A LINGUAGEM DA EUCARISTIA
CALMEIRO MATIAS

a) A Eucaristia,
Sacramento da Nova Humanidade
b) A Eucaristia
Como Sacramento da Graça
c) A Eucaristia
Como Sacramento da Água Viva
d) Eucaristia e a
Árvore da Vida
1) A árvore que dá
a Vida Eterna
2) A Vida Nova em
Cristo
e) Eucaristia e
Nova Aliança
a) A Eucaristia,
Sacramento da Nova Humanidade
O sacramento da
Eucaristia explicita e corporiza a Nova condição da Humanidade unida a Cristo e
incorporada na comunhão orgânica da Santíssima Trindade.
A comunidade que
celebra forma o corpo de Cristo e seus membros (1 Cor 12, 27).
Os membros da
comunidade, diz São Paulo, comem do mesmo pão para explicitar a sua condição de
membros do corpo de Cristo.
A Eucaristia
explicita a comunicação da Vida Nova que nos vem de Cristo Ressuscitado. A
Carne e o Sangue de Cristo ressuscitado, diz o evangelho de São João, é o
Espírito Santo (Jo 6, 62-63).
Jesus venceu a morte
no próprio acto de morrer. No momento em que morreu o último elemento do que em
Cristo era mortal, o imortal está totalmente glorificado e assumido na comunhão
das Santíssima Trindade.
Ao ressuscitar,
portanto, Cristo difundiu também para nós a vitória sobre a morte: O Espírito
Santo.
A Carta aos
Hebreus diz que Cristo, ao ressuscitar, se tornou o nosso Sumo-Sacerdote, isto
é, o medianeiro da acção salvadora de Deus a acontecer no nosso coração (Heb 7,
11-16).
No nosso interior,
o Espírito Santo é o penhor e a garantia da vitória da vida sobre a morte em
cada pessoa humana.
O Espírito Santo
que ressuscitou Cristo, diz São Paulo, é quem nos ressuscita também a nós.
É esta a Vida Nova
em Cristo! Eis o que a Segunda Carta aos Coríntios diz a este respeito:
“Se alguém está em
Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho.
Tudo isto nos vem
de Deus que nos reconciliou consigo em Cristo, não levando mais em conta os
pecados dos homens (2 Cor 5, 17-19).
Pela consagração,
o pão eucarístico torna-se o corpo de Cristo, isto é, mediação de encontro com
o Senhor.
Como sabemos, o
nosso corpo é mediação de encontro com os outros.
Podemos dizer que
o pão e o vinho consagrados estão para a comunidade como a comunidade está para
o mundo.
O pão e o vinho
consagrados são mediação de encontro com Cristo para os crentes.
Para os de fora, o
pão e o vinho consagrados não significam nada.
Os não crentes só
podem encontrar-se sacramentalmente com Cristo através dos membros da
comunidade, os quais são corpo de Cristo e, portanto, mediação de encontro com
o Senhor.
Este encontro, no
entanto, acontece sempre no interior das pessoas que comunicam com os crentes.
Evangelizar não
significa levar Cristo aos outros.
Quando o
evangelizador chega junto do não crente para o evangelizar, Cristo ressuscitado
já está no seu coração.
O papel do
evangelizador anunciar a Palavra e t3estemunhar a sua Fé.
Fazendo isto, está
a possibilitar aos não crentes um encontro com Cristo ressuscitado que, no seu
íntimo, está a actuar pela acção do Espírito Santo
São Pedro, na casa
de Cornélio ficou estupefacto ao verificar que, mediante o anúncio da Palavra,
o Espírito Santo começou a actuar no coração dos não crentes:
“Pedro estava
ainda a falar, quando o Espírito desceu sobre todos os que ouviam a Palavra
(…).
Pedro, então,
declarou: “Poderá alguém recusar a água do baptismo aos que receberam o
Espírito Santo como nós? E ordenou que fosse baptizados” (Act 10, 44-48).
A reserva da
Eucaristia continua a dinâmica de encontro e comunhão com Cristo.
