JESUS CRISTO E A REDENÇÃO DA
HUMANIDADE
CALMEIRO MATIAS

1- Jesus não se
considerou uma vítima de expiação
2- Redenção e a
missão de Cristo como medianeiro
3- Redenção e
Função Sacerdotal de Cristo
4- Cristo,
Sumo-Sacerdote e Redentor
5- A hora da
Redenção em São João
6- A Redenção em
São Paulo
7- Morte de Jesus
e Redenção
7.1- Jesus e a sua
morte
7.2- Morte de
Jesus e Salvação
1- Jesus não se considerou uma
vítima de expiação
A
teologia tradicional via a acção redentora de Jesus Cristo como algo realizado
num momento determinado.
Segundo
este modo de ver, a redenção da Humanidade seria o resultado automático da
morte violenta sofrida por Jesus.
Deste modo, a vida histórica de Jesus de Nazaré
ficava sem um valor propriamente redentor.
A morte de Jesus ficava assim reduzida a
um mero acontecimento expiatório.
Por outro lado, o acontecimento da
Encarnação só tinha valor na medida em que aconteceu para proporcionar uma
vítima adequada para o sacrifício de expiação.
Jesus
entendia a sua missão de um modo bem mais bíblico. Antes de mais, sentia-se o
enviado de Deus para edificar o Reino, isto é, introduzir a Humanidade na
Família Divina: “Ele respondeu: quem são a minha mãe e os meus irmãos?”
E
percorrendo com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse: ‘Aí estão
a minha mãe e os meus irmãos.
Aquele
que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,
33-35).
Jesus
não se entendeu como uma vítima de expiação destinada a um sacrifício cruento
para aplacar um Deus irritado com a Humanidade.
É
interessante ver como Jesus se distanciou da perspectiva de João Baptista para
quem o dia da ira estava a chegar com a vinda do Messias (Mt 3, 7). O fogo está
aceso junto à palha, a fim de a incendiar. E o machado está posto à raiz da
árvore.
O
Messias vai cortar todas as árvores que não fruto, pois no Reino de Deus não há
lugar para árvores estéreis (Mt 3, 10).
João
Baptista anunciava o dia de Yahvé, como o dia da ira em que Deus ia purificar a
Humanidade, destruindo os pecadores. Ficaria apenas um pequeno resto fiel. João
via as coisas na linha dos profetas antigos, os quais anunciaram o dia da ira
como o dia da purificação da Humanidade.
Inspirado
pelo Espírito Santo, Jesus foi-se apercebendo que a sua a sua missão é
totalmente diferente (Lc 4,18-21). Não se sentia enviado para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo. A sua missão é destruir o pecado, não o
pecador.
A
destruição do pecado acontece no coração das pessoas pela acção do Espírito
Santo, o qual restaura o coração humano, capacitando-o para passar das obras do
egoísmo para a vivência do amor.
Entretanto,
João é preso e Jesus inicia a sua vida pública. Ao ouvir falar do modo de agir
de Jesus, João fica perplexo e manda dois discípulos a perguntar-lhe se
realmente é ele o Messias ou se ainda deve esperar outro.
Jesus
responde com o mesmo texto de Isaías, dizendo que as coisas estão a acontecer
de acordo com os planos de Deus (Mt 11, 2-6). João é o maior dos nascidos de
mulher, mas o menor dos nascidos segundo o Espírito é Maior que ele (Mt 11,
11).
Jesus
descobriu que a sua missão, como Redentor, consistia em ser o portador do
Espírito. A libertação do homem acontece a partir de dentro.
Jesus
sentia-se o enviado de Deus para comunicar o Espírito Santo que, no interior
das pessoas, realiza a libertação do pecado. Mas a acção libertadora de Jesus
encontra fortes resistências provocadas pelas diversas manifestações do
egoísmo.
Ao
descobrir o alcance da missão que Deus lhe confiara, e ao dar-se conta da
violência do meio que lhe fazia guerra, Jesus apercebeu-se de que o aguardava
uma morte violenta. Mas não viu esta morte como uma exigência de Deus para
salvar o homem. Pelo contrário, viu-a como um fruto do egoísmo humano que se
opunha a que ele realizasse a missão que o Pai que o Pai lhe confiara.
Não
há dúvidas históricas de que Jesus interpretou a sua missão na linha do
medianeiro da Nova Aliança que vinha restaurar a comunhão definitiva entre Deus
e o Homem.
Basta
ver como Ele escolheu o pão e vinho, e não o cordeiro, apesar deste ser um
elemento central na Ceia Judaica da Páscoa. A Eucaristia é o sacramento que
corporiza de modo privilegiado a comunhão humano-divina da Nova Aliança,
resultado da acção redentora de Cristo.
Ao
escolher o pão e o vinho Jesus estava a ligar-se à Aliança que Deus fizera com
Abraão (Gn 14,18-19). Do mesmo modo se ligou à casa de David cujos
descendentes, no dia da sua entronização, eram proclamados sumo-sacerdotes
segundo a ordem de Melquisedec (Sal 110, 4).
E
isto tinha a ver com a promessa feita a Abraão, segundo a qual todas as
famílias da Terra seriam abençoadas na descendência deste (Gn 12, 3).
Ao
escolher o pão e o vinho como elementos da celebração pascal da Igreja, Jesus
estava a ligar-se à mediação pela qual as bênçãos de Deus chegaram a Abraão.
Isto
indica de modo muito claro que Jesus tinha plena consciência de ser o portador
das bênçãos prometidas, tanto à casa de David, como à posteridade de Abraão e,
através dela, a toda a Humanidade (Gn 12, 3).
