ESPERANÇA CRISTÃ E PLENITUDE DE VIDA

                                                              CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

O que distingue o cristão dos não cristãos é a vida teologal de Fé, Esperança e amor ao jeito de Cristo, isto é, a Caridade.

O fundamento da nossa Esperança é a Palavra de Deus, a qual nos ajuda a ver as coisas com os critérios do mesmo Deus.

Quanto mais o cristão cresce na vida teologal, mais Cristo se torna o centro da sua vida.

Para o cristão adulto na fé, diz São Paulo, a vida está cada vez mais identificada com os critérios de Jesus Cristo:

“Para mim, viver é Cristo e morrer é um lucro” (Flp 1, 21).

A Esperança dá-nos a certeza de que a nossa vida está cheia de sentido.

Na verdade, não somos frutos do acaso, nem estamos abandonados por Deus.

A Esperança cristã é certeza, pois assenta na Palavra de Deus e na sua fidelidade inabalável.

Esta certeza, no entanto, apoia-se na Fé, não na evidência.

Mesmo nos momentos das dificuldades, a esperança dá-nos a certeza de que o Deus em quem depositamos a nossa esperança é fiel.

O cristão amadurecido na vida teologal tem a certeza de que Deus não o abandona.

São Paulo diz que pediu a Deus que o libertasse de uma dificuldade.

São Paulo obteve a garantia de que apesar das suas limitações e defeitos, Deus não o ia abandonar:

“Basta-te a minha graça, pois o meu poder libertador é perfeito quando se trata de ajudar a fraqueza” (2 Cor 12, 9).

A Carta aos Colossenses indica uma norma sábia para o amadurecimento da Esperança:

“Colocai a vossa mente nas coisas do alto e não nas terrenas” (Col 3, 2).

Quanto mais a nossa mente e o nosso coração se deixam possuir pela Palavra de Deus, mais o Espírito Santo nos transforma e configura com Jesus Cristo.

Ele é a Cabeça da Humanidade restaurada e reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-18).

O Salmo 126 exprime de modo muito bonito a força da Esperança na vida dos crentes:

“Os que semeiam com lágrimas vão ceifar com cânticos de alegria.

Os que saem chorando, ao levar a semente para a sementeira, voltarão com canções de alegria trazendo muitos molhos de espigas consigo” (Sal 126, 5-6).

Para crescer, a Esperança cristã deve ser cultivada com a meditação da Palavra de Deus e fortalecida com a oração.

Quando os cristãos procedem assim, tornam-se arautos de um Boa Notícia, anunciando a esperança libertadora, como diz a primeira carta de Pedro:

“Acolhei Cristo nos vossos corações, a fim de estardes preparados para responder aos que vos procuram sobre as razões da vossa Esperança” (1 Pd 3, 15).

A esperança dá-nos a certeza de que, apesar dos sofrimentos e dificuldades da vida presente, Deus tem para nós uma plenitude onde a nossa alegria não terá limites.

Tudo é possível aos que estão em comunhão com Deus (Flp 4, 13).

Os pilares da Esperança cristã são a Palavra e o Espírito Santo, os quais actuam em perfeita harmonia no nosso coração.

A Palavra revela-nos o significado do plano de Deus.

O Espírito Santo realiza em nós o que a Palavra explicita.

Alimentado com a palavra e fortalecido pelo Espírito Santo, o cristão torna-se uma força transformadora no mundo.

A Carta aos Hebreus diz que Abraão é um modelo de Esperança.

Com efeito, apesar de a evidência sugerir o contrário, ele confiou em Deus, abrindo o coração à esperança.

E foi assim que obteve o que esperava:

“E assim, depois de ter esperado pacientemente, Abraão recebeu o conteúdo da promessa” (Heb 6, 15).

A Esperança cristã capacita-nos para olharmos a vida, a história e os acontecimentos com os olhos do próprio Deus.

Apesar de nos capacitar para saborearmos a vida com os horizontes da plenitude do Céu, a esperança não nos distrai dos compromissos históricos.