Esta comunhão e
encontro, no entanto, dão-se sempre no coração dos crentes, nunca fora.
b) A Eucaristia
como Sacramento da Graça
A graça é a vida
nova que emerge no coração da pessoa humana a partir de uma relação amorosa com
Deus.
Esta vida nova
significa a vida humana optimizada graças à interacção que acontece entre o
pólo divino e o pólo humano.
Nesta relação
humano-divina, Deus surge para o Homem como dom incondicional, isto é, graça
total.
Por seu lado o
Homem surge para Deus como ser engraçado, isto é, capaz de acolher o dom
gratuito de Deus e de responder em atitude de reciprocidade.
Por outras
palavras, a pessoa humana é capaz de receber a gratuidade de Deus e responder
agradecidamente.
A gratidão perante
o dom de Deus faz parte da relação da graça, pois oferece condições a Deus para
se dar de novo e com matizes mais ricos devido à transformação que o dom de
Deus provoca no ser humano quando este o acolhe.
A doação de Deus é
infinitamente perfeita e totalmente incondicional.
Mas a aceitação da
pessoa humana é limitada e condicionada pela fragilidade, pelo pecado e pelas
limitações humanas.
Deus dá-se sempre
em clima de aliança, isto é, de reciprocidade.
Isto quer dizer
que Deus se dá de modo adequado a cada pessoa.
A aceitação por
parte da pessoa condiciona ou optimiza o dom de Deus.
Como sabemos, o
amor propõe-se, nunca se impõe.
A graça, portanto,
é uma vida nova. Por si, o ser humano só pode viver as relações de comunhão a
nível humano e humanizante.
Mas pelo mistério
da Encarnação a pessoa humana pode relacionar-se de modo orgânico com a própria
divindade potenciando, deste modo, a sua própria plenitude e felicidade.
Como sabemos, a
plenitude da pessoa não está na pessoa isolada, mas na pessoa em relações de
comunhão.
Reduzida a si, a
pessoa está em estado de perdição ou malogro total.
Por outras
palavras, a pessoa só se encontra e possui plenamente na comunhão com outras
pessoas.
Quando estas
pessoas são divinas, então a plenitude da pessoa é optimizada. Vai além da mera
medida humana e torna-se humano-divina.
A Divindade é
constituída por três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
A Humanidade é
constituída por muitos biliões de pessoas.
A plenitude das
pessoas divinas encontra-se nessa comunhão infinitamente perfeita do pai, com o
Filho no Espírito Santo.
Apesar de se
tratar de uma comunhão de três pessoas, Deus é apenas um. A plenitude é a
comunhão Trinitária.
Deus sonhou para a
Humanidade uma plenitude semelhante à da própria divindade.
Apesar de as
pessoas humanas não serem iguais às divinas são-lhe, no entanto, proporcionais.
Por outras
palavras, as pessoas humanas são capazes de em reciprocidade amorosa com as
pessoas divinas embora, embora a capacidade de acolher e agradecer das pessoas
humanas não chegarem à densidade e perfeição infinita das pessoas divinas.
A expressão máxima
da doação incondicional e gratuita de Deus aconteceu no mistério da Encarnação.
A Eucaristia
corporiza a dinâmica da Graça cuja fonte é Jesus Cristo.
Ele é a cepa da
videira cujos ramos somos nós. Os ramos só têm vida e são fecundos se estiverem
unidos à cepa.
Sem Cristo somos
ramos estéreis que não têm garantia de vida eterna (Jo 15, 4-5).
A seiva que vem da
videira para os ramos é o Espírito Santo.
Eis a razão pela
qual São Paulo diz que todos os que são movidos pelo Espírito Santo são filhos
e herdeiros de Deus Pai e são co-herdeiros com Cristo (Rm 8, 14-15).
Noutra passagem da
mesma carta, São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos
nossos corações (Rm 5, 5).
a) A Eucaristia Como Sacramento da
Água Viva
A Eucaristia é um
sacramento. Os sacramentos são celebrações da Fé que corporizam, visibilizam e
explicitam uma realidade que os transcende.
