JESUS CRISTO E A REDENÇÃO DA HUMANIDADE

                                                    CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

1- Jesus não se considerou uma vítima de expiação

2- Redenção e a missão de Cristo como medianeiro

3- Redenção e Função Sacerdotal de Cristo

4- Cristo, Sumo-Sacerdote e Redentor

5- A hora da Redenção em São João

6- A Redenção em São Paulo

7- Morte de Jesus e Redenção

7.1- Jesus e a sua morte

7.2- Morte de Jesus e Salvação

 

 

1-  Jesus não se considerou uma vítima de expiação

A teologia tradicional via a acção redentora de Jesus Cristo como algo realizado num momento determinado.

Segundo este modo de ver, a redenção da Humanidade seria o resultado automático da morte violenta sofrida por Jesus.

     Deste modo, a vida histórica de Jesus de Nazaré ficava sem um valor propriamente redentor.

     A morte de Jesus ficava assim reduzida a um mero acontecimento expiatório.

      Por outro lado, o acontecimento da Encarnação só tinha valor na medida em que aconteceu para proporcionar uma vítima adequada para o sacrifício de expiação.

Jesus entendia a sua missão de um modo bem mais bíblico. Antes de mais, sentia-se o enviado de Deus para edificar o Reino, isto é, introduzir a Humanidade na Família Divina: “Ele respondeu: quem são a minha mãe e os meus irmãos?”

E percorrendo com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse: ‘Aí estão a minha mãe e os meus irmãos.

Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 33-35).

Jesus não se entendeu como uma vítima de expiação destinada a um sacrifício cruento para aplacar um Deus irritado com a Humanidade.

É interessante ver como Jesus se distanciou da perspectiva de João Baptista para quem o dia da ira estava a chegar com a vinda do Messias (Mt 3, 7). O fogo está aceso junto à palha, a fim de a incendiar. E o machado está posto à raiz da árvore.

O Messias vai cortar todas as árvores que não fruto, pois no Reino de Deus não há lugar para árvores estéreis (Mt 3, 10).

João Baptista anunciava o dia de Yahvé, como o dia da ira em que Deus ia purificar a Humanidade, destruindo os pecadores. Ficaria apenas um pequeno resto fiel. João via as coisas na linha dos profetas antigos, os quais anunciaram o dia da ira como o dia da purificação da Humanidade.

Inspirado pelo Espírito Santo, Jesus foi-se apercebendo que a sua a sua missão é totalmente diferente (Lc 4,18-21). Não se sentia enviado para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo. A sua missão é destruir o pecado, não o pecador.

A destruição do pecado acontece no coração das pessoas pela acção do Espírito Santo, o qual restaura o coração humano, capacitando-o para passar das obras do egoísmo para a vivência do amor.

Entretanto, João é preso e Jesus inicia a sua vida pública. Ao ouvir falar do modo de agir de Jesus, João fica perplexo e manda dois discípulos a perguntar-lhe se realmente é ele o Messias ou se ainda deve esperar outro.

Jesus responde com o mesmo texto de Isaías, dizendo que as coisas estão a acontecer de acordo com os planos de Deus (Mt 11, 2-6). João é o maior dos nascidos de mulher, mas o menor dos nascidos segundo o Espírito é Maior que ele (Mt 11, 11).

Jesus descobriu que a sua missão, como Redentor, consistia em ser o portador do Espírito. A libertação do homem acontece a partir de dentro.

Jesus sentia-se o enviado de Deus para comunicar o Espírito Santo que, no interior das pessoas, realiza a libertação do pecado. Mas a acção libertadora de Jesus encontra fortes resistências provocadas pelas diversas manifestações do egoísmo.

Ao descobrir o alcance da missão que Deus lhe confiara, e ao dar-se conta da violência do meio que lhe fazia guerra, Jesus apercebeu-se de que o aguardava uma morte violenta. Mas não viu esta morte como uma exigência de Deus para salvar o homem. Pelo contrário, viu-a como um fruto do egoísmo humano que se opunha a que ele realizasse a missão que o Pai que o Pai lhe confiara.

Não há dúvidas históricas de que Jesus interpretou a sua missão na linha do medianeiro da Nova Aliança que vinha restaurar a comunhão definitiva entre Deus e o Homem.

Basta ver como Ele escolheu o pão e vinho, e não o cordeiro, apesar deste ser um elemento central na Ceia Judaica da Páscoa. A Eucaristia é o sacramento que corporiza de modo privilegiado a comunhão humano-divina da Nova Aliança, resultado da acção redentora de Cristo.

Ao escolher o pão e o vinho Jesus estava a ligar-se à Aliança que Deus fizera com Abraão (Gn 14,18-19). Do mesmo modo se ligou à casa de David cujos descendentes, no dia da sua entronização, eram proclamados sumo-sacerdotes segundo a ordem de Melquisedec (Sal 110, 4).

E isto tinha a ver com a promessa feita a Abraão, segundo a qual todas as famílias da Terra seriam abençoadas na descendência deste (Gn 12, 3).

Ao escolher o pão e o vinho como elementos da celebração pascal da Igreja, Jesus estava a ligar-se à mediação pela qual as bênçãos de Deus chegaram a Abraão.

Isto indica de modo muito claro que Jesus tinha plena consciência de ser o portador das bênçãos prometidas, tanto à casa de David, como à posteridade de Abraão e, através dela, a toda a Humanidade (Gn 12, 3).

