O MATRIMÓNIO NOS PLANOS DE DEUS
CALMEIRO
MATIAS

a) Talhados
Para a Comunhão Matrimonial
b) O Matrimónio Como Lugar de Santificação
c) O Matrimónio Como Sacramento
a) Talhados Para a Comunhão Matrimonial
A Bíblia reconhece que o casamento é um projecto que faz
parte do plano criador de Deus.
Ao pensar na criação do Homem, Deus pensou-o em termos de
ser talhado para o amor fecundo, o qual se realiza em termos de comunhão
familiar:
“Depois, Deus disse: “façamos o ser humano à nossa imagem e
semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre
os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.”
Deus criou o ser humano à sua imagem, criou à imagem de
Deus, ele os criou homem e mulher.
Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos,
enchei e dominai a terra” (Gn 1, 26-28).
Deus sonhou o homem à sua imagem, por isso os criou,
acrescenta o Génesis, homem e mulher.
Este texto é verdadeiramente a primeira afirmação, embora
ainda não explícita, de que a divindade é relações de amor fecundo.
Por outras palavras, Deus não é um sujeito infinito que vive
sozinho numa transcendência fechada.
A divindade é relações de amor fecundo. E porque o amor
fecundo e criador é a calda da felicidade, Deus sonhou o Homem com este mesmo
jeito de ser.
De tal modo o texto do Génesis é significativo que o Novo
Testamento o cita várias vezes.
São Mateus serve-se do texto para defender a
indissolubilidade do matrimónio:
“Jesus respondeu: “Não lestes que o Criador, desde o
princípio, fê-los homem e mulher, e disse: por isso o homem deixará pai e mãe e
se unirá á sua mulher, e serão os dois um só?
Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus
uniu não o separe o homem” (Mt 19, 4-6).
Os escritos de São Paulo, bem como os evangelhos de Marcos,
Mateus e Lucas pressupõem que Jesus ressuscitado viria dentro de pouco tempo
para fundar o reino messiânico sobre a terra.
Neste reino as pessoas humanas estão todas glorificadas à
semelhança de Cristo ressuscitado.
A questão do casamento, portanto, já não se punha, pois no
reino de Deus, os homens e as mulheres são como anjos:
“Na ressurreição, nem os homens terão mulheres, nem as
mulheres maridos; mas serão como anjos no Céu” (Mt 22, 30).
Pensando que a segunda vinda de Cristo estava prestes a
acontecer, São Paulo achava preferível não casar, pois já não havia tempo para
criar os filhos e o casamento ia acabar muito em breve.
No entanto, acrescenta que, mesmo assim, os que preferirem
casar podem fazê-lo sem qualquer problema.
Além disso devem cumprir os deveres matrimoniais sabendo
que, ao unir-se, formam uma união orgânica.
Por isso o corpo da esposa é pertença do marido e o corpo do
marido é pertença da esposa:
“A respeito da opinião que me pedistes por escrito penso que
seria bom para o homem abster-se da mulher.
Todavia, para evitar o perigo da incontinência, cada homem
tenha a sua esposa e cada esposa o seu marido.
O marido cumpra os seus deveres conjugais para com a esposa
e esta para com o marido.
A esposa não pode dispor do seu corpo, mas sim o marido.
Do mesmo modo, o marido não deve dispor do seu corpo, mas
sim a esposa.
Não vos recuseis um ao outro, a não ser por mútuo acordo e
apenas por algum tempo, a fim de vos dedicardes mais intensamente à oração.
Depois voltai um para o outro, a fim de não cairdes nalguma tentação perigosa.”
(1 Cor 7, 1-5).
São Paulo pensava que Deus criou primeiro Adão e depois Eva.
Ao criar Adão Deus fê-lo à sua imagem. Ao criar Eva fê-la à
imagem de Deus. Havia, portanto, uma certa subordinação.