Jesus
soube escolher de maneira muito inteligente símbolos fundamentais para exprimir
a sua condição messiânica. Basta ver como destacou o número doze em relação aos
discípulos.
Procedendo
assim, estava a simbolizar a sua missão de Messias, o restaurador do Reino de
Deus. A sua missão, no pensamento dos profetas, implicava a restauração da casa
de David, a qual perduraria para sempre (2 Sam 7, 16).
É
certo que Jesus não entendia a sua missão real no sentido de edificar um reino
estruturado em moldes políticos. Esta perspectiva foi claramente rejeitada no
momento das tentações (cf. Mt 4, 8-10; Lc 4, 5-8).
A
escolha do pão e do vinho, dos doze e outros símbolos para significar a sua
missão messiânica, demonstra como Jesus era um judeu profundamente inserido nas
Sagradas Escrituras e na cultura do seu povo. Ao ligar-se simbolicamente à casa
de David e à figura de Melquisedec, Jesus estava a afirmar a sua condição de
medianeiro da Nova Aliança.
Segundo
a teologia bíblica, os reis davídicos e os sacerdotes eram os medianeiros
através dos quais Deus comunicava as bênçãos e dons ao povo. Não esqueçamos que
Melquisedec, além de sumo-sacerdote, era também rei de Salém, antigo nome de
Jerusalém.
Jesus
sentia-se como o medianeiro através do qual Deu concedia aos homens o grande
dom dos últimos tempos, isto é, o Espírito Santo.
É
pelo Espírito Santo que a Humanidade é incorporada na família de Deus, como
filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho (cf. Rm 8,14-17;
Ga 4, 4-7).
2-
Redenção e a missão de Cristo como medianeiro
A
Redenção não vem pela via sacrificial de uma vítima que consegue aplacar a ira
de Deus, mas pela graça que restaura o coração humano e diviniza a pessoa.
A
primeira profecia messiânica da história foi proferida por volta do ano mil
antes de Cristo. Trata-se de uma oráculo do profeta Natã a David.
Segundo
este oráculo, Yahvé escolheu um filho de David para lhe construir um templo. Em
recompensa, Deus será um Pai para ele. Graças a este seu filho, a casa de David
permanecerá para sempre (2 Sam 7, 12-16).
David
não entendeu o alcance pleno desta profecia. Pensou que o profeta falava do seu
filho Salomão. Por isso começou a preparar o seu filho Salomão no sentido de
eleger como primeira tarefa do seu reinado a construção de um templo para Deus.
Logo
que subiu ao trono, Salomão procedeu de acordo com as instruções que se seu pai
lhe tinha dado.
Isto
vê-se muito claramente no dia da inauguração do templo, em que Salomão agradece
o facto de ter podido construir o templo e pede a ajuda para acabar de cumprir
a profecia que Natã fizera a seu Pai David (l Rs 8, 22-26).
A
morte do rei tornou claro que a profecia não se referia a Salomão, pois com a
sua morte, a casa de David dividiu-se em dois reinos (1 Rs 12, 16-18). É a partir
deste acontecimento que nasce a esperança e a expectativa da vinda do prometido
a David. Isaías anuncia-o como o reunificador das tribos divididas com a morte
de Salomão (Is 49, 5-6).
É
nesta óptica que o povo bíblico começa a alimentar a esperança na vinda do
Messias, o filho de David que é também filho de Deus, como diz o salmo segundo
(Sal 2, 6-7).
A
profecia dirigida a David tornou-se a semente dessa árvore enorme que é a
esperança messiânica do povo Bíblico. Por seu lado, David passa a ser visto
como o grande aliado de Deus: “Fiz uma aliança com o meu eleito, jurei a David
meu servo: estabelecerei a tua descendência para sempre e o teu trono há-de
manter-se eternamente” (Sal 89, 4-5).
É
interessante vermos como Lucas põe na boca do anjo da anunciação as palavras da
profecia de Natã (Lc 1, 32-33). Lucas recebeu esta maneira de ver a missão de
Jesus do seu mestre São Paulo (cf. Rm 1, 3-5).
Como
medianeiro da Nova Aliança, Jesus é o portador do Espírito Santo que, conduz à
plenitude a Antiga.
Jesus
lê a sua missão na perspectiva teológica da missão dos reis e sacerdotes, isto
é, como medianeiro dos dons de Deus para o homem. Mas não devemos pensar que
Jesus pretendia ser um rei como os descendentes de David, ou um sacerdote como
os filhos de Aarão.
Quando
dizemos que Jesus é rei, sacerdote e profeta, queremos dizer apenas que realiza
em plenitude a sua missão de medianeiro. No reino do Norte, o medianeiro era o
profeta, pois o rei não era da casa de David. No reino do Sul, o medianeiro
entre Deus e o Homem era o rei.
Por
esta razão, no momento da sua entronização, o rei era declarado sumo-sacerdote
(Sal 110,4). Após a reforma deuteronómica, constitui-se como sumo-sacerdote um
filho de Aarão, o qual passa a ser considerado o medianeiro entre Deus e o
homem.
Jesus
assumiu as três vertentes da missão do medianeiro, embora sem se confundir com
as suas concretizações históricas.
Ao
mesmo tempo, Jesus é o Novo Adão, isto é, a cabeça da Humanidade restaurada. Ao
difundir para nós a força ressuscitante do Espírito Santo, iniciou a vitória
sobre a morte trazida pelo primeiro Adão (Rm 5, 17-19).
Eis
o que diz a segunda Carta aos Coríntios: “Se alguém está em Cristo é uma nova
Criação. Passou o que era velho. Tudo isto vem de Deus que, por meio de Cristo,
nos reconciliou consigo, não levando mais em conta o pecado dos homens (2 Cor
5, 17-18).