Pelo contrário, envia-nos para o mundo, a fim de sermos luz que faz ver a realidade com critério novos.

Do mesmo modo, a nossa esperança converte-nos em luz capaz de ajudar os homens a saborear de modo correcto a vida e os acontecimentos.

Além disso, torna-nos um fermento transformador nos modos de agir do mundo (cf. Mt 5, 13-16).

Pela Esperança, estamos seguros de que seremos para sempre membros da Família de Deus:

Filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho.

Graças à Esperança cristã, os sofrimentos e a própria morte não são vistos como tragédias sem saída, como diz São Paulo (Rm 8, 18).

A Esperança, juntamente com a Fé e a Caridade vão-nos ajudando a atingir a maturidade humana e cristã, capacitando-nos para trabalhar na construção de um mundo melhor, onde a justiça e a comunhão fraterna apareçam como valores fundamentais.

À medida em que a vida se vai gastando no serviço a estes valores, começa a abrir-se um horizonte muito mais vasto, o qual tem mais ou menos este sentido: “Mas o melhor ainda está para vir!”.

Que segurança, serenidade e felicidade este novo horizonte confere à pessoa que vai avançando em direcção à plenitude.

Depois de uma vida que se deu, o cristão amadurecido e gasto pelo dom de si mesmo vê nos horizontes da sua vida o sentido pleno da morte como porta necessária para entrar na plenitude.

Na verdade, a esperança cristã dá-nos a certeza de que não estamos a caminhar para o vazio do nada.

O Novo Testamento é um grito magnífico de Esperança ma medida em que todo ele é a proclamação da vitória da vida sobre a morte em Cristo ressuscitado.

Eis o que diz São Paulo:

“Assim como pelo pecado de um só veio a condenação para todos os homens, do mesmo modo, pela obra de justiça de um só veio para todos a justificação que dá a vida.

Assim como pela desobediência de um só todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se tornaram justos” (Rm 5, 18-19).

A passagem para a condição de uma Nova Criação acontece pela ressurreição de Cristo:

 “Assim como todos morrem em Adão, assim em Cristo todos recebem a plenitude da vida” (1 Cor 15, 22).

A Nova Criação pressupõe uma transformação no mais profundo do seu ser.

Passar da velha para a Nova Criação não é apenas uma questão de mudar de fato.

Também não é uma questão de mudar de rótulo. Na verdade, a Nova Criação implica uma recriação que significa passar do homem carnal, diz São Paulo, para o Homem espiritual:

 “O que vos digo, irmãos, é que o Homem terreno não pode herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdará a incorruptibilidade.

Vou revelar-vos um mistério:

Nem todos morreremos, mas todos seremos transformados (…).

É necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade e que este corpo mortal se revista de imortalidade” (1 Cor 15, 50-52).

Com estas palavras querem dizer que a nossa vitória sobre a morte está garantida, pois assenta na vitória de Cristo ressuscitado.

Isto é possível, acrescenta São Paulo, porque formamos o corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 12-27).

A nossa união com o Senhor ressuscitado, faz que o Espírito Santo, a força que ressuscitou Jesus Cristo, circule para nós e nos ressuscite:

 “Se nós pregamos que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos?

Se não há ressurreição dos mortos também Cristo não ressuscitou” (1 Cor 15, 12-13).

Mas as coisas não são assim, pois Cristo ressuscitou e este facto é a garantia da nossa ressurreição:

“Cristo ressuscitou dos mortos como primícias de todos os mortos.

Tal como por um homem veio a morte, assim também, por um homem vem a ressurreição dos mortos” (1 Cor 15, 20-21).

Na verdade, somos Nova Criação realizada em Cristo.

Por isso já temos acesso à participação da Família de Deus: filhos em relação a Deus Pai, e irmãos em relação ao Filho de Deus.

O Espírito Santo

É a ternura maternal de Deus que no introduz na Família de Deus (Rm 8, 14-17; Ga 4, 4-7).

A Esperança Cristã antecipa o gosto e a alegria desta plenitude de vida que Deus nos concede em Jesus Cristo.