São Paulo entendia o mistério da comunhão do varão e da
mulher como uma união orgânica que faz dos dois uma só carne, como diz o livro
do Génesis (Gn 2, 24).
Além disso pensava que Deus tinha criado o varão para ser o
chefe da criação. Só depois é que criou a mulher, a qual foi criada para
conferir a plena felicidade ao varão.
É esta a razão pela qual o Apóstolo vê o homem como cabeça
da mulher, embora reconhecendo a mesma dignidade.
Compara a união do marido com a esposa á união de Cristo com
a Igreja.
Este é um dos aspectos fundamentais para considerarmos o
matrimónio como sacramento, isto é, corporização, explicitação e visibilidade
de uma realidade que o transcende.
É neste contexto que devemos entender o seguinte texto da
Carta aos Efésios:
“Submetei-vos uns aos outros pela veneração que deveis a
Cristo: as esposas devem submeter-se aos seus maridos como ao Senhor, pois o
marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja. Ele é o salvador
do Corpo que é a Igreja.
Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim as mulheres
aos maridos, em tudo.
Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja
e se entregou por ela, a fim de a santificar, purificando-a no banho da água
pela Palavra (…).
Assim devem também os maridos amar as suas esposas, como se
do seu próprio corpo se tratasse.
Quem ama a sua mulher ama-se a sim mesmo. Como sabeis,
ninguém odeia o seu próprio corpo.
Pelo contrário, alimenta-o e cuida dele como Cristo faz com
a Igreja.
Por isso, o homem deixará pai e mãe, unir-se-à à sua mulher
e formarão os dois uma
só carne.
Grande é este mistério. Eu interpreto-o em relação a Cristo
e a Igreja” (Ef 3, 21-32).
Este texto ajuda-nos a compreender o sentido bíblico do
termo carne: o ser humano como interioridade talhada para a relação e para
formar um todo orgânico com os outros.
Deste modo s torna claro para nós o significado da carne de
Cristo, do formar o Corpo de Cristo, de comer a carne de Cristo, da
ressurreição da carne e do facto de a mulher e o varão formarem uma só carne.
Como sabemos, os sacramentos só existem na história.
Como sabemos, os sacramentos são celebrações comunitárias da
Fé que imprimem na vida dos que os celebram uma dinâmica nova.
No Reino de Deus já não há sacramentos. Eis a razão pela
qual os vínculos sacramentais do matrimónio acabam com a morte de um deles.
O casamento de um viúvo ou de uma viúva não tem nada a ver
com infidelidade ou menos amor pela pessoa que partiu primeiro.
São Paulo, na Carta aos Romanos, insiste neste aspecto:
“Do mesmo modo, a mulher casada só está vinculada ao marido
enquanto ele viver. Se o marido morrer, fica liberta da lei que a liga ao
marido.
Eis a razão pela qual ela será declarada adúltera se vier a
entregar-se a outro homem enquanto o marido viver.
Mas se o marido morrer fica liberta da lei que a liga ao
marido e não comete adultério se vier a unir-se a outro homem” (Rm 7, 1-3).
No contexto desta citação, São Paulo não está a falar
directamente do matrimónio, mas da caducidade da lei mosaica.
Na Primeira Carta aos Coríntios o Apóstolo volta a insistir
neste aspecto. Mas agora referindo-se à brevidade da segunda vinda de Cristo.
Como diz na Carta aos Efésios, Paulo diz que seria melhor
não casar. Mas não faz mal algum se decidir casar:
“A respeito dos solteiros, não tenho nenhum mandamento do
Senhor, mas dou um conselho, como homem que, pela misericórdia do Senhor, é
digno de confiança (…).
Estás casado? Não procures romper o vínculo. Não estás
comprometido? Não procures mulher.
No entanto, se te casares, não pecas. E se uma virgem casar
também não peca (…).
Eis o que vos digo, irmãos: “O tempo é breve. De agora em
diante os que têm mulher vivam como se a não tivessem.
