CREIO NA RESSURREIÇÃO DA CARNE

                                                                                                              CALMEIRO MATIAS

 

 

 

                                                      

                                                     

 

a)    Os Apóstolos e a Ressurreição de Cristo

b)    Sentido Bíblico da Ressurreição da Carne

 

 

a) Os Apóstolos e a Ressurreição de Cristo

A mudança de atitude dos Apóstolos após a experiência pascal é o grande sinal confirmativo da Ressurreição de Jesus Cristo.

A Força transformadora de Cristo Ressuscitado faz-se sentir não apenas ao nível espiritual. Mas tem igualmente efeitos sociais e históricos:

Formação de comunidades cristãos, anúncio do Evangelho em público, um jeito novo de partilhar os bens e viver a fraternidade.

O Senhor Ressuscitado, mediante o Espírito Santo, inicia de facto uma dinâmica nova de Humanização.

Os discípulos esperavam tudo menos uma coisa destas.

Esses cobardes que na Quinta-feira Santa fugiu cada qual para seu lado com medo dos judeus, aparecem três dias depois a gritar nas praças públicas que Jesus É o Messias anunciado pelos profetas.

E o mais espantoso é que dizem coisas coerentes e estão dispostos a dar a vida por esta causa.

Mas o sinal mais espantoso é a mudança operada no teólogo judeu, Saulo de Tarso, que veio dar o grande Apóstolo São Paulo.

Era um inimigo acérrimo dos cristãos, perseguia uns e prendia outros. E tudo isto apoiado na sua teologia elaborada a partir dos escritos da Lei e dos profetas.

Agora a ressurreição de Cristo é o centro da sua nova teologia e o acontecimento que lhe dá força para ir pelos quatro cantos do Império Romano anunciar Jesus Cristo Ressuscitado.

De tal modo foi marcante a sua experiência de Cristo ressuscitado que ele se dispôs a dar o melhor de si, incluindo a própria vida, para anunciar este acontecimento central do Evangelho que anunciava.

A força com que anunciava o mistério de Cristo morto e ressuscitado não deixam dúvidas de que este facto é o centro e o fundamento da sua Fé.

Eis o que ele diz aos Coríntios:

“Se Cristo não ressuscitou a nossa pregação é inútil e falsa, como inútil e sem fundamento é a vossa Fé” (1 Cor 15, 14).

Se Cristo não ressuscitou a nossa pregação é palavreado oco e sem qualquer interesse.

Se Jesus não está vivo, a pregação do Evangelho seria uma fraude ignominiosa.

Portanto, é a ressurreição de Cristo que nos capacita e autoriza a anunciar a Boa Nova da salvação.

As aparições do ressuscitado confirmaram a sua esperança messiânica.

Afinal ele não nos enganou. Deus não nos defraudou. Ele é mesmo o Messias, pois está vivo!

Após a Páscoa, os discípulos pregam a ressurreição de Jesus com a euforia de quem acaba de descobrir qualquer coisa de maravilhoso e que altera totalmente o sentido da vida.

Estão mesmo dispostos a perder tudo, inclusive a vida, para defender esta verdade.

Quando ia a caminho de Damasco, São Paulo viu-se subitamente envolvido por uma luz intensa vinda do Céu.

Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia:”Saulo, Saulo, porque me persegues?”

Ele perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz do Céu respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues. Ergue-te, entra na cidade e dir-te-ão o que tens que fazer” (Act 9, 3-6).

E os olhos de Paulo abrem-se para a verdade da salvação que nos vem por Cristo.

O fariseu totalmente agarrado à letra da Lei, aos preceitos, às normas, vê-se de uma momento para o outro liberto de todas estas amarras que impedem o homem de se humanizar e comungar com Deus e os irmãos.

Esta mudança foi tão radical que o Apóstolo, na Carta aos Gálatas escreve:

“É que eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo.

Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim (…). Não rejeito a graça de Deus.

Se a justiça viesse pela Lei, então a morte de Cristo teria sido inútil” (Ga 2, 19-21).

