COMO DEVE SER UMA COMUNIDADE CRISTÃ
Calmeiro Matias

a) Comunidade e Encontro Com Cristo
b)Comunidade e Crescimento Espiritual
c) A Comunidade é Sacramento da Nova Criação
1- Comunidade Cristã e Vida Teologal
1.1- A Fé Teologal
1.2- A Esperança Teologal
1.3- O amor Teologal ou Caridade
2- Comunidade e Partilha
d) Grupo Escolhido Para Servir o Evangelho
e) Sonhando Uma Comunidade Ideal
a) Comunidade e Encontro Com Cristo
A comunidade cristã é o espaço adequado para os crentes fazerem a
experiência da Palavra e do Espírito de Cristo Ressuscitado a actuar nos seus
corações.
O corpo, como sabemos, é a mediação de encontro. Os nossos encontros com os
outros são sempre mediatizados pelo corpo.
Dizer que a comunidade é corpo de Cristo significa que o mundo apenas pode
conhecer e encontrar-se através da comunidade.
Podemos dizer que Cristo é a cabeça deste corpo e o Espírito Santo é o seu
coração.
A palavra de Deus confere aos membros da comunidade o alimento da vida
teologal de Fé, Esperança, Caridade, isto é, amor ao jeito de Cristo.
A força que une os membros deste corpo é o amor, acrescenta São Paulo (1
Cor 13).
É na comunidade que a Palavra de Deus e o Espírito Santo preparam a pessoa
para depois viver o seu dia a dia como cristã.
Por outras palavras, os critérios e a força para actuar de modo cristão
emergem e amadurecem na comunidade que se reúne para partilhar a palavra, fazer
oração comunitária (não apenas rezas gregárias), celebrar os Sacramentos da Fé
e participar na programação e decisão e execução das tarefas da missão
evangelizadora.
A vivência dos horizontes da Fé, o aprofundamento da vida de oração, a
meditação da Palavra, bem como os compromissos evangelizadores devem continuar
depois na vida do dia a dia do crente.
É na comunidade que a Fé ganha raízes sólidas. Mas esta Fé não se tornará
adulta se o crente não aprofundar e exercitar a vida cristã no seu jeito de
pensar, viver e se comprometer no dia a dia da sua vida.
Eis alguns elementos fundamentais para a vida de um crente ser realmente
uma vida cristã:
É cristã a pessoa que procura viver os seus compromissos sociais
confrontando-os com os critérios do Evangelho de Jesus Cristo.
Jesus de Nazaré foi um profeta cujo jeito de viver pôs em questão as estruturas
sociais, políticas, e clericais do meio que viveu.
A grande paixão de Jesus foi restaurar a possibilidade de libertação e
felicidade da Humanidade, chamada à comunhão universal com Deus.
Para Jesus, as únicas realidades sagradas é Deus e o Homem.
Subordinou todas as coisas à dignidade dos seres humanos.
Todas as realidades criadas estão subordinadas ao Homem, quer se trate do
culto, instituições religiosas, dias santos como o Sábado, bem como todas as
normas e preceitos culturais ou religiosos do judaísmo.
Jesus convida as pessoas a converterem-se não a ritos ou cultos religiosos,
mas ao Evangelho do Reino de Deus.
Converter-se ao Evangelho significa modelar os conceitos e o jeito de viver
de acordo com os critérios do Evangelho.
Jesus não anuncia deuses novos. Mas fala de Deus de uma maneira nova e
libertadora.
Além disso, proclama uma novidade chocante para o judaísmo da sua época: Os
seres humanos são filhos de Deus, pois o Espírito Santo está no coração da
pessoa humana (cf. Rm 8, 14-16).
Ele veio edificar a Família de Deus, a qual ultrapassa os horizontes da
carne e do sangue (Mc 31-31-33).
Pelo mistério da Encarnação, O Divino enxertou-se no Humano, dando aos
homens o poder de se tornarem filhos de Deus, não por vontade da carne, nem do
sangue. Esta filiação divina também não é fruto do impulso humano, mas sim da
vontade de Deus (Jo 1, 12-14).
Ensina os discípulos um novo modo de orar, o qual consiste em falar com
Deus como um filho fala com seu Pai (Mt 6, 9-13).
Estas verdades centrais do Evangelho de Jesus Cristo revelam à Humanidade
um novo rosto de Deus.
Jesus Cristo veio como enviado de Deus Pai, a fim de realizar este plano
salvador:
“O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua
obra” (Jo 4, 34).
“Não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,
30).
De tal modo o jeito de actuar de Jesus era conforme à vontade Deus Pai que
ele pôde dizer que o seu modo de agir exprimia exactamente o amor de Deus por
nós.
Por outras palavras, ver o modo de Jesus actuar em relação aos seres
humanos era como ver a vontade e o plano de Deus:
“Disse-lhe Filipe: “Senhor mostra-nos o Pai, e isso nos basta.
Jesus respondeu-lhe: “há tanto tempo que estou convosco e ainda não me
conheceis, Filipe? Quem me vê, vê o Pai!
Como é que me dizes mostra-nos o Pai?” (Jo 14, 8-9).
Este modo de tomar partido por Deus e pelo Homem foi foram a razão pela
qual Jesus foi perseguido e, finalmente, violentamente assassinado.
Mas ele sabia que Deus toma partido pelos que sofrem e dão a vida pela
justiça e o bem.
O modo como Jesus celebrou a Eucaristia e mandou aos discípulos para
continuarem a celebrá-la em sua memória, isto é, após a sua morte, demonstra
bem que ele tinha consciência da sua morte.
Ao mesmo tempo demonstra que Jesus tinha consciência de que Deus o ia
restaurar e glorificar, pois Jesus fala do seu regresso para conduzir o Reino
de Deus à sua plenitude.
A ressurreição de Jesus é a confirmação de que Deus tomou partido por Jesus
e pela Boa Nova da Libertação que ele anunciou.
Um cristão adulto na Fé tem ser o proclamador desta Boa Notícia de Salvação
para a Humanidade.
A Igreja nasceu da experiência do Senhor ressuscitado mediante o Espírito
Santo.
Não é possível fazer a experiência do senhor ressuscitado a não ser pelo
Espírito Santo (1 Cor 12, 3).
A originalidade do cristão face aos outros seres humanos consiste na vida
teologal que se exprime em atitudes de Fé teologal, de Esperança teologal e
amor teologal ou caridade que é o amor ao jeito de Cristo.
Quanto mais um cristão for um crente amadurecido na vida teologal, mais
capacitado está para ser testemunha de Cristo ressuscitado.