Do mesmo modo os que choram, procedam como se não chorassem
e os que se alegram como se não se alegrassem.
Assim também os que usam das coisas deste mundo como se não
usufruíssem dele, pois o mundo das aparências está a terminar.
Eu quisera que estivésseis livres de preocupações. De facto,
quem não tem esposa cuida das coisas do Senhor, do modo como o há-de servir e
agradar-lhe (…).
Portanto, aquele que desposa a sua noiva faz bem, mas o que
não a desposa faz ainda melhor.
A mulher permanece ligada ao marido enquanto viver. Se,
porém, o marido vier a falecer, fica livre para se casar com quem quiser,
contanto que seja no Senhor.
No entanto, segundo o meu pensamento, a viúva será mais
feliz se permanecer como está. Julgo que também eu tenho o Espírito do Senhor”
(1 Cor 7, 25-40).
Com esta linguagem misteriosa o Apóstolo quer dizer apenas
os crentes devem fazer de Deus uma causa primeira, à frente de todas as outras,
incluindo as coisas mais legítimas e boas.
A Bíblia tem uma visão muito positiva do casamento e vê nele
uma das principais mediações das bênçãos e dos dons de Deus.
O livro dos Provérbios, pensando na exultação e no júbilo de
Adão quando Deus lhe apresentou a Eva (Gn 2, 23) diz o seguinte:
“Aquele que acha uma esposa, acha a felicidade e recebe um
grande dom de Deus” (Pr 18, 22).
No Evangelho de São Mateus Jesus faz uma promessa
fundamental para a Igreja e que se aplica exactamente com o mesmo valor ao
matrimónio:
“Digo-vos ainda: se dois de entre vós se unirem na terra,
para pedir qualquer coisa, hão-de obtê-la de meu Pai que está no Céu.
Na verdade, onde estiverem dois ou três reunidos em meu
nome, eu estou no meio deles” (Mt 18, 19-20).
É aqui que podemos fundamentar a dinâmica sacramental do
matrimónio, a qual tende a conduzir a família para se realizar como uma Igreja
Doméstica!
Embora tenha um carácter universal, o mandamento do amor,
tal como aparece explicitado no evangelho de São João, aplica-se igualmente de
modo particular à família e aos esposos de modo particular:
“É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como
eu vos amei.
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos
seus amigos” (Jo 15, 13).
A Carta aos Filipenses dá uma série de conselhos sobre as
relações de amor e fraternidade a que poderíamos dar o nome de regra de oiro
para a família e, de modo particular, para o casal:
“Nada façais por ambição, exibicionismo ou vaidade. Pelo
contrário, em atitude de serviço e humildade considerai os outros como
superiores a vós próprios, não tendo em mira os próprios interesses, mas os
interesses dos outros” (Flp 2, 3-4).
A Primeira Carta de São João faz uma análise muitíssimo
profunda sobre o amor.
O amor liberta e dá plena confiança. Não tem sentido haver
amor profundo e existir qualquer forma de ansiedade ou temor:
“No amor não há temos. Pelo contrário, o perfeito amor lança
fora o temor.
De facto, o amor pressupõe castigo. Por isso quem teme não
vive o amor de modo perfeito (…).
Se alguém disser: “eu amo a Deus”, mas tiver ódio ao seu
irmão, esse é um mentiroso.
Na verdade, o que não ama o seu irmão que vê, não pode amar
a Deus, a quem não vê.
Nós recebemos do Senhor este mandamento: quem ama a Deus,
ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 18-21).
Quantas histórias matrimoniais dolorosas e cheias de temor.
A esposa e os filhos, ao ver o dia a aproximar-se do fim
começam a ficar com o coração comprimido. Está quase a chegar a hora do marido
e do pai chegar a casa!
Quantos filhos machucados e cheios de angústia ao verem que
os seus pais não se amam como se amam os pais dos seus amigos.