Em
relação a nós, diz São Paulo, somos anunciadores e mediações desta
reconciliação universal realizada por Deus e oferecida como dom de Cristo à
Humanidade (2 Cor 5, 19-21).
Um
dom pode ser aceite ou não. Aliás, não seria dom mas imposição. A nossa missão,
portanto, é ser preparadores do coração humano para que este dom seja
reconhecido, aceite, vivido e celebrado em contexto de acção de graças.
3-
Redenção e Função Sacerdotal de Cristo
Logo
no dia da inauguração do Templo de Jerusalém, Salomão proclama que Deus não
habita em casas feitas pela mão do homem (1 Rs 8, 27). O mesmo dirá o diácono
Estêvão no momento do seu martírio (Act 7,48) e, mais tarde, São Paulo no
Areópago de Atenas (Act 17, 24).
A carta aos Hebreus exprime de maneira muito
bonita a acção redentora de Jesus, nosso sumo-sacerdote, colocando-o como
sacerdote do único santuário onde Deus habita: “Na realidade, Cristo não entrou
num santuário feito por mão humana, que é apenas figura do verdadeiro
santuário. Pelo contrário, entrou no próprio céu, a fim de se apresentar agora
diante de Deus em nosso favor.
E
não entrou para se oferecer muitas vezes, como faz o sumo-sacerdote que, em
cada ano entra de novo no santuário com sangue alheio.
Nesse
caso, Jesus deveria ter sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas
não, apareceu agora, na plenitude dos tempos, uma só vez, a fim de destruir o
pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Heb 9, 24-26).
A
chamada expulsão dos vendilhões do templo é uma das poucas tradições que vem
nas quatro fontes. Isto significa que tem carácter de verdade histórica
indiscutível. Sabemos como esse gesto profético de Jesus significou a denúncia
da falsificação e inautenticidade dos cultos judaicos que não agradavam a Deus
e distorciam a fé dos homens (Mt 21, 12-13; Mc 11,15-17; Lc 19, 45-46; Jo 2,
13-17).
Jesus
argumenta que o templo de Jerusalém pode ser destruído, pois quem vai construir
o templo que Deus quer é o Messias, tal como foi dito a David. O Senhor
ressuscitado com a Igreja, seu corpo, é o templo onde Deus habita (cf. Jo 2,
19-21; Mt 26, 61; Mc 15, 58).
No
diálogo com a Samaritana Jesus diz-lhe que Deus não habita nem no santuário de
Jerusalém nem no do Garizim, pois Deus quer outro tipo de templo e de
adoradores (Jo 4, 21-23). São Paulo insistirá que o coração dos crentes é o
santuário onde habita o Espírito Santo (1 Cor 3, 16-17; 6, 19).
A
primeira carta de Pedro insiste em que os membros da comunidade são as pedras
vivas do templo do Senhor (1 Pd 2, 5). O livro do Apocalipse, diz que o
verdadeiro tabernáculo onde Deus habita é a Jerusalém celeste, isto é, a
comunhão definitiva da Humanidade com Deus (Apc 21,3).
É
neste tabernáculo que se dá o verdadeiro encontro de comunhão amorosa entre as
pessoas humanas e as divinas. O próprio Deus, acrescenta o Apocalipse, passa
por cada pessoa humana, limpando-lhe as lágrimas que ainda possam subsistir e
pondo fim ao luto, à dor, à tristeza, pois as coisas antigas passaram (Apc 21,
4).
Os
sinópticos sublinham que a morte e ressurreição de Jesus é o momento em que o
Senhor abre o paraíso e todos são incorporados na comunhão com Deus. Isto é
dito simbolicamente ao descreverem o facto de o véu do templo se ter rasgado de
alto a baixo no momento da morte e ressurreição de Jesus (Mt 27, 51;Mc 15, 38;
Lc 23, 45).
O
nosso trabalho de colaboradores na obra da redenção não pode apontar para outro
sentido que não seja este: através de Cristo ressuscitado todos temos acesso à
comunhão com a Santíssima Trindade. Esta comunhão acontece pela acção do
Espírito Santo no do coração dos seres humanos.
Temos
de ser explicitadores deste mistério da redenção a acontecer no mais íntimo do
Homem. É esta a dinâmica da redenção, cujo protagonista é o Espírito que Cristo
Ressuscitado nos comunica. A nossa missão é facilitar a acção do Espírito
Santo, preparando o coração das pessoas.
A
Bíblia diz que Deus não habita em templos feitos pela mão do homem. Mas fala do
templo onde Deus habita.
Cristo
ressuscitado é o Templo de Deus, isto é, o medianeiro e portador das bênçãos de
Deus para a Humanidade. Nele se realiza a promessa de Deus a Abraão segundo a
qual, pela descendência deste, todas as famílias da terra seriam abençoadas
(cf. Gn 12, 3).
4-
Cristo, Sumo-Sacerdote e Redentor
Não
teria sentido pretendermos ser facilitadores da acção redentora de Cristo e não
conhecer minimamente o dinamismo da acção redentora de Cristo.
O
Novo Testamento proclama-o rei, sacerdote e profeta. Cristo, diz a Carta aos
Hebreus, é um Sumo-Sacerdote misericordioso e fiel (Heb 2, 17). Foi constituído
nesta missão pela sua ressurreição. Isto significa que não precisa de
substitutos, mas de mediações para realizar, através do Espírito Santo, a sua
acção redentora.
Eis
um texto muito explícito sobre a missão sacerdotal do nosso Redentor: “Temos um
Sumo-Sacerdote que se sentou no Céu à direita do trono da Majestade, como
ministro do santuário e da verdadeira tenda construída pelo Senhor e não pelo
homem (Heb 8, 1-2).