Jesus soube escolher de maneira muito inteligente símbolos fundamentais para exprimir a sua condição messiânica. Basta ver como destacou o número doze em relação aos discípulos.

Procedendo assim, estava a simbolizar a sua missão de Messias, o restaurador do Reino de Deus. A sua missão, no pensamento dos profetas, implicava a restauração da casa de David, a qual perduraria para sempre (2 Sam 7, 16).

É certo que Jesus não entendia a sua missão real no sentido de edificar um reino estruturado em moldes políticos. Esta perspectiva foi claramente rejeitada no momento das tentações (cf. Mt 4, 8-10; Lc 4, 5-8).

A escolha do pão e do vinho, dos doze e outros símbolos para significar a sua missão messiânica, demonstra como Jesus era um judeu profundamente inserido nas Sagradas Escrituras e na cultura do seu povo. Ao ligar-se simbolicamente à casa de David e à figura de Melquisedec, Jesus estava a afirmar a sua condição de medianeiro da Nova Aliança.

Segundo a teologia bíblica, os reis davídicos e os sacerdotes eram os medianeiros através dos quais Deus comunicava as bênçãos e dons ao povo. Não esqueçamos que Melquisedec, além de sumo-sacerdote, era também rei de Salém, antigo nome de Jerusalém.

Jesus sentia-se como o medianeiro através do qual Deu concedia aos homens o grande dom dos últimos tempos, isto é, o Espírito Santo.

É pelo Espírito Santo que a Humanidade é incorporada na família de Deus, como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho (cf. Rm 8,14-17; Ga 4, 4-7).

 

2- Redenção e a missão de Cristo como medianeiro

A Redenção não vem pela via sacrificial de uma vítima que consegue aplacar a ira de Deus, mas pela graça que restaura o coração humano e diviniza a pessoa.

A primeira profecia messiânica da história foi proferida por volta do ano mil antes de Cristo. Trata-se de uma oráculo do profeta Natã a David.

Segundo este oráculo, Yahvé escolheu um filho de David para lhe construir um templo. Em recompensa, Deus será um Pai para ele. Graças a este seu filho, a casa de David permanecerá para sempre (2 Sam 7, 12-16).

David não entendeu o alcance pleno desta profecia. Pensou que o profeta falava do seu filho Salomão. Por isso começou a preparar o seu filho Salomão no sentido de eleger como primeira tarefa do seu reinado a construção de um templo para Deus.

Logo que subiu ao trono, Salomão procedeu de acordo com as instruções que se seu pai lhe tinha dado.

Isto vê-se muito claramente no dia da inauguração do templo, em que Salomão agradece o facto de ter podido construir o templo e pede a ajuda para acabar de cumprir a profecia que Natã fizera a seu Pai David (l Rs 8, 22-26).

A morte do rei tornou claro que a profecia não se referia a Salomão, pois com a sua morte, a casa de David dividiu-se em dois reinos (1 Rs 12, 16-18). É a partir deste acontecimento que nasce a esperança e a expectativa da vinda do prometido a David. Isaías anuncia-o como o reunificador das tribos divididas com a morte de Salomão (Is 49, 5-6).

É nesta óptica que o povo bíblico começa a alimentar a esperança na vinda do Messias, o filho de David que é também filho de Deus, como diz o salmo segundo (Sal 2, 6-7).

A profecia dirigida a David tornou-se a semente dessa árvore enorme que é a esperança messiânica do povo Bíblico. Por seu lado, David passa a ser visto como o grande aliado de Deus: “Fiz uma aliança com o meu eleito, jurei a David meu servo: estabelecerei a tua descendência para sempre e o teu trono há-de manter-se eternamente” (Sal 89, 4-5).

É interessante vermos como Lucas põe na boca do anjo da anunciação as palavras da profecia de Natã (Lc 1, 32-33). Lucas recebeu esta maneira de ver a missão de Jesus do seu mestre São Paulo (cf. Rm 1, 3-5).

Como medianeiro da Nova Aliança, Jesus é o portador do Espírito Santo que, conduz à plenitude a Antiga.

Jesus lê a sua missão na perspectiva teológica da missão dos reis e sacerdotes, isto é, como medianeiro dos dons de Deus para o homem. Mas não devemos pensar que Jesus pretendia ser um rei como os descendentes de David, ou um sacerdote como os filhos de Aarão.

Quando dizemos que Jesus é rei, sacerdote e profeta, queremos dizer apenas que realiza em plenitude a sua missão de medianeiro. No reino do Norte, o medianeiro era o profeta, pois o rei não era da casa de David. No reino do Sul, o medianeiro entre Deus e o Homem era o rei.

Por esta razão, no momento da sua entronização, o rei era declarado sumo-sacerdote (Sal 110,4). Após a reforma deuteronómica, constitui-se como sumo-sacerdote um filho de Aarão, o qual passa a ser considerado o medianeiro entre Deus e o homem.

Jesus assumiu as três vertentes da missão do medianeiro, embora sem se confundir com as suas concretizações históricas.

Ao mesmo tempo, Jesus é o Novo Adão, isto é, a cabeça da Humanidade restaurada. Ao difundir para nós a força ressuscitante do Espírito Santo, iniciou a vitória sobre a morte trazida pelo primeiro Adão (Rm 5, 17-19).