Quantos soluços e desabafos deste tipo: mas porque razão não
posso ter uma família feliz
como têm as outras pessoas!
Todos nós conhecemos histórias destas. Aqui, o amor não é
perfeito, pois a calda que se vive não é a alegria e a serenidade, mas a
ansiedade e a angústia.
Na Carta aos Gálatas, São Paulo enumera os frutos que o
Espírito Santo produz no coração dos que se deixam conduzir por ele.
Os frutos enumerados pelo Apóstolo formam uma excelente para
a emergência do amor conjugal e para a felicidade da família.
Não nos esqueçamos de permitir ao Espírito Santo transformar
os nossos corações, a fim de brotarem em nós os frutos que são Paulo enumera:
“Por seu lado, são estes os frutos do Espírito Santo: amor,
alegria, paz, paciência, benignidade, fidelidade, mansidão, auto-domínio.
Contra estas coisas não há nenhuma lei” (Ga 5, 22-23).
O perdão, a amabilidade e uma linguagem correcta são a rocha
firme sobre a qual deve edificar a o amor e a comunhão familiar.
A este propósito, a Carta aos Efésios faz uma recomendação
muito sugestiva:
“Toda a espécie de azedume, agressividade, gritaria, bem
como toda a maldade deve desaparecer de entre vós.
Pelo contrário, procurai ser bondosos e compassivos,
perdoando-vos mutuamente, como também Deus vos perdoou em Cristo” Ef 4, 31-32).
Se a família deve ser uma Igreja doméstica, então o que é
dito no Novo Testamento sobre o amor e a comunhão na comunidade cristã
aplica-se plenamente à comunidade familiar.
A autoridade, na família, deve assentar sobre o fundamento
sólido do serviço e não da imposição e muito menos de imposições arbitrárias e
caprichosas.
Eis o que a este propósito diz o Evangelho de Marcos.
A Fé confere-nos critérios diferentes dos critérios e do
modo de ver do mundo.
Eis a razão pela qual ser o primeiro e o maior à luz do
Evangelho significa agir como o que serve e procura facilitar o crescimento e a
realização dos outros:
“Jesus chamou-os e disse-lhes: “Sabeis como os governantes
das nações exercem a autoridade e como os grandes procuram exercer o seu poder.
Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre
vós, ponha-se ao serviço e
quem quiser ser o primeiro faça-se o servo.
Também o filho do Homem não veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por todos” (Mc 10, 43-45).
Face a um texto destes desaparece a questão de quem deve ser
o primeiro nas relações do casal.
Jesus possui a autoridade plena porque viveu a sua vida com
um sentido total de serviço aos demais. Levou o amor até ao limite: dar a vida
pelos outros.
Como sabemos, não há casais perfeitos, como não há famílias
ideais.
O matrimónio é um projecto de amor que se vai realizando de
modo gradual e progressivo.
O casal cristão, graças aos dados da revelação de Deus,
dispõe de uma série de critérios que lhe possibilitam atingir uma novidade que
é exclusiva do cristão: a vida teologal.
A vida teologal constitui a originalidade do cristão no
mundo.
Graças à vida teologal o cristão está capacitado para viver
as diversas facetas da vida humana com horizontes absolutamente desconhecidos
dos não cristãos.
Entre as facetas fundamentais da vida humana está,
naturalmente o casamento.
Quanto mais o casal cristão vive o seu casamento em
densidade teologal, mais está a viver a dinâmica sacramental do matrimónio.
São Paulo faz uma leitura teologal do amor que é, realmente,
um tesouro de sabedoria.
Como sabemos, a vida teologal é a sabedoria que vem do
Evangelho mediante a acção do Espírito Santo no coração dos crentes.
Esta sabedoria optimiza as relações interpessoais, de modo
especial as atitudes de fé, esperança e amor.