A vida teologal emerge e amadurece no crente, graças à Palavra de Deus que
acontece no coração do crente pela acção do Espírito Santo.
A vida teologal capacita o crente para olhar as pessoas e as coisas, bem
como julgar os acontecimentos com os critérios de Deus.
Jesus Cristo torna-se assim o ponto de referência constante do cristão
quando tem de optar, decidir, programar ou agir.
Quanto mais os membros de uma comunidade cristã se configuram com Cristo,
mais a sua acção é eficaz no meio do mundo.
Isto quer dizer que o modelo dos crentes é Jesus Cristo morto por ser
incondicionalmente fiel a Deus e ressuscitado porque Deus toma partido pelo que
gastam a vida pelo amor.
A Cruz interpela-nos no sentido de nos deixarmos apaixonar pelas mesmas
causas pelas quais Jesus se apaixonou.
b) Comunidade e Crescimento Espiritual
Ninguém começa a ser cristão sozinho. A comunidade é o espaço adequado para
a comunicação da Palavra.
A comunidade, portanto, é a mediação a principal mediação do Espírito
Santo, pois a Palavra acontece no coração do crente pela acção do Espírito
Santo.
Depois vêm as Escrituras. De facto, não foi o Novo Testamento que gerou as
primeiras comunidades, mas estas que, animadas pelo Espírito Santo, geraram o
Novo Testamento.
As Escrituras sem comunidade gerariam um caos de interpretações sem
contexto de partilha dialogada, a calda imprescindível para a Palavra acontecer
como vivência no Espírito Santo.
Isto não quer dizer que os crentes não possam e não devam ler as Escrituras
a sós, mas antes que as lentes correctas para fazer essa leitura e meditação
são adquiridas em contexto comunitário.
Em contexto comunitário, o crente recebe as notas musicais para elaborar
uma sinfonia.
Na leitura e meditação pessoal das Escrituras, o Espírito Santo compõe
sinfonias magníficas no coração do crente, mas apenas com as notas que este
recebe em contexto comunitário.
O crescimento espiritual do crente na comunidade acontece através de
realizações e celebrações que são mediações privilegiadas para o Espírito Santo
actuar no coração dos crentes.
Eis algumas dessas mediações fundamentais:
1- A oração. As comunidades apostólicas são um modelo do que significa uma
comunidade orante:
“Depois de terem ouvido tudo o que
lhes relataram, os crentes elevaram a voz a Deus, numa só alma e disseram:
“Senhor, tu é que fizeste o Céu, a Terra, o mar e tudo o que neles existe.
Tu disseste pelo Espírito Santo e pela boca do nosso pai David, teu servo:
“Porque bramiram as nações e os povos formaram vãos projectos?
Levantaram-se os reis da Terra e os chefes coligaram-se contra o Senhor e
contra o seu Ungido”.
De facto, Herodes e Pilatos coligaram-se nesta cidade com as nações e os
povos de Israel, contra o teu santo servo Jesus, a quem ungiste, para levarem a
cabo tudo quanto determinaste antecipadamente, pelo teu poder e sabedoria.
Agora, Senhor, tem em conta as suas ameaças e concede aos teus servos poderem
anunciar a tua palavra com todo o desassombro, estendendo a tua mão para se
operarem curas, milagres e prodígios, em nome do teu servo santo, Jesus”.
Tinham acabado de orar, quando o lugar em que se encontravam reunidos
estremeceu, e todos ficaram cheios do Espírito Santo, começando a anunciar a
palavra de Deus com desassombro” (Act 4, 24-31).
Eis outro exemplo bonito de oração nas comunidades apostólicas:
“Enquanto Pedro estava encerrado na prisão, a Igreja orava a Deus,
incessantemente por ele.
Na noite anterior ao dia em que Herodes contava fazê-lo comparecer, Pedro
estava a dormir entre dois soldados, bem preso por duas correntes, e diante da
porta estavam sentinelas de guarda à prisão.
De repente apareceu o anjo do Senhor e a masmorra foi inundada de luz. O
anjo despertou Pedro, tocando-lhe no lado e disse-lhe: “Ergue-te depressa!” e
as correntes caíram-lhe das mãos (…).
Pedro voltando a si exclamou: “Agora sei que o Senhor enviou o seu anjo e
me arrancou das mãos de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava”.
E, depois de reflectir, dirigiu-se a casa de Maria, mãe de João, de
sobrenome Marcos, onde muitos fiéis estavam reunidos para orar.
Bateu à porta da entrada, e uma serva chamada Rode veio atender.
Reconheceu a voz de Pedro e, com alegria, em vez de abrir, correu a
anunciar que Pedro estava à porta (…).
Então abriram a Porta e ao verem Pedro, ficaram estupefactos.
Fazendo-lhes sinal com a mão para se calarem, Pedro contou-lhes como o
Senhor o havia tirado da prisão e acrescentou:
“Mandai dizer tudo isto a Tiago e aos irmãos”. Depois retirou-se dali e foi
para outro lugar.” (Act 12, 5-17).
Como se pode ver nestes e noutros exemplos, a oração das comunidades
apostólicas é um diálogo de Deus. Os crentes falavam com Deus como um filho
fala com o Pai.
É exactamente esta a proposta que Jesus faz aos discípulos ao ensinar-lhes
o Pai-Nosso:
“Nas vossas orações, não sejais como os pagãos, que usam de vãs repetições,
pois pensam que, por muito falarem, serão atendidos.
Não façais como eles, porque o vosso Pai Celeste sabe do que necessitais
antes de vós lho pedirdes.
Rezai, pois Assim: “Pai nosso, que estais no Céu,
santificado seja o teu nome, venha o teu Reino” (Mt 6 7-9).
Por vezes, as cartas apostólicas recomendam aos crentes a oração de acção
de graças e louvor a Deus, cantando hinos e cânticos de louvor.
Os textos que fazem esta recomendação sublinham o louvor a Deus, a
edificação dos irmãos, o ensino fraterno, a expressão de sentimentos de
gratidão e louvor a Deus (Ef 5, 19; Col 3, 16; Heb 13, 15).
Paulo acentua que mais importante que a melodia é o sentido e o conteúdo
das palavras que se cantam.
O canto na liturgia, segundo Paulo, é uma mediação do Espírito Santo para
orar, formar e edificar os fiéis e não para realizar um espectáculo.
O estilo de oração de uma comunidade revela a maturidade de fé da mesma.
Eis alguns pontos importantes sublinhados pelo Novo Testamento:
Orar é tomar Deus a sério, procurando encontrar-se com ele no íntimo do seu
coração.