Também
aparece clara a associação de rei e Sumo-Sacerdote em relação a Cristo. O salmo
110 era solenemente cantado no dia em que os filhos de David subiam ao trono. O
salmo diz que, a partir desse dia, o rei ficava sentado à direita de Deus (Sal
110, 1). E logo a seguir acrescenta que o rei é Sumo-Sacerdote segundo a ordem
de Melquisedec (Sal 110, 4).
O
nosso redentor entrou no Céu onde realiza as funções de medianeiro entre Deus e
os homens. Esta mediação deve-se ao facto de Jesus ser um homem, como diz a
primeira carta a Timóteo: “Existe um só Deus e um medianeiro entre Deus e os
homens, Jesus Cristo, Homem” (1 Tim 2, 5). Eis um requisito importante: O
medianeiro da nossa salvação é um homem.
Com
efeito, se o Redentor não fosse homem, não estaríamos salvos. Não fazíamos
parte da Família Divina porque não estávamos organicamente unidos à Santíssima
Trindade. O vínculo desta união orgânica e o seu princípio animador é o
Espírito Santo.
A
Igreja edifica-se como corpo de Cristo através das celebrações sacramentais, sobretudo
através do Baptismo, da Eucaristia e da Confirmação. Ser corpo de Cristo
significa ser mediação de encontro de Cristo com o mundo. O mundo conhece Jesus
Cristo através da Igreja Corpo de Cristo.
Na
medida em que se robustecem como membros do Corpo de Cristo, os crentes são
dinamizados e capacitados para proclamar a Boa Nova da Redenção a acontecer na
marcha da história humana. Se somos membros do Corpo de Cristo, a nossa
consagração para a missão é a mesma do Senhor. Com efeito, trata-se de uma realidade
vivida de modo orgânico.
É
o Espírito Santo que nos capacita para a missão, pois esta não é nunca o
resultado de um mero voluntarismo humano. A consagração no Espírito engloba
três aspectos fundamentais: Dinamização, capacitação e encantamento. Deste modo
nos tornamos servidores da Redenção, essa dinâmica restauradora do Homem
distorcido pelo pecado.
Trabalhar
na obra da Redenção implica ajudar a pessoa humana a encontrar a sua plena
identidade como pessoa e o seu lugar no contexto do projecto salvador de Deus.
A
Carta aos Hebreus diz que o nosso Redentor nos compreende e é capaz de
sintonizar connosco. Desta afirmação se deduz que não está verdadeiramente
capacitado para trabalhar na obra da Redenção quem não é capaz de entender e
sintonizar com os problemas e dramas do ser humano. Jesus sofreu e foi tentado,
por isso nos compreende e sintoniza com as nossas fraquezas (Heb 4, 15).
Como
mediações da acção redentora de Cristo somos chamados a celebrar e proclamar a
incondicional misericórdia de Deus que nos reconciliou consigo não levando mais
em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 18-19). Isto implica uma recriação da
Humanidade. São Paulo diz que os que estão em Cristo são uma Nova Criação (2
Cor 5, 17).
É
importante termos consciência de que somos servidores da acção redentora de
Cristo. Nós não salvamos ninguém. A nossa missão é ajudar as pessoas a
descobrir e experimentar a acção redentora de Deus a acontecer nos seus
corações.
A
Carta aos Hebreus faz notar que Jesus é Sumo-Sacerdote segundo a ordem de
Melquisedec. O Senhor não pertencia à ordem de Aarão cujo sacerdócio tinha como
missão oferecer cultos e sacrifícios de animais no templo.
A
carta aos Hebreus diz que estes sacrifícios eram inúteis, pois não podiam obter
o perdão do pecado e a reconciliação com Deus: “Os sacerdotes apresentam-se
diariamente para realizar o culto, oferecendo muitas vezes os mesmos
sacrifícios, os quais não podem apagar os pecados. Cristo, porém, depois de
oferecer um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus” (Heb 10,
11-12). Este sacrifício, devemos nós entender, é a fidelidade incondicional à
missão que Deus lhe confiara.
Cristo
veio precisamente porque a redenção da humanidade não era uma questão de
sacrifícios expiatórios: “Ao entrar no mundo, Cristo diz: ‘Não quiseste
sacrifícios nem oferendas, mas preparaste-me um corpo.
Não
te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados. Então eu disse: eis que
venho – como está escrito no livro a meu respeito – para fazer, ó Deus, a tua
vontade (…).
Suprime
assim o primeiro culto para instaurar o segundo. Foi por esta vontade que fomos
santificados pela oferta do corpo de Cristo, feita uma vez para sempre” (Heb
10, 5-10).
Foi
pela sua ressurreição que Jesus Cristo foi constituído Sumo-Sacerdote segundo a
ordem de Melquisedec (Heb 7, 16-17). Nunca pretendeu realizar qualquer culto no
templo. Ele é verdadeiramente o Filho do Homem entronizado sobre as nuvens do
céu, na morada onde Deus habita (cf. Dan 7, 13-14). Não é por acaso que este
título é o mais aplicado a Jesus pelo Novo Testamento.
Eis
a razão pela qual Jesus se tornou o Medianeiro de uma Aliança melhor que a
Antiga. Os sacerdotes da ordem de Aarão morriam e, por isso, tinham de ser
frequentemente substituídos. Jesus, pelo contrário, foi constituído Sumo-Sacerdote
por uma vida imortal, pelo que não precisa de ser substituído.
Além
disso, a ordem de Melquisedec é superior à de Aarão, pois foi pelo sacerdócio
real de Melquisedec que as bênçãos de Deus chegaram a Abraão. Melquisedec deu
provas de ser maior que Abraão, pois é o maior que abençoa o menor. E Abraão
reconheceu isto mesmo, pagando-lhe o dízimo (Heb 7, 6-7).