Os sacramentos não
são a realidade que explicitam, mas a sua corporização.
Isto quer dizer
que os sacramentos são uma mediação privilegiada de encontro com a realidade
que proclamam.
No Reino de Deus
já não há sacramentos, mas apenas a realidade que eles explicitam.
No Céu temos todos
acesso à realidade de Deus que é a plenitude da nossa salvação em Jesus Cristo.
A salvação
consiste numa vida nova que deriva do facto de a pessoa humana ser assumida e
incorporada na Família da Santíssima Trindade.
O princípio
animador desta relação familiar é o Espírito Santo, princípio animador de
relações e vínculo de comunhão orgânica.
São Paulo diz que
é pelo Espírito que somos incorporados na Família de Deus (Rm 8, 14-16; Ga 4,
4-7).
Jesus disse à
Samaritana que o dom da Salvação acontece no interior da pessoa, graças à acção
da Água Viva que ele tem para dar.
Isto significa que
Jesus é o portador da plenitude da salvação que acontece pelo dom do Espírito
Santo:
“Se conhecesses o
dom que Deus tem para dar e quem é aquele que te está a pedir água, tu é que
lhe pedirias e ele dar-te-ia Água Viva” (Jo 4, 10).
O profeta Jeremias
acusa o povo infiel por este voltar as costas à fonte da Água Viva que é o
Senhor Deus.
Para o Evangelho
de João, a Água viva é o Espírito Santo, o grande dom de Cristo ressuscitado
(Jo 7, 39).
A Carta aos
Romanos diz que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos
e herdeiros de Deus:
“Todos os que se
deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus.
Vós não recebestes
um espírito de escravidão para andardes com medo, mas sim um Espírito de
adopção graças ao qual clamamos “Abba”, papá.
É o próprio
Espírito que dá testemunho no nosso íntimo de que somos filhos de Deus.
Se somos filhos,
somos igualmente herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8,
14-17).
São Paulo associa
o Espírito Santo à Água da vida nova que nos vem de Cristo ressuscitado. Esta
Água Vivificante é explicitada na água do baptismo:
“Todos nós fomos
baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, tanto judeus como
gregos, escravos ou livres.
Todos bebemos de
um mesmo Espírito” (1 Cor 12, 13).
É pelo Espírito
Santo que formamos essa união orgânica misteriosa que faz de nós membros de
Jesus Ressuscitado.
Referindo-se à
Eucaristia, o evangelho de João diz que a carne e o sangue de Jesus Cristo
ressuscitado é, no nosso íntimo, o alimento da vida eterna.
Depois explicita
melhor esta verdade afirmando que a carne e o sangue de Cristo é o dom do
Espírito que nos é dado pela ressurreição de Jesus Cristo” (Jo 6, 62-63).
Em relação às
dúvidas da Samaritana a propósito da Água Viva, Jesus diz-lhe que á Água Viva
não é como a água do poço de Jacob, isto é, a antiga Aliança.
A Água do poço de
Jacob precisa de um balde (a multiplicidade de normas associadas à
circuncisão).
Além disso, a água
do poço de Jacob, não mata a sede de modo definitivo:
“Todo aquele que
bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que
beber da Água que eu lhe der, nunca mais terá sede, pois esta Água
converter-se-à nele em Fonte de água que dá a Vida eterna” (Jo 4, 13-14).
Esta Água como diz
o evangelho de João no capítulo sétimo é o Espírito Santo que seria difundido
no momento da ressurreição de Cristo:
“No último dia, o
mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou:
“Se alguém tem
sede venha a mim. Quem crê em mim que sacie a sua sede!
Como diz a
Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água Viva.
Jesus disse isto
referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que acreditassem nele.
Com efeito, Jesus
ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7,
37-39).
No relato das
Bodas de Caná, a água dos ritos de purificação é transformada por Jesus em
vinho de qualidade superior (Jo 2, 6-10).