A oração feita com fé é sempre eficaz, sugere o evangelho de Mateus (Mt
21,22).
A oração do crente amadurecido deve ser fundamentada na Palavra de Deus. São
Paulo diz que a fé deve ser robustecida com a Palavra:
“A Fé surge pela pregação e a pregação pela Palavra de Cristo” (Rm 10, 17).
A oração consciente e amadurecida é um encontro com Deus no coração do
crente que ora.
De facto, o ponto de encontro do crente com Deus é um coração humilde, isto
é, verdadeiro, pois a humildade é a verdade.
A oração feita em humildade é atendida, mas Deus não encontra condições
para actuar no coração do orgulhoso (Lc 18, 9-14).
A carta de São Tiago diz que Deus dá a sua graça aos humildes, mas resiste
aos soberbos (Tg 4, 6).
A oração cristã deve ser sobretudo de acção de graças pela presença e a
força do Espírito Santo no nosso coração.
Devemos dar constantemente graças a Deus por todas as coisas (Ef 5, 20).
Devemos orar sem cessar e dar graças por todas as coisas (1 Ts 5, 17-18).
Devemos ser persistentes na oração, sabendo que esta é a maneira de
chegarmos à sintonia com a vontade de Deus e não estar à espera de eficácias de
tipo mágico.
É neste sentido que devemos entender a parábola da persistência do amigo
inoportuno (Lc 11, 5-10), bem como a parábola que, com persistência, insiste
junto do juiz injusto (Lc 18, 1-8).
Devemos orar em nome de Cristo (Ef 5, 20). Orar em nome de Cristo significa
orar no Espírito Santo, a pessoa divina que anima a nossa comunhão orgânica com
Cristo e, através dele, com a Santíssima Trindade (Jo 17, 21-23).
É neste sentido que devemos entender a afirmação de Jesus no evangelho de
João:
“Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai a não ser por
mim” (Jo 14, 5).
Mais à frente João explicita melhor esta verdade, dizendo:
“O que pedirdes em meu nome ao Pai eu o farei, a fim de se manifestar no
Filho a glória do Pai” (Jo 14, 13).
É também este o sentido da afirmação da Carta aos Hebreus segundo a qual
Jesus Cristo, uma vez ressuscitado, está junto do Pai exercendo as funções de
Sumo-sacerdote em nosso favor (Heb 7, 24-25).
A maturidade de vida teologal de uma comunidade manifesta-se no modo de
orar.
2- A Palavra de Deus: A Primeira Carta de Pedro diz que é pela Palavra de
Deus que os crentes crescem espiritualmente (1 Pd 2, 2).
A Carta de Tiago diz que a nossa devoção a Deus se exprime pelo modo como
acolhemos a sua Palavra.
A maneira de sermos fieis a Deus é acolher rápida
e fielmente a sua Palavra (Tg 1, 16-19).
A maneira correcta de acolher a Palavra é pô-la em prática na nossa vida,
isto é, tornarmo-nos fazedores e não apenas ouvintes da Palavra (Tg 1, 21).
A Palavra de Deus partilhada e meditada em comunidade vai-nos conferindo
critérios e vai-nos ajudando a olhar as coisas com o olhar de Deus.
3- A Eucaristia: a Eucaristia é chamada a fracção do pão (Act 2, 42).
Sempre que partimos o pão e bebemos do cálice, diz São Paulo, anunciamos a
morte do Senhor até ele vir (1 Cor 11, 23-26).
É o sinal da comunhão orgânica dos crentes entre si e todos com Cristo. Somos
muitos mas comemos do mesmo pão porque formamos o corpo de Cristo (1 Cor 10,
17).
Cristo é a Árvore da Vida cujo fruto, a sua Carne e Sangue nos dão a vida
eterna e nos fazem participantes da ressurreição de Jesus” (Jo 6, 52).
O Cristo da Eucaristia é o Senhor ressuscitado (Jo 8, 62).
A sua Carne e Sangue é o Espírito Santo e não uma
realidade biológica (Jo 6, 63).
É esta a Água viva que faz jorrar no nosso íntimo rios de água viva (Jo 7,
37-39; 4, 14).
No mistério da Trindade o Pai e o Filho fazem um (Jo 10, 30). Esta união
orgânica acontece como interacção e r4eciprocidade amorosa dinamizada pelo
Espírito Santo.
A Eucaristia é o sacramento que proclama que os que se unem a Cristo pelo
Espírito vivem pelo Senhor ressuscitado como este vive pelo Pai mediante o
Espírito Santo:
“Quem como a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de
ressuscitá-lo no último dia, pois a minha carne é uma verdadeira comida e o meu
sangue é uma verdadeira bebida” (Jo 6, 54-55).
Comida e bebida significam, naturalmente princípio alimentador da vida. Neste
caso da vida espiritual que brota da comunhão orgânica com Cristo.
Deste modo a comunidade se torna o Corpo de Cristo e os crentes são os
membros deste corpo, cada qual com sua função própria (1 Cor 12, 27).
O princípio animador da vida deste corpo é o Espírito Santo:
“De facto, fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só
Corpo, tanto judeus como gregos, escravos ou livres. Todos bebemos de um só
Espírito” (1 Cor 12, 13).
Também para Paulo, como acontece com João, o Espírito é a bebida que dá a
vida eterna.
Ao associar o baptismo com o dom do Espírito, Paulo fala de uma bebida. É
isto que João faz ao falar da Água Viva (Jo 7, 37-39; 4, 14). É esta a Carne e
Sangue de Cristo, segundo São João.
Na carta aos Romanos, Paulo diz que o Espírito Santo é o sangue de Deus a
circular nas nossas veias espirituais:
“Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Vós não recebestes um espírito de escravidão para nadardes com medo, mas um
Espírito de adopção, graças ao qual chamamos “Abba”, ó Pai” (Rm 8, 14-15).
João explicita e aprofunda este mesmo pensamento de Paulo, dizendo que,
graças ao Espírito Santo, a Carne e o Sangue de Cristo Ressuscitado, nós
passamos a viver por Cristo como Cristo vive pelo Pai:
“Quem come ã minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele.
Assim Como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo
Pai, também aquele que me come (acolhe em reciprocidade amorosa) viverá por
mim” (Jo 6, 56-57).
A primeira Carta aos Coríntios relembra que o cálice é comunhão com o
Sangue de Cristo e o pão que partilhamos é comunhão com o Corpo de Cristo.
É esta a imensa riqueza espiritual e o profundo sentido sacramental do pão
e do vinho da Eucaristia:
“O cálice de bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo?