Optimizadas pela sabedoria teologal as atitudes de fé,
esperança e amor, atingem a densidade teologal, isto é, adquirem o jeito do
próprio Jesus Cristo.
Eis a leitura teologal que São Paulo faz do amor teologal,
isto é, amor ao jeito de Cristo:
“O amor é paciente e é prestável.
Não é invejoso, nem arrogante ou orgulhoso.
O amor nada faz de inconveniente, nem procura o seu próprio
interesse.
Não se irrita nem guarda ressentimento.
O amor não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a
verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará” (1 Cor 13, 4-8).
b) O Matrimónio Como Lugar de Santificação
Deus é uma comunhão amorosa de três pessoas. Eis o sentido
da afirmação bíblica que define Deus como Amor (1 Jo 4, 16).
Só através do amor o ser humano pode chegar a conhecer Deus,
diz a Primeira Carta de São João. Quem não ama nunca chegará a conhecer a Deus
(1 Jo 4, 7-8).
Conhecer, para na Bíblia, significa formar uma união
orgânica.
Só se conhece alguém na medida em que acontece reciprocidade
amorosa e fecunda.
Adão conheceu Eva e deste facto nasceu-lhes um filho:
“Adão conheceu Eva, sua mulher. Ela concebeu e deu à luz
Caim, e disse: “Gerei um homem com a ajuda do Senhor” (Gn 4, 1).
Através da revelação e graças à sua vida amorosa, o casal
cristão tem condições excelentes para atingir estádios profundos de santidade.
Deus é santo por ser comunhão amorosa. Na medida em que o
casal se edifica sobre o amor está a crescer em santidade.
Como sabemos, o amor é uma dinâmica de bem-querer que tem
como origem a pessoa e como meta a comunhão.
Eis o caminho para conhecer Deus e crescer na santidade.
O chamado privilégio Paulino permite o casamento entre um
crente e um não crente ou membro de outra religião.
São Paulo diz que o cônjuge cristão é mediação para a
santificação do cônjuge não cristão:
“Aos outros, digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem uma
esposa não crente e esta consente em habitar com ele, não a repudie.
Do mesmo modo, se alguma mulher tem um marido não crente e
este consente em habitar com ela, não o repudie.
De facto, o marido não crente é santificado é santificado
pela esposa e a mulher não crente é santificada pelo marido.
Se assim não fosse, os filhos que tendes ou venhais a ter
seriam impuros, quando, na realidade, são santos.
No entanto, se o marido não crente quiser separar-se, que se
separe, pois em tais circunstâncias, nem o irmão nem a irmã estão vinculados.
Deus chamou-vos para viverdes em paz. Deste modo, talvez tu,
esposa, possas salvar o teu marido.
Do mesmo modo, talvez tu, marido, possas salvar a tua
esposa” (1 Cor 7, 12-16).
O essencial da santidade matrimonial, portanto, não está nos
conceitos religiosos, mas a vivência fiel e dedicada do amor.
A plenitude dos mandamentos e da própria Fé é o amor.
Paulo partia de um princípio muito importante que é este: se
o cônjuge cristão é realmente um crente bem preparado, tem um jeito de viver
para partilhar com o outro cônjuge e com os filhos, que não pode deixar de os
transformar segundo os valores do Evangelho.
Além disso, nenhuma religião seja ela qual for, possui uma
sabedoria que se compare à sabedoria teologal.
Por outras palavras, a sabedoria teologal confere sentidos
de vida e razões para viver e se comprometer com o amor como nenhuma outra
sabedoria religiosa é capaz de conferir.
A razão desta originalidade cristã radica, não em qualquer
tipo de superioridade dos cristãos, mas na Palavra de Deus que é o alicerce e o
alimento dessa sabedoria teologal.
A Palavra de Deus e o Espírito Santo a actuar na comunhão
familiar através do cônjuge cristão não pode deixar de conduzir a comunidade
familiar aos horizontes da Fé, da Esperança e da Caridade, isto é do amor ao
jeito de Cristo.