5-
A hora da Redenção em São João
No evangelho de
São João, a hora é o momento da morte e ressurreição de Jesus. Esta hora
significa a universalização da acção redentora de Jesus Cristo. Durante cerca
de trinta anos só um homem foi divino. Com a hora de Jesus, a divinização fica
ao alcance de todos os seres humanos. Basta viver em comunhão orgânica com
Cristo.
A morte e ressurreição
de Cristo são o acontecimento que põe ao nosso alcance a Árvore da vida. Para
termos a vida eterna basta colher e comer o fruto desta Árvore. Com a hora de
Jesus, a condição humana fica qualitativamente alterada. É verdadeiramente o
início da plenitude dos tempos. A Humanidade passou da condição de seres não
divinos para a condição de pessoas organicamente incorporadas na comunhão da
Santíssima Trindade.
Com Cristo
ressuscitado iniciou-se a fase dos acabamentos do projecto humano, isto é, a
nossa divinização: “Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de
crer em mim, por meio da sua palavra, a fim de que todos sejam um só, como tu,
Pai, estás em mim e eu em ti (…).
Eu dei-lhes a
glória que tu me deste, a fim de que sejam um, como nós somos um. Eu neles e tu
em mim, para que cheguem à perfeição da unidade e, deste modo, o mundo
reconheça que me enviaste e que os amaste como a mim” (Jo 17, 20-23).
A hora de Jesus é,
de facto, o acontecimento escatológico por excelência. Divindade e Humanidade
ficam organicamente unidas. Jesus é o pilar desta união orgânica e o Espírito é
o vínculo e o princípio animador desta organicidade: “Eu sou a videira
verdadeira e o meu Pai o agricultor. Ele corta todo o ramo que não fruto em mim
e poda o que dá fruto, a fim de dar mais fruto ainda (…).
Permanecei em mim
que eu permaneço em vós. O ramo só pode dar fruto se permanecer na videira,
assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim” (Jo 15,
1-4).
A Hora é o momento
da comunicação intrínseca do Espírito Santo, o manancial da vida eterna: “No
último dia, o mais solene da festa Jesus, de pé, bradou: ‘Se alguém tem sede
venha a mim e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura,
hão-de correr do seu coração rios de Água Viva ’.
Jesus disse isto
referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que cressem nele. Com efeito,
o Espírito ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tina sido glorificado”
(Jo 7, 37-39).
Sabemos que o
Espírito Santo actua na história da Humanidade desde que esta existe. Mas com a
morte e ressurreição de Jesus, a comunicação do Espírito passou a ser feita de
modo intrínseco. Circula no coração das pessoas humanas como circula no coração
do Pai e do Filho, isto é, suscitando elos e dinamizando a interacção amorosa.
E qual a razão
pela qual o Espírito não actuava intrinsecamente antes da morte e ressurreição
de Cristo? Porque foi neste momento que o Espírito foi comunicado em grandeza
de interacção humana, pois o nosso Redentor é um Homem.
A salvação é obra
da Trindade, mas a comunicação do Espírito em grandeza humana acontece através
de um homem que está directamente unido ao mistério da Trindade e ao qual
estamos unidos. Com Ele fazemos um todo orgânico e, por isso, somos assumidos e
incorporados na comunhão familiar da Divindade.
O Apocalipse diz
isto de modo muito bonito: “ E disse ainda: Eu sou o Alfa e o Ómega, o
princípio e o fim. Ao que tiver sede dar-lhe-ei a beber gratuitamente da
nascente da Água da Vida” (Apc 21, 6).
Este mistério não
é obra da carne nem do sangue, mas fruto da Encarnação: “Mas a quantos o
receberam, aos que acreditaram nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de
Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da
vontade de um homem, mas sim de Deus. E o Verbo fez-se homem e veio habitar
connosco” (Jo 1, 12-14).
Eis o fruto da
Árvore da Vida que, de novo, ficou ao alcance da Humanidade. Devido à
desobediência de Adão, Deus expulsou o Homem do jardim primordial impedindo-o,
deste modo, de comer o fruto da Árvore da Vida, a possibilidade de viver para
sempre (Gn 3, 22-24).
Através do pecado,
Adão fechou as portas do Paraíso à Humanidade. No momento da sua morte e
ressurreição, Jesus abre de novo as portas do Paraíso e os homens voltam a ter
acesso ao fruto da Árvore da Vida.
Em João, a
Eucaristia é apresentada como o fruto da Árvore da Vida que faz brotar em nós a
vida eterna: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e
eu ressuscitá-lo-ei no último dia” (Jo 6, 54). Para o Novo Testamento, a vida
eterna não significa a-mortalidade, mas restauração e glorificação definitiva
da vida.
A Árvore da vida é
Jesus ressuscitado e glorificado: “Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do
Homem subir para onde estava antes? O Espírito é quem dá a vida. A carne não
serve para nada. As Palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).
São Lucas
apresenta o diálogo de Jesus com os dois ladrões. Um acolheu Cristo, o outro
não. Os dois ladrões representam a humanidade. Todos os seres humanos são
pecadores. A diferença está em que uns aceitam Jesus, outros não.
Para os que
aceitam Jesus, o paraíso é aberto de novo no momento da morte e ressurreição do
Senhor: “Quanto a nós, diz o Bom Ladrão, fez-se justiça, pois recebemos o
castigo que as nossas acções mereciam. Mas ele nada praticou de condenável. E
acrescentou: ‘Jesus, lembra-te de mim no teu Reino ’. Jesus respondeu-lhe: em
verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 41-43).