E o pão que partimos não é comunhão com o Corpo de Cristo?
Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, pois
todos participamos desse único pão” (1 Cor 10, 16-17).
É interessante ver como Paulo passa do pão da Eucaristia para a comunidade.
O pão eucarístico está para a comunidade como esta está para o mundo: ambos
são Corpo de Cristo, isto é, mediação de encontro com o Senhor ressuscitado
pela mediação da palavra e do Espírito.
O pão e o vinho são mediação de encontro com o Senhor ressuscitado para os
crentes.
Com o pão e o vinho da Eucaristia para os não crentes não tem qualquer
significado, a mediação de encontro para os não cristãos, são os membros da
comunidade, mediante a Palavra e o Espírito Santo, como proclamam os Actos dos
Apóstolos (Act 10, 44-48).
c) A Comunidade é Sacramento da Nova Criação
1- Comunidade Cristã e Vida Teologal
1.1- A Fé teologal
A fé começa por ser uma dimensão indispensável para a pessoa se relacionar
e estruturar humanamente. As relações são humanizantes na medida em que se
exprimem em atitudes de fé, esperança e amor. Por outras palavras, antes de ter
um horizonte religioso, a fé é uma componente das relações construtoras das
relações humanas.
Como dimensão humana, a fé é a capacidade que a pessoa tem de aceitar
mensagens comunicadas pelos outros as quais não são evidentes, não se podem
comprovar e não vão contra a razão.
Constantemente estamos a comunicar mensagens que não são evidentes e não se
podem comprovar. Mas os outros aceitam-nas com toda a naturalidade desde que
não vão contra a razão. Estamos a falar do horizonte humano da fé.
Se os outros nos exigissem a demonstração das nossas afirmações que não são
evidentes, as relações humanas tornavam-se impossíveis e, por conseguinte, não
podíamos humanizar-nos.
A dimensão humana da fé adquire horizontes novos quando é potenciada pelos
horizontes religiosos. Estamos a falar da fé religiosa e não ainda da fé
teologal. Na fé religiosa, os horizontes não são os de uma mera comunicação
humana, mas os conteúdos de uma doutrina religiosa. Mas a fé religiosa não é
ainda a fé teologal.
Os horizontes da fé teologal são os da Palavra de Deus. A fé teologal não
vai contra a razão, embora não seja um simples produto da mente humana. Podemos
dizer que a revelação ilumina a razão, ajudando-a a alcançar horizontes que,
por ela mesma, nunca poderia atingir.
A fé teologal não é um meteorito caído do céu. É a própria fé humana
optimizada e potenciada pela Palavra que o Espírito Santo faz ecoar no coração
dos crentes.
As relações humanas, na medida em que são humanizantes, concretizam-se em
atitudes de fé, esperança e amor. A vida teologal capacita os crentes para se
relacionarem ao jeito de Jesus Cristo. Por outras palavras, a vida teologal
configura os crentes com Jesus Cristo.
O que foi dito faz-nos compreender como a fé humana é uma dimensão básica
para a estruturação do ser humano e a fé teologal é essencial para a
estruturação do ser cristão.
Uma pessoa que esteja sempre a desconfiar dos outros não consegue chegar
longe em termos de amizade e comunhão com os demais. Do mesmo modo, um cristão
não pode crescer na sua comunicação explícita com Deus se não crescer na fé
teologal.
Os evangelhos sublinham que não pode haver milagres sem fé. O milagre não é
um acto arbitrário de Deus. O milagre é uma experiência libertadora feita por
alguém que, mediante a fé, se abre interiormente, acolhendo a dinâmica
libertadora do Espírito Santo.
Jesus disse muitas vezes às pessoas que os milagres têm a ver com a sua fé:
“Faça-se segundo a vossa fé” (Mt 9, 29). Várias vezes chamou a atenção dos
apóstolos pelo facto de eles terem pouca fé: “Porque estais aterrorizados? Não
tendes Fé?” (Mc 4, 40).
A fé teologal cria uma união especial entre os crentes e Deus. São Paulo
diz que o justo vive pela fé (Rm 1, 17; Ga 3, 11). Depois acrescenta que, sem
fé, não se pode agradar a Deus (Rm 2, 7-8). A fé teologal, como resultado da
Palavra de Deus, é uma luz que ilumina o crente e o ajuda
a crescer na fidelidade à vontade de Deus (Ga 5, 6;1 Tes 1, 3; 2 Tes 1, 11).
A fé teologal é um dom que Deus no concede através da Palavra e do Espírito
Santo que torna a Palavra de Deus um acontecimento vivo no coração dos crentes.
Referindo-se aos judeus que rejeitaram Cristo, São Paulo diz que estes, por não
terem fé, não podem invocar a Deus, a fim de serem ajudados: “Mas Como hão-de
invocar aquele em quem não acreditaram? E como hão-de acreditar naquele de quem
não ouviram falar? E como ouvirão se ninguém lhes prega? E como pregarão se não
forem enviados? Conforme está escrito: ‘quão formosos são os pés dos que
anunciam boas novas’ (…). A fé, portanto, vem da pregação e a pregação da
Palavra de Deus” (Rm 10, 14-17).
A fé, diz a carta aos Hebreus, é o fundamento firme das coisas que esperamos
e a demonstração das que não vemos (Heb 11, 1). O conteúdo da fé teologal é a
revelação, como diz a Carta aos Efésios: “Por revelação me foi dado conhecer o
mistério que acabo de vos expor em resumo. Pela sua leitura podeis compreender
a ideia que faço do mistério de Cristo e que nas gerações passadas não foi dado
a conhecer aos filhos dos homens. Agora, porém, foi revelado pelo Espírito
Santo aos seus santos apóstolos e profetas” (Ef 3, 3-4).
Paulo pede a Deus para que os membros da comunidade de Éfeso sejam de
Sabedoria e revelação: “Rogo ao Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da
Glória, que vos conceda o Espírito da Sabedoria e Revelação, iluminando assim
os olhos do vosso coração, a fim de conhecerdes bem o Pai da Glória e a
esperança que constitui o seu chamamento” (Ef, 1, 17-18).
O alicerce firme da nossa fé é Cristo ressuscitado. Se Cristo não tivesse
ressuscitado, a nossa fé carecia totalmente de fundamento, diz São Paulo: “Se
Cristo não ressuscitou é vã a vossa fé e permaneceis ainda nos vossos pecados. E
também aqueles que morreram em Cristo pereceram. Se apenas esperamos em Cristo
para as coisas deste mundo somos os mais miseráveis de todos os homens” (1 Cor
15, 17-18).