A superioridade
deste vinho significa a Nova Aliança, a qual é superior à Antiga, pois assenta
no Espírito Santo e, portanto, é geradora de vida ao contrário da letra da
antiga que é geradora de morte:
“Cristo é quem nos
capacita para sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do
Espírito.
Com efeito, a
letra mata, mas o Espírito dá vida” (2 Cor 3, 6).
Os que bebem a
Água Viva tornam-se templos do Espírito Santo, a fonte geradora de vida eterna
no nosso coração:
“Não sabeis que
sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 2, 16).
Esta Nova Aliança
assente no Espírito Santo e não na letra da Lei foi profetizada como
significando a plenitude dos tempos:
“Dias virão em que
firmarei uma Nova Aliança com a casa de Israel e a casa de Judá (…).
Esta será a
Aliança que estabelecerei depois destes dias com a casa de Israel, oráculo do
Senhor:
Imprimirei a minha
lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração.
Eu serei o seu
Deus e eles serão o meu povo (…).
Perdoarei a todos
as suas faltas e não mais me lembrarei dos seus pecados” (Jer 31, 31-34).
A Nova aliança tem
como sede o coração humano que, para a Bíblia significa o centro mais nobre da
interioridade espiritual humana.
O coração é o
núcleo a partir do qual emergem as decisões na linha do amor e da comunhão.
É no coração que
acontece a Salvação da Nova Aliança, pois o coração é o ponto de encontro da
pessoa Deus mediante o Espírito Santo.
Eis como o profeta
Ezequiel descreve a dinâmica da Nova Aliança no coração do Homem:
“Dar-vos-ei um
coração novo e introduzirei em vós um Espírito Novo:
Arrancarei do
vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne.
Porei o meu
Espírito no vosso íntimo, fazendo que sejais fiéis às minhas leis e preceitos”
(Ez 36, 26-27).
A Carta aos
Efésios apela os crentes a não se embriagarem com vinho, mas a encher-se, pelo
contrário, do Espírito Santo (Ef 5, 18).
Com efeito,
acrescenta a primeira Carta aos Coríntios, o Espírito Santo é a bebida da Nova
Aliança (1 Cor 12,13).
Agora podemos
compreender melhor as seguintes afirmações de Jesus no evangelho de João:
“Se alguém tem
sede venha a mim e beba” (Jo 7, 37).
E ainda:
“Aquele que beber
da Água que eu lhe der nunca mais terá sede” (Jo 4, 14).
O profeta Isaías,
fala do Espírito Santo como sendo uma água que mata a sede e faz desabrochar a
vida em abundância:
“Vou derramar água
sobre o que tem sede e fazer correr rios sobre a terra árida.
Vou derramar o meu
Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes.
Estes crescerão
como plantas junto das fontes e como salgueiros junto das águas correntes” (Is
44, 3-4).
São Paulo, vendo
esta acção do Espírito a actuar diz que o Espírito Santo é o amor de Deus
derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Os Actos dos
Apóstolos vêem no acontecimento do Pentecostes o cumprimento da profecia do
profeta Joel.
Face ao entusiasmo
dos apóstolos, os judeus acusam-nos dizendo que estão bêbedos.
Os Apóstolos
respondem dizendo que a sua exultação é a realização do oráculo do profeta
Joel:
“Não, estes homens
não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do
dia.
Mas tudo isto é a
realização do que disse o profeta Joel” (Act 2, 15-16).
O profeta Joel via
os tempos messiânicos como a plenitude do grande dom do Espírito Santo sobre a
Humanidade inteira:
“Depois disto,
derramarei o meu Espírito sobre toda a Humanidade.
Os vossos filhos e
as vossas filhas profetizarão e os vossos anciãos terão visões.
Também derramarei
o meu Espírito sobre os vossos servos e servas naqueles dias” (Jl 3, 1-2).
O Espírito Santo é
o Espírito de Cristo ressuscitado.
Nós estamos
organicamente unidos a Cristo na medida em que possuímos o Espírito Santo em
nós:
“Vós não estais sob
o domínio da carne (lei judaica), mas sob o domínio do Espírito, pressupondo
que o Espírito de Deus está em vós.