E na Carta aos Romanos repete esta mesma ideia, contrapondo Cristo ressuscitado à Lei mosaica

Paulo insiste em que devemos entregar-nos a Deus como ressuscitados e entre os mortos com Cristo, pois é dele e não da Lei que recebemos a graça da Salvação:

“Entregai-vos a Deus como vivos de entre os mortos, como armas de justiça ao serviço de Deus.

O pecado não terá mais domínio sobre vós uma vez que não estais sob a Lei, mas sob a graça” (Rm 6, 13-14).

Paulo não foi discípulo do Jesus histórico. Por isso não teve parte nas primeiras aparições do ressuscitado ao grupo dos Doze.

Eis a razão pela qual ele inicia o seu discurso sobre a ressurreição de Jesus Cristo, repetindo o que os Apóstolos lhe explicaram:

“Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: “Cristo morreu pelo nossos pecados segundo as Escrituras.

Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.

Aparece a Cefas (Pedro) e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez.

A maior parte ainda vive, embora alguns já tenham morrido.

Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos (missionários itinerantes).

Em último lugar apareceu-me também a mim como a um aborto.

De facto, eu sou o menor dos Apóstolos, nem sequer mereço ser chamado Apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus.

Mas pela graça de Deus sou o que sou. Com efeito, a graça que me foi concedida não foi estéril.

Pelo contrário, tenho trabalhado mais que todos eles.

Não eu, mas a graça de Deus que está comigo. Tanto eu como eles temos pregado assim. E foi também assim que vós acreditastes!” (1 Cor 15, 3- 11).

Jesus de Nazaré está vivo. É ele o Messias, o Filho de David anunciado pelos profetas.

Foi ungido pelo Espírito Santo e entronizado n Céu no momento da sua ressurreição. É com este raciocínio que Paulo começa a sua Carta aos Romanos:

“Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado a ser Apóstolo, um escolhido para anunciar o Evangelho que Deus antecipadamente prometera por meio dos seus profetas nas Santas Escrituras, acerca do seu Filho, Jesus Cristo.

Nascido da descendência de David segundo a carne, constituído filho de Deus em poder, segundo o Espírito Santo, mediante a sua ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo, Senhor Nosso” (Rm 1, 1- 4).

Para esclarecer o jeito messiânico de Jesus viver enquanto esteve na terra, os Actos dos Apóstolos afirmam que Jesus foi ungido pelo Espírito Santo como Messias no momento do seu baptismo.

Eis a razão pela qual Jesus, durante a sua vida pública, já actuava como Messias:

“Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou.

Como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo maligno, pois Deus estava com ele.

E nós somos testemunhas do que ele fez no país dos judeus e em Jerusalém.

Mataram-no, mas Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por deus, a nós que comemos e bebemos com ele, depois da sua ressurreição de entre os mortos.

Foi ele que nos mandou pregar ao povo e confirmar que ele é o Messias constituído por Deus como juiz dos vivos e dos mortos” (Act 10, 37-42).

Estas passagens demonstram bem a dinâmica transformadora da ressurreição de Jesus Cristo.

A ressurreição de Cristo é o centro da pregação do Evangelho e também uma condição essencial para acontecer a salvação da Humanidade.

Eis algumas passagens significativas dos escritos de Paulo:

“Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor (Cristo ressuscitado) e acreditares no teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvos” (Rm 10, 9).

O simbolismo da água do baptismo, apesar de ser anterior a Cristo, começa a ser lido e interpretado à luz da morte e ressurreição de Jesus:

“Pelo baptismo fomos sepultados com Cristo na morte, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos para glória do Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova.

De facto, se estamos integrados em Cristo por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição.

O homem velho que havia em nós foi crucificado com Cristo, a fim de ser destruído o corpo do pecado. Deste modo, já não somos escravos do pecado (…).

Se morremos com Cristo, acreditamos que também com ele viveremos.

Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morre mais. A morte não tem mais domínio sobre ele (…).

Do mesmo modo considerai-vos, vós também, mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6, 4-11).