A fé teologal não tem os horizontes da razão humana, mas sim os da Palavra
de Deus. O mesmo acontece com a esperança teologal e do amor caridade.
1.2- Esperança
A atitude que alimentou a caminhada histórica do Povo Bíblico foi de modo
muito particular a atitude da esperança. Com efeito, o povo de Israel era
constantemente impelido pela esperança do grande acontecimento messiânico,
símbolo de plenitude da vida feliz.
O Messias foi anunciado, desejado e esperado ao longo da história do Antigo
Testamento. Mas não chegou ao acontecimento messiânico. É o Novo Testamento que
confere plenitude ao Antigo.
O Novo Testamento é a confirmação da fidelidade de Yahvé. O Senhor Deus
realizou em Cristo a promessa, a Aliança e o dom das bênçãos prometidas a todas
as famílias da terra (Gn 12, 3).
Sem o Novo Testamento, o antigo era um projecto falhado, pois não tinha
atingido a sua a meta para a qual se orientou ao longo de toda sua marcha.
O Novo Testamento é a garantia de que vale a pena confiar em Deus, pois o
Senhor realiza sempre o que promete. A confiança em Deus é a base da nossa Esperança.
Por isso o Novo Testamento é o testemunho sólido da fidelidade de Deus.
A esperança, diz São Paulo, emerge no coração dos crentes pela acção do
Espírito Santo: “Que o Deus da esperança vos encha de alegria e paz na vossa
fé, a fim de abundardes na Esperança pela força do Espírito Santo” (Rm 15, 13).
É exactamente isto que o termo teologal quer exprimir.
Também a carta aos Tessalonicenses reforça o princípio de que a esperança é
uma dádiva de Deus: “Que Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus Pai que nos amou e,
pela graça, nos deu eterna consolação e excelente esperança, consolem os vossos
corações e os tornem firmes em toda a espécie de boas obras e palavras” (2 Tes
2, 16-17).
A primeira carta a Timóteo diz que os pobres, os desprotegidos e os fracos
devem reforçar a sua confiança no Deus que nunca falha: “A viúva que ficou
sozinha no mundo, deve pôr a sua esperança em Deus, perseverando noite e dia em
oração” (1 Tim 5, 5).
Deus é a razão sólida da nossa esperança, pois é fiel e verdadeiro, mesmo
quando nós somos infiéis: “Mesmo que sejamos infiéis, Deus continuará fiel,
pois não se pode contradizer a si mesmo” (2 Tim 2, 13; cf. Rm 3, 3).
Também a carta aos Hebreus diz que o fundamento da nossa esperança é a
fidelidade de Deus: “Conservemo-nos firmemente apegados à nossa esperança, pois
o que fez a promessa é fiel” (Heb 10, 23).
Os que fundamentam a sua esperança nas riquezas, estão a edificar para o
fracasso, diz a primeira carta a Timóteo: “Recomendo aos ricos de bens deste
mundo que não sejam orgulhosos nem confiem na incerteza das riquezas, mas sim
em Deus, que nos dá todas as coisas com abundância, a fim de nos servirmos
delas.
Recomenda-lhes que façam o bem, tornando-se, assim, ricos em boas obras. Que
sejam generosos e liberais, entesourando para si um sólido tesouro para o
futuro, a fim de conquistarem a vida verdadeira” (1 Tim 6, 17-19).
Como vemos a esperança teologal confere aos crentes critérios para ajuizar
de modo correcto sobre o valor da vida, das coisas e dos acontecimentos. O
homem que se deixa guiar pelos horizontes da esperança cristã torna-se sensato
e bom, condições para caminhar com firmeza para o Reino de Deus.
A sensatez, a sabedoria e a bondade nascem da esperança mantêm-nos unidos a
Cristo, fundamento comprovativo da fidelidade de Deus. Ele é o alicerce sólido
da nossa esperança. São Paulo diz aos Gálatas que tentam virar-se para a lei de
Moisés que estão separados de Cristo, pois pretendem obter a salvação por
caminhos errados: “Estais separados de Cristo. Ao procurardes a justificação
pela Lei decaístes da graça. Quanto a nós é pelo Espírito que aguardamos a
justiça esperada pela fé.
De facto, em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão
têm qualquer valor, mas a fé que actua pela caridade” (Ga 5, 4-6). Como vemos,
as três virtudes teologais andam permanentemente unidas.
A meta da nossa esperança é a comunhão definitiva com Deus na qual somos
incorporados e plenificados: “Justificados pela fé, tenhamos paz com Deus por
meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem temos acesso, pela fé, a esta graça
na qual permanecemos e também nos gloriamos, apoiados na Esperança da glória de
Deus (Ga 5, 12).
A esperança teologal abre ao crente um horizonte de plenitude de vida com
Deus, conteúdo fundamental da nossa esperança: “Não só a Criação, mas também
nós que possuímos as primícias do Espírito gememos em nós, aguardando a
filiação adoptiva, a libertação do nosso corpo. Com efeito, foi na esperança
que fomos salvos.
Mas o conteúdo da esperança é algo que não se vê. De facto, o que se vê,
não é esperança, pois como é que se pode esperar aquilo que vemos? Se esperamos
o que não vemos com paciência o esperamos” (Rm 8, 23-25).
A firmeza na esperança é o sinal de que estamos em sintonia e comunhão com
Deus e, portanto, seremos acolhidos na plenitude do Reino de Deus: “Desejamos,
porém, que cada um de vós mostre zelo dos antigos patriarcas, mantendo intacta
a sua esperança até ao fim” (Heb 6,11).
A confiança em Deus é o suporte da nossa esperança e, portanto, a certeza
de obter os dons que Deus reservou para nós: “Abraão, esperando com paciência,
alcançou a realização da promessa” (Heb 6, 15).
As virtudes teologais caminham juntas. São atitudes que configuram o jeito
de viver dos que são animados pelo dom da Palavra e do Espírito Santo. De facto,
como diz São Paulo, não é possível ter uma fé sólida sem ter uma esperança e um
amor em densidade igual: “Recordamos o dinamismo da vossa fé, o esforço da
vossa caridade e a constância da esperança que tendes em Nosso Senhor Jesus
Cristo” (1 Tes 1, 3).
São Paulo lembra aos Efésios que estes, antes da sua conversão à fé eram
pagãos, isto é, não pertenciam ao povo eleito. Estavam alheios às alianças da
Promessa, sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2, 12).