Mas os que não
possuem o Espírito de Cristo não lhe pertencem (…).
E se o Espírito
daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos está em vós, ele que
ressuscitou Jesus também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu
Espírito que habita em vós” (Rm 8, 9-11).
Como Água Viva, o
Espírito Santo fecunda o nosso coração, capacitando-nos para dar frutos de vida
eterna:
“Eis os frutos do
Espírito Santo: Amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão, auto-domínio” (Ga 5, 22-23).
São Paulo faz
apelo aos Gálatas a acolherem o Espírito Santo no seu coração e a viverem de
acordo com este princípio de vida fecunda:
“Se vivemos no
Espírito, sigamos também o Espírito” (Ga 5, 25).
A vida eterna
brota da dinâmica do Espírito Santo em nós, diz São Paulo na Carta aos Gálatas:
“Quem semear na
carne, da carne colherá a corrupção.
Mas quem semear no
Espírito do Espírito Santo colherá a vida eterna” (Ga 6, 9).
Como nascente da
Água Viva, Deus é a Fonte da Salvação.
O profeta Isaías
via os tempos messiânicos como a idade de oiro em que todos têm acesso às
fontes da salvação:
“Este é o Deus da
minha Salvação; estou confiante e nada temo, pois a minha força e o meu canto.
Ele é a minha Salvação.
Cheios de alegria tirareis água das fontes da Salvação (Is 12, 2-3).
Eis a dinâmica da
vida eterna a actuar na história e a conduzir-nos para a plenitude do Reino de
Deus.
d) Eucaristia e a
Árvore da Vida
1) A Árvore que dá a Vida Eterna
“O Senhor Deus
disse: ‘eis que o Homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como
um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do
fruto da Árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre. Então, o Senhor Deus
expulsou Adão do Jardim do Éden (…).
Depois de ter
expulsado o Homem colocou a oriente do jardim uns Querubins com uma espada
flamejante, a fim de guardarem o caminho da Árvore da Vida” (Gn 3, 22-24).
De acordo com a
linguagem simbólica do livro do Génesis, havia no centro do Paraíso duas
árvores importantes: a árvore do conhecimento do bem e do mal e a Árvore da
Vida. A seiva da árvore do conhecimento do bem e do mal é o egoísmo que gera os
frutos mortais da arbitrariedade e do caprichoso.
Os que comem o
fruto desta árvore descobrem que estão nus, pois entraram no caminho do malogro
e do fracasso. Com efeito, as pessoas que se alimentam do caprichoso e da
arbitrariedade, não chegam a atingir a maturidade que dá frutos de consciência
amadurecida, liberdade comprometida e amor gerador de fraternidade e comunhão.
Por seu lado, a
Árvore da Vida faz germinar a Vida Eterna no coração dos que comem os seus
frutos.
O fruto da Árvore
da Vida é a fidelidade à Aliança de Deus.
No coração dos que
comem este fruto começa a circular a seiva fecunda da Árvore da Vida, isto é, o
Espírito Santo.
No capítulo sexto,
o evangelho de João faz uma leitura da Eucaristia à luz da Arvore da Vida:
“Quem como e a
minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no
último dia” (Jo 6, 54).
A carne e sangue
de Jesus são o dinamismo vivo e vivificante de Cristo ressuscitado, isto é, o
Espírito Santo:
“Isto
escandaliza-vos?
E se virdes o
Filho do Homem subir para onde estava antes?
O Espírito é que
dá vida. A carne não serve para nada.
As palavras que
vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).
Ao comer o fruto
da árvore proibida, Adão descobriu que estava nu, isto é, totalmente impotente
para se realizar e ser feliz.
As pessoas que
comem o fruto da Árvore da Vida, pelo contrário, descobrem que estão revestidas
com a veste da Salvação:
“E vi descer do
Céu, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, preparada, qual noiva vestida e adornada
para o seu esposo” (Apc 21, 2).