Graças à ressurreição de Cristo também nós seremos ressuscitados, proclama São Paulo, pois fazemos uma união orgânica com o Senhor:

“E Deus que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há-de ressuscitar a nós pelo seu poder.

Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo?” (1 Cor 6, 14-15).

 

 

b) Sentido Bíblico da Ressurreição da Carne

Para a Bíblia,

A Humanidade forma um todo orgânico.

As pessoas só se encontram e possuem em relações de convívio e comunhão com os outros.

O termo carne,

Para a cultura bíblica,

È mais um conceito genealógico e cultural do que um conceito biológico.

Para o mundo bíblico,

A pessoa está viva e convive na medida em que se relaciona em convive.

A pessoa privada de relações de convívio e comunhão está em estado de morte.

O noção de carne na cultura hebraica corresponde mais à realidade interior da pessoa humana do que à sua realidade exterior.

Podíamos dizer que o conceito de carne,

Aplicado aos seres humanos,

É a pessoa como interioridade que se estrutura em relações,

E está talhada para a comunhão com toda a humanidade.

Formar uma só carne significa formar uma grandeza relacional,

Cultural,

Afectiva,

Ou uma interacção e comunhão orgânica.

Por isso o varão deixará pai e mãe para se unir à sua esposa.

E assim fazem uma só carne (Gn 2, 24).

Falando da prostituição sagrada que se praticava nos templos pagãos,

São Paulo diz que os cristãos são corpo de Cristo,

Isto é,

Fazem um todo orgânico com o Senhor ressuscitado.

Por isso não podem unir-se às prostitutas dos templos pagãos,

Pois com esta prática estava a ligar Cristo a uma prostituta,

Pois o varão faz uma só carne com a mulher à qual se une.

O cristão é membro do Corpo de Cristo (1Cor 6, 15a).

Ligar-se à prostituta é tornar-se membro, isto é, unidade orgânica com a prostituta (1Cor 6, 15b).

Como estamos organicamente ligados a Cristo pelo Espírito Santo estava a cometer uma profanação:

“Aquele que se une ao Senhor constitui com Ele um só Espírito” (1Cor 6, 17).

Fomos baptizados no mesmo Espírito para formarmos um só corpo com Cristo (1Cor 12, 13).

Somos membros de Cristo,

Cada qual com uma função própria (1Cor 12, 27).

Ao falar da Eucaristia,

São Paulo diz que comemos do mesmo pão porque formamos um só corpo (1Cor 10, 17).

Para a visão bíblica,

Os seres humanos estão todos interligados de modo orgânico.

Adão,

Constituído cabeça da Humanidade,

Colocou-a no caminho do malogro e do fracasso.

Por um só homem o pecado e a morte,

Diz São Paulo,

Entraram no mundo, atingindo a todos (Rm 5, 12).

Mas Deus escolheu Cristo como Novo Adão.

Através desta nova cabeça, Deus introduz o Seu Espírito que vença a morte e o pecado (Rm 5, 17).

No Espírito, Deus reconcilia o Homem consigo (Rm 5, 15).

O marido e a esposa fazem um só corpo, diz a Carta aos Efésios faz o mesmo raciocínio da Primeira Carta aos Coríntios, dizendo que o marido e a esposa fazem uma só carne:

“Os maridos devem amar as mulheres como os seus próprios corpos.

Aquele que ama a sua mulher ama-se a si mesmo.

Ninguém jamais aborreceu a sua própria carne.

O homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à sua mulher e passarão a ser uma só carne” (Ef 5, 28-31).

É nesta perspectiva que devemos entender a afirmação bíblica da ressurreição da carne.

Com efeito,

Não se trata de uma restauração biológica mas de uma restauração orgânica com Cristo.

A Humanidade,

Na medida em que interage com Cristo

Faz uma só carne com ele.

A Humanidade,

Como unidade orgânica tem uma cabeça.

A ressurreição da Carne significa que a restauração e a glorificação dos seres humanos na Comunhão Universal da Família de Deus acontece de modo orgânico.