1.3- O amor teologal ou caridade
O Novo Testamento proclama o amor como o grande mandamento dado por Cristo:
“Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros assim como eu vos
amei. Por isto é que todos conhecerão que sois mês discípulos: se vos amardes
uns aos outros” (Jo 13, 34-35).
Mas vai mais longe ao revelar-nos um conceito novo de Deus, ao dizer-nos
que a divindade é amor: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem
de Deus. Todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus.
Aquele que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4,
7-8). E ainda: “Deus é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus
nele” (1 Jo 4, 16).
O amor teologal é a optimização do amor humano levado a cabo pelo Espírito
Santo, o amor de Deus derramado nos nossos corações, como diz a Carta aos
Romanos: “A esperança não nos engana, pois o Espírito Santo é o amor de Deus
derramado nos nossos corações” (Rm 5, 5). Viver em Caridade é amar ao jeito de
Deus.
Sem deixar de ser amor humano, a caridade é o amor com uma densidade nova. Esta
densidade é dom do Espírito Santo e não um simples resultado do exercício
humano.
À medida em que cresce em nós a vida teologal, vamos sendo configurados com
Cristo: “Progredi na caridade segundo o exemplo de Cristo que nos amou e se
entregou por nós a Deus como sacrifício de agradável odor” (Ef 5, 2).
Quanto mais configurados com Cristo mais unidos organicamente a Ele. Isto
significa que mais agimos em Cristo e, consequentemente, maior a nossa
participação na comunhão familiar da Santíssima Trindade. Somos salvos na
medida em que formamos um todo orgânico com Cristo, ao ponto de fazermos um com
o Senhor como os ramos da videira fazem um com a cepa (Jo 15, 1-8).
São Paulo compara a nossa união orgânica a Cristo com a união que existe
entre a cabeça e os membros do corpo (1 Cor 10, 17; 12,27; 12,12). Esta
realidade, para São Paulo, não era uma mera teoria, mas uma experiência de vida
como ele mesmo diz: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. A vida
que vivo agora na carne, vivo-a na fé, sabendo que o Filho de Deus me amou e se
entregou por mim” (Ga 2, 20).
À medida em que o nosso amor se vai tornando caridade, vivemos já agora em
união orgânica com a família de Deus: “Todos os que são movidos pelo Espírito
de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para
cairdes no temor, mas um Espírito de adopção, graças ao qual clamamos “Abba”,
Pai” (Rm 8, 14-15).
À medida em que o nosso amor vai ganhando densidade teologal, amamos mais
ao jeito de Cristo, como diz a primeira Carta de São João: “Nisto conhecemos a
caridade: Jesus deu a vida por nós e nós devemos dar a vida pelos nossos
irmãos” (1 Jo 3, 16).
São Mateus diz que Cristo cumpriu todos os mandamentos e preceitos da Lei. Nem
um só ponto ou vírgula ficou por cumprir (cf. Mt 5, 17). Isto quer dizer que
Jesus, ao substituir a Lei pelo amor, realizou de modo perfeito as aspirações
mais autênticas da Lei.
São Paulo conhecia muito bem esta opção de Jesus. Por isso a aconselha aos
membros da comunidade de Roma a fazer o mesmo: “Não devais a ninguém coisa
alguma, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo cumpre a Lei (…). Todos
os mandamentos se resumem nestas palavras: ‘Amarás ao próximo como a ti mesmo’.
A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da Lei” (Rm
13, 8-10).
Sem caridade, acrescenta São Paulo, todas as obras que viermos a fazer
ficam vazias de conteúdo (1 Cor 13, 1-10). Eis a razão pela qual Jesus reduziu
a complexidade dos mandamentos ao mandamento do amor: “Dou-vos um mandamento
novo: ‘Amai-vos uns aos outros como eu vos amei ’. Assim
como eu vos amei, também vos deveis amar uns aos outros. É por isto que todos
saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,
34-35).
2- Comunidade e Partilha
“Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. O que era velho passou” (2
Cor 5, 17).
A Nova Criação significa estar organicamente unido a Cristo. A velha
criação significa estar organicamente unido a Adão (Rm 5, 17-18).
A Comunidade cristã é, no mundo, o sacramento da Nova Criação.
Um dos aspectos fundamentais pelo qual se afirma a Nova Criação é a
fraternidade.
Pelo contrário, a velha criação exprimiu-se pelo fratricídio quando Caim
matou seu irmão Abel (Gn 4, 8-16).
Uma das principais características das comunidades apostólicas era a
fraternidade e a comunhão expressa na partilha de bens.
Era provavelmente um dos aspectos que mais cativava os não crentes. A
partilha de bens era vista como o sinal da nova Humanidade recriada pelo
Espírito de Cristo ressuscitado:
“Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos (catequese) à união fraterna (às
reuniões comunitárias) à fracção do pão (Eucaristia) e às orações.
Perante os inumeráveis prodígios e milagres pelos apóstolos, o temor
dominava todos os espíritos.
Os crentes vivam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros
bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada
um (…).
E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado número
dos que tinham entrado no caminho da salvação” (Act 2, 42-47).
Mais à frente, os actos reforçam
esta mesma ideia, afirmando:
“A multidão dos que haviam abraçado a Fé tinha um só coração e uma só alma.
Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum.
Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor
Jesus, e uma grande graça operava em todos eles.
Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras
ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos
Apóstolos.
Depois distribuía-se a cada um conforme a necessidade que tivesse.
Um levita cipriota de nome José, a quem os Apóstolos chamaram Barnabé, isto
é “Filho da Consolação”, possuía uma terra; vendeu-a e trouxe a importância que
depositou aos pés dos Apóstolos” (Act 4, 32-37).
Naturalmente que estamos perante textos exemplares, os quais tentam apontar
o ideal da Comunhão Universal do Reino de Deus.
No entanto, não podemos imaginar que não havia um pano de fundo que
correspondia à verdade.
Esta solidariedade e ajuda fraterna não se processava apenas entre os
membros da mesma comunidade, mas também entre as diversas comunidades, como
testemunham alguns textos do Novo Testamento:
“Por aqueles dias houve uma grande fome em toda a terra. Foi a fome que
sobreveio no reinado de Cláudio.
Os discípulos, cada qual segundo as suas posses, resolveram então enviar
socorros aos irmãos da Judeia, o que fizeram, mandando-os aos anciãos, por
intermédio de Barnabé e de Saulo” (Act 11, 27-30).
Paulo organiza uma colecta nas comunidades da Galácia e de Corinto em favor
da comunidade de Jerusalém que, nessa altura, estava a passar por grandes
dificuldades:
“Quanto à colecta em favor dos santos (cristãos), fazei vós também o que
mandei fazer às igrejas da Galácia:
No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em sua casa, o
que tiver conseguido poupar, a fim de que, à minha chegada, não tenhamos que
estar ainda a fazer a colecta.