Por ter sido
criado à imagem de Deus, o ser humano tem um coração faminto de plenitude, pois
está talhado para comer o fruto da Árvore da Vida.
Mas como só pedia
ser livre optando, tinha de haver uma alternativa no Paraíso.
Por isso ao lado
da Árvore da Vida, Deus colocou a Árvore do conhecimento do bem e do mal.
Qualquer das
árvores estava ao perfeito alcance do homem. Esta simbologia do livro do
Génesis exprime de modo magnífico o que significa o livre arbítrio, ou seja a
capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal.
O Senhor confiava
no coração do Homem criado à imagem e semelhança da Divindade.
Mas o Homem cedeu
à tentação e comeu o fruto errado. A tentação é sempre uma insinuação mental
convidando o Homem a agir em sentido oposto à proposta de Deus.
E eis que o Homem
optou no sentido errado. Como consequência deste pecado, o Paraíso foi fechado,
ficando fora do alcance de Adão. A Humanidade é introduzida por Adão no caminho
do Malogro e do fracasso.
Como Deus é Amor
infinito, não podia deixar de nos amar infinitamente. Por isso, através do
mistério da Encarnação, o beijo divinizante de Deus à Humanidade, orientou de
novo o Homem no sentido do projecto de Deus. E a salvação ficou ao nosso
alcance.
Na Sexta-feira
Santa Jesus Cristo abriu o Paraíso e introduziu nele a Humanidade que o tinha
precedido na história. Eis as palavras de Jesus para o Bom Ladrão: “Em verdade
te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).
Cristo é o rebento
do tronco de Jessé e o renovo que brota das raízes deste tronco, a comunidade
amorosa da Santíssima Trindade.
De facto, Jesus
Cristo não é apenas da raça dos homens. A sua realidade é humano-divina. Isto
quer dizer que a raiz mais profunda do seu mistério é a própria comunhão da
Trindade Divina (Jo 1, 12-14). Por isso, mediante o mistério da Ascensão, é
incorporado na Família Divina, inserindo a Humanidade inteira nesta comunhão
humano-divina.
Em Jesus
ressuscitado, portanto, passámos a fazer parte da Árvore da Vida, tornando-nos
ramos ligados à cepa da Videira, Cristo, e às suas raízes que é a comunhão
orgânica da Trindade Divina. Jesus abriu as portas do Paraíso à Humanidade e
esta foi divinizada.
Deste modo podemos
concluir que o relato paradisíaco do livro do Génesis não foi nunca realidade
existente num princípio mítico, mas um projecto sonhado por Deus para a
plenitude dos tempos:
“Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus
enviou o seu Filho nascido de uma mulher (…), a fim de recebermos a adopção de
filhos” (Ga 4, 4-6).
Jesus Cristo é o
Novo Adão, a cabeça da Humanidade reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-19). É a
Árvore da Vida que nos dá o fruto da Vida Eterna:
“Quem come a minha
carne a bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que
me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por mim” (Jo 6,
56-57).
Mas São João tem o
cuidado de acentuar que este mistério da comunhão orgânica com Cristo ressuscitado
nada tem de antropofagia (Jo 6, 62-63).
A carne e o sangue
de Cristo são a seiva da Árvore da Vida Eterna, isto é, o Espírito Santo.
Com Jesus, a
Humanidade entra no Paraíso e é amorosamente assumida na família de Deus sendo,
por consequência, divinizada.
O Paraíso, sonhado
pelo livro do Génesis, torna-se finalmente realidade. Os que são animados pela
seiva da Árvore da Vida, o Espírito Santo, passam a participar da Vida Eterna,
sendo organicamente incorporados na Família de Deus, como diz São Paulo:
“Todos os que são
movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um
espírito de escravidão para andardes no temor. Pelo contrário, recebestes um
Espírito de adopção graças ao qual clamamos “Abba”, isto é Papá.
E se sois filhos
sois também herdeiros. Herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com Jesus Cristo,
se formos fieis como ele foi, sofrendo pelo Evangelho como Ele sofreu” (Rm 8,
14-17).