O Paraíso, fechado
por Adão, é reaberto no momento da morte e ressurreição de Jesus. Agora, com
Cristo ressuscitado, todos têm acesso ao fruto da Árvore da Vida. A vida Eterna
é um dom ao alcance da pessoa humana.
A hora de Jesus é
o grande acontecimento que transformou a história humana em história da
Salvação. A finalidade da nossa existência histórica não é apenas prolongar a
vida mortal, mas construir a vida eterna.
Para João, a hora
de Jesus é o início do fim dos tempos. A partir de agora, a Humanidade está na
fase dos acabamentos. À medida em que se humaniza, a pessoa humana é logo
divinizada. É este o dia em que Cristo ressuscita os mortos: “ Jesus disse a
Marta: ‘teu irmão vai ressuscitar. Marta respondeu a Jesus: “Eu sei que há-de
ressuscitar na ressurreição do último dia”. Respondeu-lhe Jesus: ‘Eu sou a
Ressurreição e a Vida” (Jo 11, 24-25).
João é o grande perito da linguagem simbólica.
Não é por acaso que, no relato de Lázaro, aparece o pormenor do quarto dia.
Jesus apareceu como ressuscitado ao terceiro dia. Esse dia, para João, é o
momento da comunicação intrínseca do Espírito Santo (Jo 20, 22-23).
Com a morte e
ressurreição de Cristo, a acção ressuscitante do Espírito Santo está em plena
actividade no processo da história humana: “Disse Jesus, tirai a pedra do
túmulo. Marta, a irmã do falecido, disse-lhe: ‘Senhor, já cheira mal, pois é o
quarto dia’. Jesus replicou-lhe: eu não te disse que, se acreditares, verás a
glória de Deus?” (Jo 11, 39-40).
Mateus dirá que,
no momento da morte e ressurreição de Jesus, o véu do templo rasgou-se e muitos
dos santos falecidos ressuscitaram. Depois de Jesus aparecer aos discípulos,
também eles apareceram a muitos na cidade Santa (Mt 27, 51-53).
Também aqui
ninguém ressuscita antes de Jesus e ninguém aparece como ressuscitado antes do
mesmo Jesus aparecer. Uma maneira diferente de dizer que Cristo ressuscitado é
a “ressurreição e a vida” (cf. Jo 11, 25). O Senhor ressuscitado é o novo
templo através do qual a Humanidade é incorporada na Família de Deus.
6- A Redenção em
São Paulo
Para São Paulo, Jesus
Cristo é o filho de David, constituído Filho de Deus, isto é, ungido como rei
pelo Espírito Santo e entronizado, no momento da sua morte e ressurreição (Rm
1, 3-5).
A Redenção, para o
Apóstolo, significa a reconciliação da Humanidade com Deus. Graças a Jesus
Cristo, Deus concede à Humanidade o dom do perdão universal, não levando mais
em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19). A carta aos Hebreus vai nesta
mesma linha, afirmando que, onde há perdão do pecado, já não há necessidade de
oferenda pelos pecados (Heb 10, 18).
É sobretudo em
Paulo que aparece a interpretação de Jesus crucificado como vítima de expiação,
graças à qual os pecados da Humanidade foram perdoados. A grande questão para
Paulo é afirmar, diante dos judeus, que Jesus é o filho amado de Deus apesar de
ter morrido como um condenado. Para os judeus, a morte de Jesus é a prova de
que ele é um desprezado e amaldiçoado por Deus.
Para o judaísmo, a
morte de Jesus foi profundamente humilhante e desprezível. É a prova evidente
de que Deus não confirmou as suas pretensões messiânicas. Não subiu ao trono e,
além disso, morreu como um criminoso. Esta foi certamente uma das maiores
dificuldades que os Apóstolos tiveram de enfrentar perante os judeus.
A solução
encontrada pelo Novo Testamento e sobretudo pelo teólogo Paulo foi recorrer aos
textos bíblicos do justo sofredor, sobretudo Isaías e o salmo 21.
Estes textos foram
escritos no período do Exílio. O povo estava a sofrer devido à sua condição de
escravos de pagãos na Babilónia. Nesta situação, os justos ainda sofrem mais
que os pecadores. É evidente que não sofriam por serem pecadores amaldiçoados
por Deus, pois são homens fiéis a Deus e à sua Lai. Foram os pecadores que, com
as suas infidelidades, criaram esta situação de sofrimento onde os justos pagam
pelos pecadores.
Mas o sofrimento
do justo não é inútil, pois Deus toma partido pelo justo quando este está em
sofrimento. Mas como o justo é solidário com todo o povo, a maneira de Deus
tomar partido pelo justo é libertá-lo, glorificá-lo e, com ele, todo o povo.
Eis o modo como o sofrimento do justo reverte em favor dos pecadores.
Graças à união
orgânica que existe entre o justo e o povo, todo o povo vai ser liberto e
glorificado com os justos que estão em Babilónia. O sentido destes textos era
muito claro, tanto para os seus autores como para o povo em sofrimento no
Exílio.
A experiência do
exílio gera um conflito entre a experiência e a teologia anterior a este
período. Segundo a teologia anterior, ao pecador tudo corre mal. Deus envia-lhe
tribulações e dificuldades que o enchem de sofrimentos.
Ao justo, pelo
contrário, tudo lhe corre bem. Os seus filhos florescem e têm sucesso. Os seus
rebanhos são fecundos e as sementeiras produzem abundantemente. Além disso, o
justo terá uma vida longa e feliz.
A experiência do
Exílio veio demonstrar o contrário. Os judeus são atormentados quer se trate de
justos ou pecadores. O modelo da teologia tradicional segundo o qual a justiça
é premiada com riqueza, saúde e felicidade e o pecado punido com empobrecimento,
doença e sofrimento não corresponde à realidade. Esta experiência deu origem a
diversas tentativas de reformular este velho princípio teológico. Os textos do
justo sofredor são tentativas de reformulação.