Eis o que diz a segunda Carta aos Coríntios: “Se alguém está em Cristo é uma nova Criação. Passou o que era velho. Tudo isto vem de Deus que, por meio de Cristo, nos reconciliou consigo, não levando mais em conta o pecado dos homens (2 Cor 5, 17-18).

Em relação a nós, diz São Paulo, somos anunciadores e mediações desta reconciliação universal realizada por Deus e oferecida como dom de Cristo à Humanidade (2 Cor 5, 19-21).

Um dom pode ser aceite ou não. Aliás, não seria dom mas imposição. A nossa missão, portanto, é ser preparadores do coração humano para que este dom seja reconhecido, aceite, vivido e celebrado em contexto de acção de graças.

 

3- Redenção e Função Sacerdotal de Cristo

Logo no dia da inauguração do Templo de Jerusalém, Salomão proclama que Deus não habita em casas feitas pela mão do homem (1 Rs 8, 27). O mesmo dirá o diácono Estêvão no momento do seu martírio (Act 7,48) e, mais tarde, São Paulo no Areópago de Atenas (Act 17, 24).

 A carta aos Hebreus exprime de maneira muito bonita a acção redentora de Jesus, nosso sumo-sacerdote, colocando-o como sacerdote do único santuário onde Deus habita: “Na realidade, Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, que é apenas figura do verdadeiro santuário. Pelo contrário, entrou no próprio céu, a fim de se apresentar agora diante de Deus em nosso favor.

E não entrou para se oferecer muitas vezes, como faz o sumo-sacerdote que, em cada ano entra de novo no santuário com sangue alheio.

Nesse caso, Jesus deveria ter sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas não, apareceu agora, na plenitude dos tempos, uma só vez, a fim de destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Heb 9, 24-26).

A chamada expulsão dos vendilhões do templo é uma das poucas tradições que vem nas quatro fontes. Isto significa que tem carácter de verdade histórica indiscutível. Sabemos como esse gesto profético de Jesus significou a denúncia da falsificação e inautenticidade dos cultos judaicos que não agradavam a Deus e distorciam a fé dos homens (Mt 21, 12-13; Mc 11,15-17; Lc 19, 45-46; Jo 2, 13-17).

Jesus argumenta que o templo de Jerusalém pode ser destruído, pois quem vai construir o templo que Deus quer é o Messias, tal como foi dito a David. O Senhor ressuscitado com a Igreja, seu corpo, é o templo onde Deus habita (cf. Jo 2, 19-21; Mt 26, 61; Mc 15, 58).

No diálogo com a Samaritana Jesus diz-lhe que Deus não habita nem no santuário de Jerusalém nem no do Garizim, pois Deus quer outro tipo de templo e de adoradores (Jo 4, 21-23). São Paulo insistirá que o coração dos crentes é o santuário onde habita o Espírito Santo (1 Cor 3, 16-17; 6, 19).

A primeira carta de Pedro insiste em que os membros da comunidade são as pedras vivas do templo do Senhor (1 Pd 2, 5). O livro do Apocalipse, diz que o verdadeiro tabernáculo onde Deus habita é a Jerusalém celeste, isto é, a comunhão definitiva da Humanidade com Deus (Apc 21,3).

É neste tabernáculo que se dá o verdadeiro encontro de comunhão amorosa entre as pessoas humanas e as divinas. O próprio Deus, acrescenta o Apocalipse, passa por cada pessoa humana, limpando-lhe as lágrimas que ainda possam subsistir e pondo fim ao luto, à dor, à tristeza, pois as coisas antigas passaram (Apc 21, 4).

Os sinópticos sublinham que a morte e ressurreição de Jesus é o momento em que o Senhor abre o paraíso e todos são incorporados na comunhão com Deus. Isto é dito simbolicamente ao descreverem o facto de o véu do templo se ter rasgado de alto a baixo no momento da morte e ressurreição de Jesus (Mt 27, 51;Mc 15, 38; Lc 23, 45).

O nosso trabalho de colaboradores na obra da redenção não pode apontar para outro sentido que não seja este: através de Cristo ressuscitado todos temos acesso à comunhão com a Santíssima Trindade. Esta comunhão acontece pela acção do Espírito Santo no do coração dos seres humanos.

Temos de ser explicitadores deste mistério da redenção a acontecer no mais íntimo do Homem. É esta a dinâmica da redenção, cujo protagonista é o Espírito que Cristo Ressuscitado nos comunica. A nossa missão é facilitar a acção do Espírito Santo, preparando o coração das pessoas.

A Bíblia diz que Deus não habita em templos feitos pela mão do homem. Mas fala do templo onde Deus habita. 

Cristo ressuscitado é o Templo de Deus, isto é, o medianeiro e portador das bênçãos de Deus para a Humanidade. Nele se realiza a promessa de Deus a Abraão segundo a qual, pela descendência deste, todas as famílias da terra seriam abençoadas (cf. Gn 12, 3).

 

 

 

4- Cristo, Sumo-Sacerdote e Redentor

Não teria sentido pretendermos ser facilitadores da acção redentora de Cristo e não conhecer minimamente o dinamismo da acção redentora de Cristo.

O Novo Testamento proclama-o rei, sacerdote e profeta. Cristo, diz a Carta aos Hebreus, é um Sumo-Sacerdote misericordioso e fiel (Heb 2, 17). Foi constituído nesta missão pela sua ressurreição. Isto significa que não precisa de substitutos, mas de mediações para realizar, através do Espírito Santo, a sua acção redentora.