No Reino de Deus,
os eleitos são todos alimentados pelo do fruto da Árvore da Vida:
“Felizes os que
lavam as suas vestes, para terem direito à Árvore da Vida e poderem entrar nas
portas da cidade” (Apc 22, 14).
2) A Vida Nova em
Cristo
A vida nova em
Cristo não é uma questão de sujeição a um código ético rigoroso e com normas
bem estruturadas.
Viver em comunhão
com Cristo é uma relação vital com Jesus ressuscitado.
O princípio
animador desta relação e comunhão com o Senhor ressuscitado é o Espírito Santo.
A comunhão
orgânica com Cristo é um dom gratuito de Deus. Ponhamos um exemplo: comparemos
a Humanidade ferida pelo pecado a um limoeiro doente e envelhecido pela
ferrugem.
Apesar de ser um
limoeiro de uma espécie muito boa, dá frutos de péssima qualidade, pois está
doente.
O proprietário do limoeiro gostava muito esta
espécie de limoeiro. Por isso tinha muita pena de o arrancar e lançar ao fogo.
Foi então que lhe veio a ideia de enxertar um raminho do limoeiro numa
laranjeira jovem e robusta.
Agora, sem deixar
de ser limoeiro, recebe a seiva da laranjeira sadia e começa a robustecer-se
progressivamente. Em breve começa a dar limões de excelente qualidade. O
enxerto não destruiu a natureza do limoeiro, pois ele dá limões e não laranjas.
Mas a seiva da laranjeira optimizou a fecundidade do limoeiro e a qualidade dos
limões.
Pelo mistério da
Encarnação, a Humanidade ficou enxertada na Divindade. Este enxerto não
destruiu a natureza humana. Pelo contrário, optimizou-a e capacitou-a para dar
frutos de vida eterna. A Humanidade ficou enxertada na Árvore da Vida cujo
tronco é Jesus Cristo e cujas raízes é a Segunda pessoa da Trindade que, pelo
Espírito Santo, faz uma unidade orgânica com Jesus de Nazaré.
A seiva da Árvore
da Vida é o Espírito Santo. Animados por esta seiva, as pessoas que vivem em
sintonia com o Espírito Santo, formam uma realidade orgânica nova a que a
Bíblia chama uma nova criação: “Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova
criação. O que era velho passou. Eis que tudo se fez novo!
Tudo isto vem de
Deus que, em Cristo, nos reconciliou consigo, e nos confiou o ministério da
reconciliação. De facto, foi Deus quem reconciliou o mundo consigo, em Cristo,
e nos confiou o ministério da reconciliação” (2 Cor 5, 17-19).
O Espírito Santo é
o sangue de Cristo a circular nas artérias do nosso coração, alimentando e
enriquecendo a nossa acção com um novo dinamismo e ajudando a nossa mente a
compreender os mistérios de Deus.
Eis o que diz São
Paulo a este respeito: “Com efeito, quem, entre os homens, conhece o que vai no
coração da pessoa, a não ser o próprio espírito do homem. Assim, também,
ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não o Espírito de Deus que nos faz
compreender o que Deus amorosamente nos concedeu” (1 Cor 2, 11-12).
O Espírito Santo é
o vínculo orgânico e o princípio relacional que sustenta e dinamiza a nossa
união a Cristo como diz a Carta aos Romanos: “Se alguém não tem o Espírito de
Cristo não pertence a Jesus Cristo” (Rm 8, 9). Não devemos concluir deste texto
que só os cristãos pertencem a Cristo. Trata-se de uma qualidade de coração e
não de um rótulo ou um título.
É importante
distinguir a acção divinizante do Espírito, comum a todos os seres humanos, da
acção revelacional. Esta, de facto, só actua no Povo de Deus. Tem a ver com o
baptismo no Espírito ou, se quisermos, a dimensão pentecostal da vida cristã.