O povo está a
sofrer na Babilónia, dizem os profetas, por causa dos seus pecados. Mas não são
apenas os pecadores que sofrem. Os justos são atormentados com sofrimentos e
humilhações atrozes. O povo de Deus já não tem rosto de homem livre, isto é,
perdeu a sua identidade de povo de Deus, filho de Abraão.
Mas como Deus não
permite que o justo sofra por muito tempo, vai tomar partido, glorificando-o
justo e libertando-o da opressão do exílio. Graças ao sofrimento do justo todo
o povo escravizado será redimido.
Como vemos, o
sofrimento não é visto numa linha de sacrifício expiatório, mas sim de mediação
libertadora para o povo. É uma ressurreição, como podemos ver em Ezequiel pela
simbologia dos ossos ressequidos (Ez 37, 1-14). A imagem desta restauração do
povo está inspirada no relato do sopro de Deus sobre o barro, aquando da
criação do Homem (cf. Ez 37, 14).
Os pecadores, apesar de serem culpados de
crimes e iniquidades, serão solidariamente redimidos e salvos, não pelos seus
méritos, mas graças à fidelidade e à justiça do justo sofredor (cf. Is 52,
13-53, 12; Sal 21).
São Paulo, e
depois dele os evangelistas, procura defender a autenticidade messiânica de
Jesus, fazendo a leitura da sua paixão e morte com as lentes da teologia do
justo sofredor. Deste modo ficam justificados os seus sofrimentos e a sua morte
cruel.
É esta a leitura
que está na base dos muitos textos que nos apresentam a figura de Jesus como
vítima de expiação, graças à qual, a humanidade é redimida. Perante esta
leitura, o argumento dos judeus, segundo o qual os sofrimentos e a morte de
Jesus eram o sinal de que ele tinha sido um amaldiçoado por Deus, não têm
fundamento.
Mas apesar dos
diversos textos que falam de Jesus como vítima de expiação, esta visão não é de
modo algum a predominante nem em Paulo nem no Novo Testamento. Em Paulo, Cristo
é a cabeça da Nova criação. Cabe-lhe o papel de Senhor da Humanidade e da
criação restaurada.
Jesus Cristo é o
Novo Adão que, ao contrário do primeiro, se torna totalmente fiel, reconduzindo
o Homem e a criação para a sua restauração definitiva (Col 1, 15-20). Apesar de
ser imagem perfeita de Deus, não reivindicou ser igual a Deus. Pelo contrário,
assumiu a sua condição de Servo. Por isso foi exaltado e constituído protótipo
e modelo em vista do qual todas as coisas foram criadas e no qual todas
encontram a própria plenitude (Flp 2, 6-11).
Assim como pelo
Adão infiel veio a perdição, pelo Adão fiel veio a Redenção (Rm 5, 17-19). O
Adão infiel introduziu-nos no caminho do malogro e do fracasso. O novo Adão
inseriu-nos de novo no caminho da salvação.
Olhando as coisas
na perspectiva do Servo Sofredor, Paulo diz que a morte de Jesus foi condição
para acontecer a nossa salvação. Ele foi a vítima cujo sofrimento levou Deus a
tomar partido pelo povo. Em Cristo tornámo-nos agradáveis a Deus (Rm 3, 25).
Mas Paulo não absolutiza estas expressões. Utiliza-as para dar o exemplo dos
cultos do templo.
Paulo insiste
muito mais na distorção do primeiro Adão e na restauração levada a cabo pelo
segundo Adão. Do primeiro Adão, herdámos a morte. Do segundo herdámos o
Espírito Santo, dinâmica da ressurreição de Cristo a actuar em nós, a qual nos
incorpora na família de Deus. Esta acção salvadora está a acontecer no coração
das pessoas humanas (Rm 8, 14-17).
Devido ao pecado,
a salvação tornou-se redenção, isto é, restauração do homem rasgado pelo pecado
e assunção na família de Deus. O Espírito Santo realiza verdadeiramente uma
nova criação: “Se alguém está em Cristo é uma nova criação. Passou o que era
velho. Eis que tudo se fez novo (2 Cor 5, 17).
A Encarnação, devido
ao pecado, encontrou uma resistência feroz, ao ponto de se tornar um
acontecimento que culmina com a morte violenta de Jesus Cristo. Foi a
fidelidade incondicional de Jesus que agradou a Deus Pai e não aquela morte
brutal (cf. Heb 10, 5-7).
A expressão:
“Redimidos pelo sangue de Cristo”, tão repetida pelo Novo Testamento, deve ser
entendida redimidos pela fidelidade de Cristo, o qual decidiu ser
incondicionalmente fiel à missão que o Pai lhe confiou mesmo que isso lhe
viesse custar a vida.
Jesus, que não era
nenhum ingénuo, apercebeu-se disto mesmo e não voltou atrás. Esta fidelidade à
vontade do Pai é o novo culto que veio substituir os antigos cultos do templo.
Foi por este novo culto, diz a Carta aos Hebreus, que nós fomos salvos (Heb 10,
8-10).
Também a carta aos
Efésio acentua que Deus fez um plano para redimir a Humanidade através de
Cristo (Ef 1, 7). Segundo este plano, Deus decidiu conduzir os tempos à sua
plenitude, fazendo de Cristo a cabeça da Humanidade restaurada (Ef 1, 9-10).
Em Cristo,
acrescenta, fomos marcados como selo do Espírito Santo, garantia da nossa
Redenção e pelo qual tomamos parte na herança da vida eterna (Ef 1, 13-14).