Outro aspecto importante para a felicidade e a santificação
dos esposos é o cumprimento dos deveres conjugais.
Como vimos acima, São Paulo insiste que os esposos não se
devem defraudar em relação aos deveres conjugais.
O marido proceder em favor da esposa e esta do marido, pois
os dois fazem uma só carne, isto é uma união orgânica.
Neste aspecto, os esposos não são donos de si próprios (1
Cor 7, 1-5).
O amor é, portanto, o único caminho da santidade.
O amor depende da vontade. A paixão é um impulso emocional
que não depende de nós.
Vem sem nós querermos e desaparece sem darmos por isso.
Com o amor não é assim. Ninguém ama sem querer.
O amor supõe decisões, escolhas e projectos em favor de
outro.
Por isso os esposos podem perguntar-se sobre as suas
decisões e projectos em relação ao fortalecimento do amor, sobretudo tendo como
pano de fundo o texto de São Paulo sobre o amor:
Procuro ser paciente com o meu companheiro?
Lembro-me de ser amável?
Procuro perdoar quando sou magoado?
Procuro honrar o meu companheiro, dispondo-me a servir e não
a pretender sempre ser servido?
Tento robustecer a minha confiança no meu companheiro, sabendo
que este é o caminho para o ajudar a ser transparente?
Procuro ser compreensivo, aceitando as diferenças e até os
seus defeitos?
Procuro encorajar o meu companheiro e facilitar a sua
realização pessoal?
Esforço-me realmente por ser fiel?
Convido o meu companheiro, no sentido de criarmos momentos
de diálogo e revisão do nosso amor?
Tento reforçar a minha decisão de construir uma história de
amor até que a morte nos separe?
Lembro-me de convidar o meu companheiro para momentos de
oração conjugal, sabendo que a rocha firme para construirmos o nosso amor é o
próprio Deus?
Lembro-me de convidar o meu companheiro a ler a Bíblia em
conjunto, sabendo que a Palavra de Deus optimiza o nosso amor, conferindo-lhe
os horizontes do amor de Cristo?
Lembro-me de que é muito importante ser lento para falar e
estar atento para escutar?
Lembro-me de dar graças a Deus pelo meu companheiro e pelos
meus filhos?
Lembro-me que a nossa aliança de amor está inscrita na
Aliança do amor de Deus para connosco?
O amor depende da vontade. Procuro criar atitudes que
reforcem o amor?
Não esqueçamos que existem umas tantas palavras mágicas que
fortalecem o amor: Obrigado, por favor, desculpa, amo-te, etc.
Quando te sentires confuso e não souberes o que fazer, pára
e não faças nada!
Há coisas que se resolvem magicamente se as adiarmos para o
dia seguinte.
Como vemos, o amor é algo que precisa de ser alimentado.
É muito importante que os esposos recordem propositadamente
o amor dos primeiros tempos e concluam que esse amor é para crescer e ficar
cada vez mais robusto.
Isto quer dizer que a santidade matrimonial é um projecto
onde podemos contar com a presença sempre presente do Espírito Santo.
É muito importante que os esposos se lembrem de que a
primeira prioridade da sua vida é a felicidade conjugal e familiar.
Para isso, os esposos devem dialogar e decidir sobre dias
para gastarem junto, libertos das demais preocupações.
É sinal de grande sabedoria não deixar acumular tensões e
silêncios prolongados.
Não esqueçam a sábia equação sobre o modo de chegar a
acordo: SIM + NÃO = NÃO.
Quando Isto acontece é sinal de que chegou o momento de
fazer uma paragem para rever como está a caminhar a vossa aliança matrimonial.
O caminho da santidade é o caminho do amor. Amar implica
saber morrer a muitas coisas para poder ressuscitar com uma nova capacidade de
amar.