Eis um texto muito explícito sobre a missão sacerdotal do nosso Redentor: “Temos um Sumo-Sacerdote que se sentou no Céu à direita do trono da Majestade, como ministro do santuário e da verdadeira tenda construída pelo Senhor e não pelo homem (Heb 8, 1-2).

Também aparece clara a associação de rei e Sumo-Sacerdote em relação a Cristo. O salmo 110 era solenemente cantado no dia em que os filhos de David subiam ao trono. O salmo diz que, a partir desse dia, o rei ficava sentado à direita de Deus (Sal 110, 1). E logo a seguir acrescenta que o rei é Sumo-Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec (Sal 110, 4).

O nosso redentor entrou no Céu onde realiza as funções de medianeiro entre Deus e os homens. Esta mediação deve-se ao facto de Jesus ser um homem, como diz a primeira carta a Timóteo: “Existe um só Deus e um medianeiro entre Deus e os homens, Jesus Cristo, Homem” (1 Tim 2, 5). Eis um requisito importante: O medianeiro da nossa salvação é um homem.

Com efeito, se o Redentor não fosse homem, não estaríamos salvos. Não fazíamos parte da Família Divina porque não estávamos organicamente unidos à Santíssima Trindade. O vínculo desta união orgânica e o seu princípio animador é o Espírito Santo.

A Igreja edifica-se como corpo de Cristo através das celebrações sacramentais, sobretudo através do Baptismo, da Eucaristia e da Confirmação. Ser corpo de Cristo significa ser mediação de encontro de Cristo com o mundo. O mundo conhece Jesus Cristo através da Igreja Corpo de Cristo.

Na medida em que se robustecem como membros do Corpo de Cristo, os crentes são dinamizados e capacitados para proclamar a Boa Nova da Redenção a acontecer na marcha da história humana. Se somos membros do Corpo de Cristo, a nossa consagração para a missão é a mesma do Senhor. Com efeito, trata-se de uma realidade vivida de modo orgânico.

É o Espírito Santo que nos capacita para a missão, pois esta não é nunca o resultado de um mero voluntarismo humano. A consagração no Espírito engloba três aspectos fundamentais: Dinamização, capacitação e encantamento. Deste modo nos tornamos servidores da Redenção, essa dinâmica restauradora do Homem distorcido pelo pecado.

Trabalhar na obra da Redenção implica ajudar a pessoa humana a encontrar a sua plena identidade como pessoa e o seu lugar no contexto do projecto salvador de Deus.

A Carta aos Hebreus diz que o nosso Redentor nos compreende e é capaz de sintonizar connosco. Desta afirmação se deduz que não está verdadeiramente capacitado para trabalhar na obra da Redenção quem não é capaz de entender e sintonizar com os problemas e dramas do ser humano. Jesus sofreu e foi tentado, por isso nos compreende e sintoniza com as nossas fraquezas (Heb 4, 15).

Como mediações da acção redentora de Cristo somos chamados a celebrar e proclamar a incondicional misericórdia de Deus que nos reconciliou consigo não levando mais em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 18-19). Isto implica uma recriação da Humanidade. São Paulo diz que os que estão em Cristo são uma Nova Criação (2 Cor 5, 17).

É importante termos consciência de que somos servidores da acção redentora de Cristo. Nós não salvamos ninguém. A nossa missão é ajudar as pessoas a descobrir e experimentar a acção redentora de Deus a acontecer nos seus corações.

A Carta aos Hebreus faz notar que Jesus é Sumo-Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec. O Senhor não pertencia à ordem de Aarão cujo sacerdócio tinha como missão oferecer cultos e sacrifícios de animais no templo.

A carta aos Hebreus diz que estes sacrifícios eram inúteis, pois não podiam obter o perdão do pecado e a reconciliação com Deus: “Os sacerdotes apresentam-se diariamente para realizar o culto, oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, os quais não podem apagar os pecados. Cristo, porém, depois de oferecer um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus” (Heb 10, 11-12). Este sacrifício, devemos nós entender, é a fidelidade incondicional à missão que Deus lhe confiara.

Cristo veio precisamente porque a redenção da humanidade não era uma questão de sacrifícios expiatórios: “Ao entrar no mundo, Cristo diz: ‘Não quiseste sacrifícios nem oferendas, mas preparaste-me um corpo.

Não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados. Então eu disse: eis que venho – como está escrito no livro a meu respeito – para fazer, ó Deus, a tua vontade (…).

Suprime assim o primeiro culto para instaurar o segundo. Foi por esta vontade que fomos santificados pela oferta do corpo de Cristo, feita uma vez para sempre” (Heb 10, 5-10).

Foi pela sua ressurreição que Jesus Cristo foi constituído Sumo-Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec (Heb 7, 16-17). Nunca pretendeu realizar qualquer culto no templo. Ele é verdadeiramente o Filho do Homem entronizado sobre as nuvens do céu, na morada onde Deus habita (cf. Dan 7, 13-14). Não é por acaso que este título é o mais aplicado a Jesus pelo Novo Testamento.

Eis a razão pela qual Jesus se tornou o Medianeiro de uma Aliança melhor que a Antiga. Os sacerdotes da ordem de Aarão morriam e, por isso, tinham de ser frequentemente substituídos. Jesus, pelo contrário, foi constituído Sumo-Sacerdote por uma vida imortal, pelo que não precisa de ser substituído.