A carta aos Efésios,

Utilizando este modo de pensar,

Diz que o marido é a cabeça da mulher:

“O marido é a cabeça da mulher como Cristo é a cabeça da Igreja, Seu corpo, e da qual é o Salvador” (Ef 5, 23).

Na carta aos Filipenses, Paulo fala das razões de se gloriar na carne, cujo conceito nada tem a ver com a biologia:

“Também eu poderia confiar na carne.

Se os outros o fazem,

Quanto mais eu poderia fazê-lo:

Fui circuncidado ao oitavo dia.

Sou da raça de Israel,

Da tribo de Benjamim.

Sou hebreu, filho de hebreus.

Quanto à Lei,

Fui fariseu.

Quanto ao zelo,

Persegui a Igreja de Deus.

No que se refere à justiça da Lei vivi irrepreensivelmente” (Flp 3, 4-6).

Jesus chamou Satanás a Pedro por este só ver o plano de Deus segundo a carne,

Isto é,

Segundo a cultura e os esquemas religiosos do judaísmo.

Com este procedimento,

Jesus está a fechar-se à luz do Espírito Santo e a travar a acção de Jesus (Mt 16, 23).

Ao abençoar a fé de Pedro, Jesus diz-lhe que não foi a carne nem o sangue quem lhe revelou a nova compreensão, mas sim o Pai que está nos céus (Mt 16, 16-17).

É nesta perspectiva que devemos entender a afirmação do credo que diz:

“Creio na Ressurreição da Carne”.

A ressurreição é um acontecimento espiritual, não biológico:

“Semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção.

Semeia-se na ignomínia e ressuscita-se na glória.

Semeia-se na fraqueza e ressuscita-se na força.

Semeia-se corpo natural e ressuscita-se corpo espiritual.

O que digo,

Irmãos,

É que a carne e o sangue não podem tomar parte no Reino de Deus.

A corrupção não herdará a incorruptibilidade.” (1Cor 15, 42-50).

São Paulo, com este texto,

Está a dizer aos coríntios para não entenderem o termo ressurreição da carne em termos biológicos.

O Evangelho de João, ao falar da Eucaristia, revela já a preocupação de se defender da acusação de antropofagia.

Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e ressuscitá-lo-ei no último dia.

A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim eu nele. (Jo 6, 35-56)

Comer a carne de Jesus e beber o seu sangue,

Significa entrar em reciprocidade de comunhão com Cristo ressuscitado.

Esta comunhão com o Senhor ressuscitado é dinamizada pelo Espírito Santo (Jo 6, 62-63).

A alegoria da videira exprime muito bem a nossa união orgânica a Cristo.

Os que comem a carne e sangue de Jesus são as varas alimentadas pela seiva que vem da cepa, (Jo 15, 1-8).

A nossa união orgânica a Cristo culmina na Comunhão Universal com a Santíssima Trindade:

“Que todos sejam apenas um como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. Que também eles sejam um em nós” (Jo17, 21).

Ao ressuscitar,

Jesus Cristo deu-nos a Água viva que faz jorrar Vida Eterna no nosso íntimo (Jo 7, 37-39).

Quem come a carne de Cristo participa da salvação que acontece através da ressurreição da carne:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu vou ressuscitá-lo no último dia (…).

Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai,

Aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57).

Toda esta linguagem revela uma realidade espiritual.

Não há aqui antropofagia ou qualquer realidade de tipo biológico.

Se entendermos o sentido do termo carne na antropologia bíblica,

Teremos mais gosto em dizer: “Creio na ressurreição da carne,” do que dizer: “Creio na ressurreição dos corpos.”

Para falar aos Coríntios,

Gente de origem pagã e cultura helénica,

São Paulo traduziu carne por corpo.

Mas teve de acrescentar que se trata de um corpo espiritual,

A fim de evitar a ideia de que a ressurreição significa a restauração de tecidos e células:

“Semeado corpo terreno é semeado corpo espiritual.

Se há corpo terreno também há corpo espiritual” (cf. 1 Cor 15, 44).

A Boa Nova da ressurreição da carne tem subjacente a ideia de Comunhão Universal da Humanidade assumida e glorificada na comunhão da Família Divina.