7- Morte de Jesus
e Redenção
7.1- Jesus e a sua
morte
Os discípulos
sentiram a morte de Jesus como um fracasso. Esperavam que Jesus fosse o
Messias, isto é, o filho de David que viria subir ao trono. Dois deles tentam
mesmo garantir os primeiros lugares na corte. Os outros dez protestam, pois
também eles esperavam coisa parecida (Mc 10, 35-45).
Mas, Jesus morreu
sem subir ao trono. Também para os discípulos isto era a prova de que Deus não
apoiara as suas pretensões messiânicas. Aliás, isto não era novo. Umas décadas
antes também apareceram dois pseudo Messias que reuniram à sua volta bastantes
aderentes. Foram mortos e tudo ficou na mesma (Act 5, 36-37).
Jesus teve
consciência de que planeavam a sua morte. Mas nunca interpretou esta morte como
uma exigência de Deus Pai. Pelo contrário, interpretou-a como um crime
perpetrado pelos sacerdotes, doutores da Lei, fariseus e outros chefes do povo.
O contexto de
despedida que dominou a Última Ceia revela que Jesus tinha consciência de que a
sua missão histórica estava a chegar ao fim (1 Cor 11, 23-25). Mas os relatos
revelam que Jesus não via a sua morte como um fracasso. Pelo contrário, dão a
entender que Jesus estava seguro de que Deus ia restaurar e glorificar a sua
vida. Por isso faz alusão ao vinho do banquete no Reino de Deus (Lc 22, 14-18).
Mas os discípulos não entendiam esta linguagem. Esta resistência dos Apóstolos
leva Jesus a interpelar Pedro com dureza, chamando-o de Satanás (Mt 16, 22-23).
Mas a experiência
pascal veio alterar tudo. Esses homens que na quinta-feira à noite fugiram e,
cobardemente, negaram conhecer Jesus, voltam dois dias depois, no domingo de
Páscoa, dizendo que Jesus é o Messias e mostrando-se dispostos a dar a vida por
esta afirmação.
Por detrás de uma
transformação tão radical só pode ter acontecido uma destas duas coisas: ou
enlouqueceram devido ao trauma sofrido com a perda de Jesus, ou aconteceu
realmente um milagre que os transformou radicalmente.
Loucos não
estavam, pois, apesar de serem quase analfabetos, argumentavam com as
Escrituras, ao ponto de confundirem os doutores da Lei e os sacerdotes. Então
só pode ter acontecido um milagre. É esta a melhor confirmação histórica da
ressurreição de Jesus. Antes da Páscoa, os discípulos entendiam as coisas
segundo os critérios da carne e do sangue (Mt 16,23). Mas, após a Páscoa, diz o
evangelho de João, o Espírito Santo vai conduzi-los para a verdade total (Jo
16, 13).
Após a Páscoa, a
compreensão dos discípulos sobre a missão messiânica de Jesus, começa a
coincidir progressivamente com a compreensão que o Jesus histórico tinha desta
missão. Este ponto de referência é excelente para entendermos até onde terá
chegado a consciência de Jesus acerca da sua pessoa e da sua missão messiânica.
7.2- Morte de
Jesus e Salvação
A morte de Jesus,
no Evangelho de João é o momento da sua glorificação (Jo 7, 34; 8, 21-22; 14,
2-4). É condição essencial para a difusão do Espírito (Jo 16, 7-8; cf. 7,
37-39).
Desde o começo da
Humanidade que o Espírito Santo actua na história humana. Em primeiro lugar
como intervenção especial de Deus na criação do Homem. Mais tarde, no povo
Bíblico, actua como presença revelacional. Com o acontecimento da morte e
ressurreição de Jesus, o Espírito Santo realiza a dinâmica divinizante da
Humanidade. É o momento em que a Humanidade entra na plenitude dos tempos, isto
é, na fase dos acabamentos.
Para actuar de
modo intrínseco no interior do Homem, o Espírito Santo tinha de interagir
connosco em grandeza de onda humana. Isto só aconteceu devido ao facto de Jesus
ser um homem em tudo igual a nós excepto no pecado.
Por outro lado,
isto só podia acontecer no momento em que Jesus, pelo acontecimento da morte,
se libertasse das coordenadas limitativas do eu individual: coordenadas
biológicas, rácicas, linguísticas, culturais e espacio-temporais.
Foi exactamente o
que aconteceu pelo mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. É este o
sentido da afirmação do Credo, segundo a qual Jesus, ao morrer, desceu à mansão
dos mortos. Por outras palavras, foi nesse momento que Jesus, homem como nós,
entrou nas coordenadas da comunhão Universal, divinizando a Humanidade.
É esta a plenitude
dos tempos, isto é, a fase dos acabamentos do projecto humano. Como vemos, a
morte de Jesus era condição essencial para acontecer a salvação da Humanidade.
Mas isto não significa que tinha de ser aquela morte cruel e muito menos pensar
que esta foi uma exigência de Deus Pai.
Desde os
primórdios da revelação que Deus se manifestou contra os sacrifícios humanos.
Com efeito, logo no começo, Deus rejeitou o sacrifício de Isaac. Segundo este
relato, foi a fidelidade de Abraão que agradou a Deus e não o sacrifício de seu
filho (cf. Gn 22, 1-19).
Do mesmo modo,
podemos dizer que a fidelidade incondicional de Jesus Cristo à missão que Deus
lhe confiara é a fonte da nossa redenção. É este o Novo Adão que nos reconduziu
a Deus (Rm 5, 17-19). Podemos resumir esta ideia dizendo que, o que agradou a
Deus em Jesus Cristo foi a sua fidelidade incondicional à vontade do Pai e não
a morte violenta que sofreu.