Além disso, a ordem de Melquisedec é superior à de Aarão, pois foi pelo sacerdócio real de Melquisedec que as bênçãos de Deus chegaram a Abraão. Melquisedec deu provas de ser maior que Abraão, pois é o maior que abençoa o menor. E Abraão reconheceu isto mesmo, pagando-lhe o dízimo (Heb 7, 6-7).

 

5- A hora da Redenção em São João

No evangelho de São João, a hora é o momento da morte e ressurreição de Jesus. Esta hora significa a universalização da acção redentora de Jesus Cristo. Durante cerca de trinta anos só um homem foi divino. Com a hora de Jesus, a divinização fica ao alcance de todos os seres humanos. Basta viver em comunhão orgânica com Cristo.

A morte e ressurreição de Cristo são o acontecimento que põe ao nosso alcance a Árvore da vida. Para termos a vida eterna basta colher e comer o fruto desta Árvore. Com a hora de Jesus, a condição humana fica qualitativamente alterada. É verdadeiramente o início da plenitude dos tempos. A Humanidade passou da condição de seres não divinos para a condição de pessoas organicamente incorporadas na comunhão da Santíssima Trindade.

Com Cristo ressuscitado iniciou-se a fase dos acabamentos do projecto humano, isto é, a nossa divinização: “Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, a fim de que todos sejam um só, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti (…).

Eu dei-lhes a glória que tu me deste, a fim de que sejam um, como nós somos um. Eu neles e tu em mim, para que cheguem à perfeição da unidade e, deste modo, o mundo reconheça que me enviaste e que os amaste como a mim” (Jo 17, 20-23).

A hora de Jesus é, de facto, o acontecimento escatológico por excelência. Divindade e Humanidade ficam organicamente unidas. Jesus é o pilar desta união orgânica e o Espírito é o vínculo e o princípio animador desta organicidade: “Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai o agricultor. Ele corta todo o ramo que não fruto em mim e poda o que dá fruto, a fim de dar mais fruto ainda (…).

Permanecei em mim que eu permaneço em vós. O ramo só pode dar fruto se permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim” (Jo 15, 1-4).

A Hora é o momento da comunicação intrínseca do Espírito Santo, o manancial da vida eterna: “No último dia, o mais solene da festa Jesus, de pé, bradou: ‘Se alguém tem sede venha a mim e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água Viva ’.

Jesus disse isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que cressem nele. Com efeito, o Espírito ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tina sido glorificado” (Jo 7, 37-39).

Sabemos que o Espírito Santo actua na história da Humanidade desde que esta existe. Mas com a morte e ressurreição de Jesus, a comunicação do Espírito passou a ser feita de modo intrínseco. Circula no coração das pessoas humanas como circula no coração do Pai e do Filho, isto é, suscitando elos e dinamizando a interacção amorosa.

E qual a razão pela qual o Espírito não actuava intrinsecamente antes da morte e ressurreição de Cristo? Porque foi neste momento que o Espírito foi comunicado em grandeza de interacção humana, pois o nosso Redentor é um Homem.

A salvação é obra da Trindade, mas a comunicação do Espírito em grandeza humana acontece através de um homem que está directamente unido ao mistério da Trindade e ao qual estamos unidos. Com Ele fazemos um todo orgânico e, por isso, somos assumidos e incorporados na comunhão familiar da Divindade.

O Apocalipse diz isto de modo muito bonito: “ E disse ainda: Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. Ao que tiver sede dar-lhe-ei a beber gratuitamente da nascente da Água da Vida” (Apc 21, 6).

Este mistério não é obra da carne nem do sangue, mas fruto da Encarnação: “Mas a quantos o receberam, aos que acreditaram nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade de um homem, mas sim de Deus. E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco” (Jo 1, 12-14).

Eis o fruto da Árvore da Vida que, de novo, ficou ao alcance da Humanidade. Devido à desobediência de Adão, Deus expulsou o Homem do jardim primordial impedindo-o, deste modo, de comer o fruto da Árvore da Vida, a possibilidade de viver para sempre (Gn 3, 22-24).

Através do pecado, Adão fechou as portas do Paraíso à Humanidade. No momento da sua morte e ressurreição, Jesus abre de novo as portas do Paraíso e os homens voltam a ter acesso ao fruto da Árvore da Vida.

Em João, a Eucaristia é apresentada como o fruto da Árvore da Vida que faz brotar em nós a vida eterna: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu ressuscitá-lo-ei no último dia” (Jo 6, 54). Para o Novo Testamento, a vida eterna não significa a-mortalidade, mas restauração e glorificação definitiva da vida.

A Árvore da vida é Jesus ressuscitado e glorificado: “Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito é quem dá a vida. A carne não serve para nada. As Palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).

São Lucas apresenta o diálogo de Jesus com os dois ladrões. Um acolheu Cristo, o outro não. Os dois ladrões representam a humanidade. Todos os seres humanos são pecadores. A diferença está em que uns aceitam Jesus, outros não.

Para os que aceitam Jesus, o paraíso é aberto de novo no momento da morte e ressurreição do Senhor: “Quanto a nós, diz o Bom Ladrão, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam. Mas ele nada praticou de condenável. E acrescentou: ‘Jesus, lembra-te de mim no teu Reino ’. Jesus respondeu-lhe: em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 41-43).

O Paraíso, fechado por Adão, é reaberto no momento da morte e ressurreição de Jesus. Agora, com Cristo ressuscitado, todos têm acesso ao fruto da Árvore da Vida. A vida Eterna é um dom ao alcance da pessoa humana.