E importante lembrarmo-nos de que o Homem em construção e de
que o matrimónio é um dos pilares fundamentais para as pessoas humanas chegarem
à sua plena humanização.
c) O Matrimónio Como Sacramento
Os sacramentos são celebrações comunitárias da Fé através
das quais o Espírito Santo fortalece a dinâmica teologal dos crentes que os
celebram.
Nenhum sacramento pode ser celebrado antes do baptismo.
Por outro lado, a celebração litúrgica do baptismo atinge a
sua plena realização no baptismo no Espírito.
Deste modo os sacramentos são concretizações do baptismo no
Espírito nas diferentes facetas da vida cristã:
União orgânica com Cristo mediante o Espírito Santo
(Eucaristia).
Consagrados pelo Espírito para a obra da evangelização
(Confirmação).
Chamados a caminhar para a família universal do Reino de
Deus construindo uma família humana onde os esposos vivem uma aliança de amor,
animados pelo Espírito Santo (Matrimónio).
Participantes da vitória de Cristo sobre a morte (Santo
Unção)
Chamados a viver reconciliados com os irmãos, o único
caminho para vivermos a condição de uma Nova Criação reconciliada com Deus.
Esta reconciliação, Deus a realizou por meio de Cristo que
não leva mais em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19).
Mas esta reconciliação é para cada um de nós na medida em
que nos reconciliamos com os irmãos (Mt 6, 14).
Os sacramentos são celebrações comunitárias da Fé.
Todos eles são mediações para o Espírito Santo configurar os
crentes com Cristo ressuscitado.
Eis a razão pela qual os sacramentos têm uma eficácia que se
prolonga pela vida dos crentes que os celebram.
É
importante não confundir celebração litúrgica do sacramento do matrimónio com a
dinâmica sacramental do casamento cristão.
Do
mesmo modo é importante não confundir celebração litúrgica do baptismo cristão
com o baptismo no Espírito de que nos fala o Novo Testamento ou seja, a
dimensão pentecostal da vida cristã.
A
celebração litúrgica do baptismo demora aproximadamente uma hora, enquanto o
baptismo no Espírito é uma dinâmica que confere densidade teologal à vida dos
cristãos.
De
modo idêntico, a celebração litúrgica do matrimónio cristão demora
aproximadamente uma hora. Mas a dinâmica sacramental do casamento cristão
resulta da vida teologal, a qual emerge no coração dos esposos como fruto do
baptismo no Espírito.
Assim
como depois de se baptizar uma criança um jovem ou um adulto não ficou um
cristão acabado, assim também, depois da celebração litúrgica do matrimónio, a
realidade do casamento cristão não está terminada.
As
pessoas que casam pela Igreja realizam a celebração litúrgica do matrimónio
cristão, mas são poucos os casais que vivem a dinâmica sacramental do casamento
cristão.
É
fundamental que, nestes tempos de crise familiar, haja cada vez mais casais
cristãos que vivam a dinâmica sacramental do seu casamento, a fim de serem,
como diz o evangelho, sal, luz e fermento no meio deste mundo a desumanizar-se
por falta de famílias que sejam alfobres da humanização da pessoa humana.
A
diversidade dos sacramentos significa a pluralidade de facetas em que a acção
salvadora de Deus está a acontecer na vida Humana.
Além
disso, os sacramentos visibilizam ou corporizam uma realidade que os
transcende.
No
Céu já não há sacramentos, pois temos a realidade que eles explicitam.
O
sacramento do matrimónio explicita e dá corpo à comunhão universal da Família
de Deus que é o Reino de Deus.
Por
outro lado, a comunhão universal da família de Deus, não assenta sobre os laços
do sangue mas sobre os laços do Espírito Santo.
Eis
a razão pela qual a família cristã deve viver a dinâmica do baptismo no
Espírito, de modo a formar uma igreja doméstica e, deste modo, explicitar a
realidade espiritual da Família de Deus.