Quando aí chegar, enviarei, munidos de cartas, aqueles que tiverdes
escolhido para levar a vossa oferta a Jerusalém.
Se convier que eu vá também, farão a viagem comigo” (1 Cor 16, 1-4).
O mesmo fez em Macedónia e na Acaia, segundo o seu testemunho na Carta aos
romanos:
“Mas agora vou de viagem para Jerusalém, em serviço a favor dos santos
(cristãos).
A Macedónia e a Acaia decidiram realizar um gesto de comunhão para com os
pobres que há entre os santos de Jerusalém.
Decidiram e bem, pois eles são devedores para com eles.
De facto, se os gentios participaram dos bens espirituais dos cristãos
judeus, têm agora a obrigação de os servir com seus bens materiais.
Quando este assunto estiver resolvido, e lhes tiver entregue o produto
desta colecta devidamente selado, partirei para Espanha passando por junto de
vós (Roma)” (Rm 15, 25-28).
Há ainda outros textos que testemunham desta solidariedade das comunidades
de origem pagã para com a comunidade de Jerusalém (cf. Act 24, 17; Ga 2,10; 2
Cor 8-9).
A caridade, isto é, o amor ao jeito de Cristo, é eficaz. Não se reduz a meras
palavras simpáticas:
“Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade,
lhe fechar o coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?
Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a
boca, mas com obras e com verdade” (1 Jo 3, 17-18).
Os crentes também devem partilhar com aqueles que estão gastando a vida
para os evangelizar (2 Cor 11, 8-9: Flp 4, 10-18).
Somos abençoados por Deus na medida em que partilhamos (Act 20, 35; 2 Cor
9, 11). O próprio Jesus acentuou que é melhor dar que receber.
d) Grupo Escolhido Para Servir o Evangelho
A Comunidade cristã não é o grupo dos únicos que se salvam.
A salvação é para todo o ser humano que tenha um coração capaz de amar e
comungar amorosamente.
É esta a razão pela qual a Igreja é um povo especial no meio de todos os
povos, raças, línguas, povos e nações.
A Primeira Carta de Pedro diz que a Igreja constitui uma geração escolhida,
uma nação santa um povo real e sacerdotal, um povo especial para Deus (1 Pd 2,
9-10).
As comunidades cristãs são as realizações concretas deste povo.
São realmente o Corpo de Cristo Ressuscitado, isto é, a mediação para o
Senhor se comunicar com o mundo.
A sua missão no mundo, acrescenta a Segunda Carta de Pedro, é proclamar os
louvores de Deus, fomos escolhidos para conhecer Jesus Cristo, chamados a
participar na plenitude da Vida Eterna (2 Pd 1, 8-11).
Neste sentido podemos dizer que o plano salvador de Deus é para todos os
seres humanos, mas os cristãos são na história uma parcela escolhida de Deus
para celebrar e anunciar o projecto salvador de Deus a todos os homens.
Neste sentido podemos dizer com São Paulo que, de facto, somos a menina dos
olhos de Deus, os seus bem amados (Rm 1,7).
Para isso vivem a dinâmica especial do baptismo no Espírito, pelo qual são
capacitados e consagrados para o serviço do Evangelho (Ga 3, 26-27).
As comunidades cristãs têm um património especial que lhes é dado, não
apenas para elas, mas o comunicarem ao mundo.
Este património, segundo o evangelho de João, é a Palavra que é a Verdade.
Jesus Cristo, no evangelho de João, insiste que os cristãos estão no mundo
mas não são do mundo, pois os seus critérios e os valores que têm para anunciar
não são os do mundo mas os do Evangelho:
“Pai, entreguei-lhes a tua Palavra e o mundo odiou-os, porque eles não do
mundo, como também eu não sou do mundo.
Não te peço que os tires do mundo, digo isto para que eles tenham em si,
mas que os livres do mal.
De facto, eles não são do mundo como eu também não sou do mundo.
Pai, faz que eles sejam teus, por meio da Verdade.
A Verdade é a tua Palavra.
Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo e
entrego-me por eles, a fim de que eles fiquem a ser teus, por meio da Verdade”
(Jo 17, 14-19).
Esta originalidade, segundo o evangelho de Mateus, consiste em que os
cristãos estão no mundo como uma força transformadora.
São como um sal que dá sabor, isto é, ao anunciarmos a Palavra de Deus
estamos a comunicar aos seres humanos uma sabedoria que o mundo não tem nem lhes
pode dar.
É a sabedoria teologal que capacita os homens para olharem as coisas com os
critérios de Deus.
São também como um fermento que faz levedar a massa. Por outras palavras,
fazer levedar a massa significa inscrever os valores do Evangelho no tecido
social.
As comunidades cristãs são um dom muito especial de Deus à Humanidade. Se
formos infiéis a esta missão também não fazemos qualquer falta à mesma
Humanidade:
“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de ele
salgar?
Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos
homens.
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre o
monte. Também não se acende uma luz a candeia para a colocar debaixo do
alqueire, mas sim em cima do candelabro e, deste modo, alumiar a todos os que
estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, de modo que vendo as
vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu” (Mt5, 13-16).
Os cristãos são pessoas consagradas ao serviço do Evangelho.
Por isso pertencem de modo especial ao Senhor. O Espírito Santo
consagra-nos como consagrou Jesus para a boa Nova aos pobres, a libertação aos
cativos, fazer que os que têm limitações se sintam pessoas amadas e felizes (Lc
4, 18-21).
Esta consagração pressupõe uma série de atitudes e opções, a fim de
permitirmos ao Espírito Santo que nos configure com Cristo:
Temos que nos despir do homem velho e das suas obras (Col 3, 9-10).
Os que estão em Cristo são um Nova Criação (2 Cor 5, 17).
De facto, o homem velho não tem capacidade para acolher e viver em harmonia
com as coisas do Espírito Santo (1 Cor 2, 14).
Eis a razão pela qual temos de nascer de novo pelo Espírito Santo, pois o
que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é espírito (Jo 3, 6).
Nós não fomos adquiridos para a missão do Evangelho sendo comprados como os
escravos que eram pagãos com ouro ou dinheiro.
Pelo contrário, nós fomos comprados com o próprio sangue de Cristo, diz a
primeira Carta de Pedro (1 Pd 1, 18-19).
e) Sonhando Uma Comunidade Ideal
Os membros desta comunidade tomavam Deus
e os irmãos a sério.