A hora de Jesus é o grande acontecimento que transformou a história humana em história da Salvação. A finalidade da nossa existência histórica não é apenas prolongar a vida mortal, mas construir a vida eterna.

Para João, a hora de Jesus é o início do fim dos tempos. A partir de agora, a Humanidade está na fase dos acabamentos. À medida em que se humaniza, a pessoa humana é logo divinizada. É este o dia em que Cristo ressuscita os mortos: “ Jesus disse a Marta: ‘teu irmão vai ressuscitar. Marta respondeu a Jesus: “Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia”. Respondeu-lhe Jesus: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11, 24-25).

 João é o grande perito da linguagem simbólica. Não é por acaso que, no relato de Lázaro, aparece o pormenor do quarto dia. Jesus apareceu como ressuscitado ao terceiro dia. Esse dia, para João, é o momento da comunicação intrínseca do Espírito Santo (Jo 20, 22-23).

Com a morte e ressurreição de Cristo, a acção ressuscitante do Espírito Santo está em plena actividade no processo da história humana: “Disse Jesus, tirai a pedra do túmulo. Marta, a irmã do falecido, disse-lhe: ‘Senhor, já cheira mal, pois é o quarto dia’. Jesus replicou-lhe: eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?” (Jo 11, 39-40).

Mateus dirá que, no momento da morte e ressurreição de Jesus, o véu do templo rasgou-se e muitos dos santos falecidos ressuscitaram. Depois de Jesus aparecer aos discípulos, também eles apareceram a muitos na cidade Santa (Mt 27, 51-53).

Também aqui ninguém ressuscita antes de Jesus e ninguém aparece como ressuscitado antes do mesmo Jesus aparecer. Uma maneira diferente de dizer que Cristo ressuscitado é a “ressurreição e a vida” (cf. Jo 11, 25). O Senhor ressuscitado é o novo templo através do qual a Humanidade é incorporada na Família de Deus.

 

6- A Redenção em São Paulo

Para São Paulo, Jesus Cristo é o filho de David, constituído Filho de Deus, isto é, ungido como rei pelo Espírito Santo e entronizado, no momento da sua morte e ressurreição (Rm 1, 3-5).

A Redenção, para o Apóstolo, significa a reconciliação da Humanidade com Deus. Graças a Jesus Cristo, Deus concede à Humanidade o dom do perdão universal, não levando mais em conta os pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19). A carta aos Hebreus vai nesta mesma linha, afirmando que, onde há perdão do pecado, já não há necessidade de oferenda pelos pecados (Heb 10, 18).

É sobretudo em Paulo que aparece a interpretação de Jesus crucificado como vítima de expiação, graças à qual os pecados da Humanidade foram perdoados. A grande questão para Paulo é afirmar, diante dos judeus, que Jesus é o filho amado de Deus apesar de ter morrido como um condenado. Para os judeus, a morte de Jesus é a prova de que ele é um desprezado e amaldiçoado por Deus.

Para o judaísmo, a morte de Jesus foi profundamente humilhante e desprezível. É a prova evidente de que Deus não confirmou as suas pretensões messiânicas. Não subiu ao trono e, além disso, morreu como um criminoso. Esta foi certamente uma das maiores dificuldades que os Apóstolos tiveram de enfrentar perante os judeus.

A solução encontrada pelo Novo Testamento e sobretudo pelo teólogo Paulo foi recorrer aos textos bíblicos do justo sofredor, sobretudo Isaías e o salmo 21.

Estes textos foram escritos no período do Exílio. O povo estava a sofrer devido à sua condição de escravos de pagãos na Babilónia. Nesta situação, os justos ainda sofrem mais que os pecadores. É evidente que não sofriam por serem pecadores amaldiçoados por Deus, pois são homens fiéis a Deus e à sua Lai. Foram os pecadores que, com as suas infidelidades, criaram esta situação de sofrimento onde os justos pagam pelos pecadores.

Mas o sofrimento do justo não é inútil, pois Deus toma partido pelo justo quando este está em sofrimento. Mas como o justo é solidário com todo o povo, a maneira de Deus tomar partido pelo justo é libertá-lo, glorificá-lo e, com ele, todo o povo. Eis o modo como o sofrimento do justo reverte em favor dos pecadores.

Graças à união orgânica que existe entre o justo e o povo, todo o povo vai ser liberto e glorificado com os justos que estão em Babilónia. O sentido destes textos era muito claro, tanto para os seus autores como para o povo em sofrimento no Exílio.

A experiência do exílio gera um conflito entre a experiência e a teologia anterior a este período. Segundo a teologia anterior, ao pecador tudo corre mal. Deus envia-lhe tribulações e dificuldades que o enchem de sofrimentos.

Ao justo, pelo contrário, tudo lhe corre bem. Os seus filhos florescem e têm sucesso. Os seus rebanhos são fecundos e as sementeiras produzem abundantemente. Além disso, o justo terá uma vida longa e feliz.

A experiência do Exílio veio demonstrar o contrário. Os judeus são atormentados quer se trate de justos ou pecadores. O modelo da teologia tradicional segundo o qual a justiça é premiada com riqueza, saúde e felicidade e o pecado punido com empobrecimento, doença e sofrimento não corresponde à realidade. Esta experiência deu origem a diversas tentativas de reformular este velho princípio teológico. Os textos do justo sofredor são tentativas de reformulação.

