: “Eu sou a videira e vós os ramos. Quem permanece mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5).

A fonte da Graça é a Santíssima Trindade, comunhão amorosa de três pessoas. O portador da Graça é Jesus Ressuscitado e o dinamismo da Graça é o Espírito Santo a actuar em nós. São João recorda-nos esta verdade dizendo: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse ensinar-vos-à tudo e vos recordará o que eu vos disse” (Jo 14, 26).

Como vemos, a vida da Graça é mais que uma consequência da nossa união orgânica à Trindade Divina através de Jesus Cristo: “Pai, peço-te para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti. Para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21).

Todos conhecemos a fórmula trinitária com que Paulo encerra a segunda Carta aos Coríntios. Aqui, a Graça, aparece ao lado do amor de Deus e da comunhão no Espírito Santo. É um dos textos importantes para compreendermos a acção comum da Santíssima Trindade na salvação da Humanidade: “A Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão no Espírito Santo estejam com todos vós” (2 Cor 13, 13).

A segunda Carta de Pedro aconselha os cristãos a crescerem na Graça e no conhecimento de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador (2 Pd 3, 18). Vemos assim como Graça e o conhecimento de Jesus Cristo constituem o núcleo da vida cristã.

Enquanto comunhão com Deus, a Graça capacita-nos e conduz-nos à comunhão com os irmãos. O conhecimento de Cristo torna-nos aptos para a obra da evangelização do mundo. A Graça é o próprio dinamismo da nossa comunhão orgânica com Deus.

Por ser resultado desta comunhão humano-divina, a Graça é o fermento que faz levedar a massa e o sal que confere sabor à Vida e à História Humana: “Foi em Cristo que acreditastes e fostes marcados com o selo do Espírito Santo prometido, o qual é a garantia da herança que receberemos no dia da redenção” (Ef 1, 13-14). Estamos salvos pela Graça. Mas a Graça não se impõe. Depende de nós acolhê-la ou não.