Quem entrasse nesta comunidade tinha a sorte de encontrar pessoas livres,
conscientes e responsáveis.
Tinham uma forte consciência de pertença comunitária. Por isso cultivavam a
fraternidade entre si.
Todos sabiam que o fundamental é eleger o outro como alvo de bem-querer.
Entendiam muito bem que o amor é o caminho do amadurecimento e felicidade
humana.
Ninguém ignorava que o amor não se confunde com paixão ou simples emoção
Amar é eleger o outro como alvo de bem-querer, aceitá-lo e valorizá-lo,
apesar de ser diferente de mim ou do que eu gostaria que fosse.
Além disso, o amor implica agir de modo a facilitar a realização e
felicidade do outro.
Naquela comunidade, as pessoas sentem-se responsáveis pelas próprias
tarefas, procurando agir de modo a edificar a comunidade.
Todos são iguais, apesar da diversidade de carismas, ministérios e
capacidades.
Todos se sentem estimados e valorizados naquilo que fazem.
Por isso não há pessoas desenquadradas ou marginalizadas.
Este facto faz que cada qual procure render o melhor dos seus talentos.
Naquela comunidade não há parasitismo, mediocridade ou fraude.
As pessoas sorriem alegres, pois têm sentidos para viver.
Como todos são tomados a sério,
O contributo de cada um é estimado por todos.
Naquela comunidade não há cobardes nem heróis.
Aquelas pessoas sabem que recebemos os talentos uns dos outros. O nosso
mérito está apenas em fazê-los render.
Todos têm tarefas para realizar, mesmo os menos dotados ou possibilitados.
As pessoas tomam todas parte no que a todos diz respeito. Ninguém se sente
excluído.
As pessoas compreendem que a meta da comunidade é chegar à plena comunhão.
Graças ao sentido que aquelas pessoas têm do amor,
encontram condições para optar e decidir de acordo com a sua realização e o bem
comum da comunidade.
Ninguém imagina o bem pessoal como inimigo da comunidade ou vice-versa.
Além do trabalho há espaços de convívio e descanso, a fim de que não falte
qualidade às suas vidas.
Todos sabem cantar e partilhar a alegria.
Aprender, naquela comunidade, não é tarefa aborrecida, pois ninguém
pretende ensinar coisas inúteis para a fraternidade e a realização pessoal.
As pessoas sentem-se livres para pensar e falar.
Todos estão suficientemente amadurecidos para amar.
Há lugar para a originalidade de cada um, pois todos sabem que as pessoas
são únicas, originais e irrepetíveis.
Todos se olham nos olhos.
No seu olhar e no modo de sorrir há transparência e sabor a verdade e
lealdade.
Quando olham para o jeito de ser e viver naquela comunidade as pessoas
percebem que é disto que todos temos fome.
As atitudes das pessoas entre si coincidem com as aspirações mais profundas
e autênticas do coração humano.
O gesto mais espontâneo entre as pessoas da comunidade é estender a mão e
dizer bom dia ou boa noite.
Esta comunidade é fruto de muitas decisões, escolhas, opções e compromissos
de vida.
Nas celebrações da Fé, a comunidade sente-se o sujeito celebrante.
Sabe que a presidência tem um sentido sacramental, pois exprime a
presidência de Cristo.
Mas na partilha da Palavra todos se sentem livres e motivados para
intervir, pois sabem que são mediação do Espírito para os irmãos.
Procuram orar segundo o Espírito Santo, a fim de não caírem em meras
repetições ou atribuir um efeito mágico a rezas sem conteúdos de vida ou
horizontes de Fé teologal.
Apesar de possuírem um elevado nível de maturidade humana e cristã, as
pessoas têm consciência de estar em realização.
Aquela comunidade é um espaço privilegiado para a acção do Espírito Santo.
Em termos cristãos, a comunidade é um espaço de fraternidade e comunhão.
As pessoas sentem que os outros são um dom de Deus para si e procuram ser
dom para os outros.
Não são família segundo os laços do sangue, mas procuram construir a
família de Deus, a qual assenta nos laços do Espírito santo.
Uma comunidade cristã, dinamizada pelo amor fraterno e o Espírito Santo, é
um espaço privilegiado para fazer a experiência de Cristo Ressuscitado no seu
meio.
Depois, torna-se sinal da presença de Deus para o mundo. É isto que
significa ser corpo de Cristo, isto é, mediação de encontro das pessoas com
Cristo Ressuscitado.
As relações, na vida da comunidade, são interpessoais e de amizade. Existe
um objectivo comum para o qual todos procuram convergir.
Ninguém se sente mais que os outros, pois são todos membros do corpo de
Cristo (1 Cor 12, 13; 10, 17; 12, 27).
Todos têm a mesma dignidade fundamental: pessoas humanas, filhos de Deus e
irmãos uns dos outros.
As diferenças são apenas de tipo funcional, não essencial.
De facto, os membros do corpo têm todos a mesma densidade e nível
ontológico ou espiritual.
É o mesmo princípio de organicidade que circula e alimenta a vida em todos.
Cristo é a cepa e todos são ramos alimentados pela única seiva que vem da cepa
(Jo 15, 1-7).
O projecto de vida é elaborado e decidido por todos.
Não é cristã a comunidade onde as pessoas não são tomadas a sério. A
presidência, na comunidade, tem densidade sacramental: Exprime e significa a
presidência de Cristo que é a cabeça do corpo.
Na comunidade amadurecida não há homens faz tudo, os quais são um veneno
para a vida comunitária.
É melhor todos a fazer pouco, que poucos a fazer tudo.
Uma comunidade amadurecida é um espaço privilegiado para a vivência do
Baptismo no Espírito que é a dimensão pentecostal da vida cristã.
Nesta comunidade o Espírito diz a Palavra no coração das pessoas pela
mediação dos irmãos, das escrituras e dos sinais dos tempos.
As pessoas que têm a sorte de viver em comunidades amadurecidas crescem
enormemente na vida teologal de Fé, Esperança e Caridade, que é o amor ao jeito
de Deus.
Cada membro da comunidade sente-se livre para dizer o que pensa. Mas, ao
mesmo tempo, sente o dever de dar a palavra ao irmão e escutá-lo, pois ninguém
é dono da verdade.
Uma comunidade amadurecida gera cristãos adultos, isto é, pessoas
amadurecidas na vida teologal e, portanto, capazes de ser sal, luz e fermento
no mundo.
Cristo precisa de cristãos amadurecidos, a fim de transformar o mundo e
conduzir a Humanidade para o Reino de Deus.