O povo está a sofrer na Babilónia, dizem os profetas, por causa dos seus pecados. Mas não são apenas os pecadores que sofrem. Os justos são atormentados com sofrimentos e humilhações atrozes. O povo de Deus já não tem rosto de homem livre, isto é, perdeu a sua identidade de povo de Deus, filho de Abraão.

Mas como Deus não permite que o justo sofra por muito tempo, vai tomar partido, glorificando-o justo e libertando-o da opressão do exílio. Graças ao sofrimento do justo todo o povo escravizado será redimido.

Como vemos, o sofrimento não é visto numa linha de sacrifício expiatório, mas sim de mediação libertadora para o povo. É uma ressurreição, como podemos ver em Ezequiel pela simbologia dos ossos ressequidos (Ez 37, 1-14). A imagem desta restauração do povo está inspirada no relato do sopro de Deus sobre o barro, aquando da criação do Homem (cf. Ez 37, 14).

 Os pecadores, apesar de serem culpados de crimes e iniquidades, serão solidariamente redimidos e salvos, não pelos seus méritos, mas graças à fidelidade e à justiça do justo sofredor (cf. Is 52, 13-53, 12; Sal 21).

São Paulo, e depois dele os evangelistas, procura defender a autenticidade messiânica de Jesus, fazendo a leitura da sua paixão e morte com as lentes da teologia do justo sofredor. Deste modo ficam justificados os seus sofrimentos e a sua morte cruel.

É esta a leitura que está na base dos muitos textos que nos apresentam a figura de Jesus como vítima de expiação, graças à qual, a humanidade é redimida. Perante esta leitura, o argumento dos judeus, segundo o qual os sofrimentos e a morte de Jesus eram o sinal de que ele tinha sido um amaldiçoado por Deus, não têm fundamento.

Mas apesar dos diversos textos que falam de Jesus como vítima de expiação, esta visão não é de modo algum a predominante nem em Paulo nem no Novo Testamento. Em Paulo, Cristo é a cabeça da Nova criação. Cabe-lhe o papel de Senhor da Humanidade e da criação restaurada.

Jesus Cristo é o Novo Adão que, ao contrário do primeiro, se torna totalmente fiel, reconduzindo o Homem e a criação para a sua restauração definitiva (Col 1, 15-20). Apesar de ser imagem perfeita de Deus, não reivindicou ser igual a Deus. Pelo contrário, assumiu a sua condição de Servo. Por isso foi exaltado e constituído protótipo e modelo em vista do qual todas as coisas foram criadas e no qual todas encontram a própria plenitude (Flp 2, 6-11).

Assim como pelo Adão infiel veio a perdição, pelo Adão fiel veio a Redenção (Rm 5, 17-19). O Adão infiel introduziu-nos no caminho do malogro e do fracasso. O novo Adão inseriu-nos de novo no caminho da salvação.

Olhando as coisas na perspectiva do Servo Sofredor, Paulo diz que a morte de Jesus foi condição para acontecer a nossa salvação. Ele foi a vítima cujo sofrimento levou Deus a tomar partido pelo povo. Em Cristo tornámo-nos agradáveis a Deus (Rm 3, 25). Mas Paulo não absolutiza estas expressões. Utiliza-as para dar o exemplo dos cultos do templo.

Paulo insiste muito mais na distorção do primeiro Adão e na restauração levada a cabo pelo segundo Adão. Do primeiro Adão, herdámos a morte. Do segundo herdámos o Espírito Santo, dinâmica da ressurreição de Cristo a actuar em nós, a qual nos incorpora na família de Deus. Esta acção salvadora está a acontecer no coração das pessoas humanas (Rm 8, 14-17).

Devido ao pecado, a salvação tornou-se redenção, isto é, restauração do homem rasgado pelo pecado e assunção na família de Deus. O Espírito Santo realiza verdadeiramente uma nova criação: “Se alguém está em Cristo é uma nova criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo (2 Cor 5, 17).

A Encarnação, devido ao pecado, encontrou uma resistência feroz, ao ponto de se tornar um acontecimento que culmina com a morte violenta de Jesus Cristo. Foi a fidelidade incondicional de Jesus que agradou a Deus Pai e não aquela morte brutal (cf. Heb 10, 5-7).

A expressão: “Redimidos pelo sangue de Cristo”, tão repetida pelo Novo Testamento, deve ser entendida redimidos pela fidelidade de Cristo, o qual decidiu ser incondicionalmente fiel à missão que o Pai lhe confiou mesmo que isso lhe viesse custar a vida.

Jesus, que não era nenhum ingénuo, apercebeu-se disto mesmo e não voltou atrás. Esta fidelidade à vontade do Pai é o novo culto que veio substituir os antigos cultos do templo. Foi por este novo culto, diz a Carta aos Hebreus, que nós fomos salvos (Heb 10, 8-10).

Também a carta aos Efésio acentua que Deus fez um plano para redimir a Humanidade através de Cristo (Ef 1, 7). Segundo este plano, Deus decidiu conduzir os tempos à sua plenitude, fazendo de Cristo a cabeça da Humanidade restaurada (Ef 1, 9-10).

Em Cristo, acrescenta, fomos marcados como selo do Espírito Santo, garantia da nossa Redenção e pelo qual tomamos parte na herança da vida eterna (Ef 1, 13-14).

 

7- Morte de Jesus e Redenção

7.1- Jesus e a sua morte

Os discípulos sentiram a morte de Jesus como um fracasso. Esperavam que Jesus fosse o Messias, isto é, o filho de David que viria subir ao trono. Dois deles tentam mesmo garantir os primeiros lugares na corte. Os outros dez protestam, pois também eles esperavam coisa parecida (Mc 10, 35-45).

Mas, Jesus morreu sem subir ao trono. Também para os discípulos isto era a prova de que Deus não apoiara as suas pretensões messiânicas. Aliás, isto não era novo. Umas décadas antes também apareceram dois pseudo Messias que reuniram à sua volta bastantes aderentes. Foram mortos e tudo ficou na mesma (Act 5, 36-37).

Jesus teve consciência de que planeavam a sua morte. Mas nunca interpretou esta morte como uma exigência de Deus Pai. Pelo contrário, interpretou-a como um crime perpetrado pelos sacerdotes, doutores da Lei, fariseus e outros chefes do povo.

O contexto de despedida que dominou a Última Ceia revela que Jesus tinha consciência de que a sua missão histórica estava a chegar ao fim (1 Cor 11, 23-25). Mas os relatos revelam que Jesus não via a sua morte como um fracasso. Pelo contrário, dão a entender que Jesus estava seguro de que Deus ia restaurar e glorificar a sua vida. Por isso faz alusão ao vinho do banquete no Reino de Deus (Lc 22, 14-18). Mas os discípulos não entendiam esta linguagem. Esta resistência dos Apóstolos leva Jesus a interpelar Pedro com dureza, chamando-o de Satanás (Mt 16, 22-23).

Mas a experiência pascal veio alterar tudo. Esses homens que na quinta-feira à noite fugiram e, cobardemente, negaram conhecer Jesus, voltam dois dias depois, no domingo de Páscoa, dizendo que Jesus é o Messias e mostrando-se dispostos a dar a vida por esta afirmação.

Por detrás de uma transformação tão radical só pode ter acontecido uma destas duas coisas: ou enlouqueceram devido ao trauma sofrido com a perda de Jesus, ou aconteceu realmente um milagre que os transformou radicalmente.

Loucos não estavam, pois, apesar de serem quase analfabetos, argumentavam com as Escrituras, ao ponto de confundirem os doutores da Lei e os sacerdotes. Então só pode ter acontecido um milagre. É esta a melhor confirmação histórica da ressurreição de Jesus. Antes da Páscoa, os discípulos entendiam as coisas segundo os critérios da carne e do sangue (Mt 16,23). Mas, após a Páscoa, diz o evangelho de João, o Espírito Santo vai conduzi-los para a verdade total (Jo 16, 13).

Após a Páscoa, a compreensão dos discípulos sobre a missão messiânica de Jesus, começa a coincidir progressivamente com a compreensão que o Jesus histórico tinha desta missão. Este ponto de referência é excelente para entendermos até onde terá chegado a consciência de Jesus acerca da sua pessoa e da sua missão messiânica.

7.2- Morte de Jesus e Salvação

A morte de Jesus, no Evangelho de João é o momento da sua glorificação (Jo 7, 34; 8, 21-22; 14, 2-4). É condição essencial para a difusão do Espírito (Jo 16, 7-8; cf. 7, 37-39).

Desde o começo da Humanidade que o Espírito Santo actua na história humana. Em primeiro lugar como intervenção especial de Deus na criação do Homem. Mais tarde, no povo Bíblico, actua como presença revelacional. Com o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, o Espírito Santo realiza a dinâmica divinizante da Humanidade. É o momento em que a Humanidade entra na plenitude dos tempos, isto é, na fase dos acabamentos.

Para actuar de modo intrínseco no interior do Homem, o Espírito Santo tinha de interagir connosco em grandeza de onda humana. Isto só aconteceu devido ao facto de Jesus ser um homem em tudo igual a nós excepto no pecado.

Por outro lado, isto só podia acontecer no momento em que Jesus, pelo acontecimento da morte, se libertasse das coordenadas limitativas do eu individual: coordenadas biológicas, rácicas, linguísticas, culturais e espacio-temporais.

Foi exactamente o que aconteceu pelo mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. É este o sentido da afirmação do Credo, segundo a qual Jesus, ao morrer, desceu à mansão dos mortos. Por outras palavras, foi nesse momento que Jesus, homem como nós, entrou nas coordenadas da comunhão Universal, divinizando a Humanidade.

É esta a plenitude dos tempos, isto é, a fase dos acabamentos do projecto humano. Como vemos, a morte de Jesus era condição essencial para acontecer a salvação da Humanidade. Mas isto não significa que tinha de ser aquela morte cruel e muito menos pensar que esta foi uma exigência de Deus Pai.

Desde os primórdios da revelação que Deus se manifestou contra os sacrifícios humanos. Com efeito, logo no começo, Deus rejeitou o sacrifício de Isaac. Segundo este relato, foi a fidelidade de Abraão que agradou a Deus e não o sacrifício de seu filho (cf. Gn 22, 1-19).

Do mesmo modo, podemos dizer que a fidelidade incondicional de Jesus Cristo à missão que Deus lhe confiara é a fonte da nossa redenção. É este o Novo Adão que nos reconduziu a Deus (Rm 5, 17-19). Podemos resumir esta ideia dizendo que, o que agradou a Deus em Jesus Cristo foi a sua fidelidade incondicional à vontade do Pai e não a morte violenta que sofreu.