A acção
divinizante do Espírito Santo tem a ver com a salvação. Esta é uma incorporação
da pessoa humana no Comunhão da Santíssima Trindade através de Cristo e é para
todos os que têm coração capaz de comungar. O Espírito Santo, diz a Carta aos
Romanos, é o Amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Será eternamente
mais divino, isto é, comungará mais com as pessoas divinas, quem mais tiver
exercido na história a capacidade de comungar com as pessoas humanas. É a
dinâmica salvífica ou a acção divinizante do Espírito Santo, a qual só
aconteceu com a morte e ressurreição de Cristo (Jo 7, 37-39).
A nível
revelacional, o Espírito Santo actua nos cristãos no sentido de os conduzir
para a plenitude da compreensão do mistério de Deus e do Homem: “Mas quando
vier o Espírito de Verdade, Ele vos guiará para a verdade total. Ele não fala
de si mesmo, pois apenas diz o que ouve e dir-vos-à o que está para vir” (Jo
16, 13).
É o Espírito que,
no nosso interior, nos revela a nossa condição de filhos e herdeiro de Deus,
co-herdeiros com Jesus Cristo (Rm 8, 14-17).
É pelo Espírito
Santo que se vai robustecendo em nós o homem interior, cuja densidade é
espiritual. É certo que o homem exterior vai envelhecendo e perdendo
qualidades, mas o interior, graças à acção do Espírito Santo, renova-se e
fortalece-se constantemente na pessoa fiel ao Espírito Santo.
O evangelho de São
João diz que o homem interior, isto é, a dimensão pessoal-espiritual do ser
humano vai renascendo pela acção do Espírito Santo (Jo 3, 6). Trata-se,
portanto, de uma realidade a emergir no interior do homem. Por outras palavras,
o ser interior, de ordem pessoal-espiritual, forma-se dentro do eu exterior,
individual, como o pintainho se forma dentro do ovo.
À medida em que
renasce, o homem interior vai-se robustecendo, graças a esta acção do Espírito
Santo como diz a segunda carta aos Coríntios: “Por isso não desfalecemos. Mesmo
que em nós o homem exterior vá caminhando para a ruína, o homem interior
renova-se dia após dia” (2 Cor 4, 16).
Eis a dinâmica da
vida nova em Cristo a nascer e a fortalecer-se de modo gradual: O Espírito
Santo vai-nos interpelando no sentido de agirmos de modo a que nos configuremos
progressivamente com Cristo, ao ponto de darmos frutos iguais aos de Cristo. É
a fecundidade da vida nova em Cristo.
A Carta aos
Gálatas menciona alguns dos frutos que a nossa vida vai produzindo quando está
organicamente unida a Cristo e animada pelo Espírito Santo: “Mas os frutos do
Espírito Santo são amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade,
fidelidade, gentileza e auto controle. Contra estas coisas não há lei” (Ga 5,
22-23).
Mas a nossa vida
só será fecunda se permanecermos unidos a Cristo, como os ramos da videira só
podem dar fruto se permanecerem unidos à cepa: “Permanecei em mim e eu
permanecerei em vós. Os ramos não podem dar fruto por si mesmo, mas só se
estiverem unidos à videira. Do mesmo modo vós não podeis dar fruto se não
estiverdes unidos a mim” (Jo 15, 4-5).
O Espírito é a
seiva que nos alimenta e robustece, capacitando-nos para sermos testemunhas do
Evangelho no meio do mundo: “Mas vós recebereis o poder do Espírito Santo e
sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até aos
confins da Terra” (Act 1, 8).
A Carta aos
Efésios recomenda aos cristãos de Éfeso para não se embriagarem mas, pelo
contrário, deixarem-se encher do Espírito Santo: “Não vos embriagueis com vinho
o que conduz à luxúria. Pelo contrário, deixai-vos encher do Espírito Santo”
(Ef 5, 18).
No capítulo doze
da primeira Carta aos Coríntios, aparece uma grande variedade de carismas, isto
é, qualidades dinamizadas e consagradas pelo Espírito para o Bem comum da comunidade.
É um sinal claro
de que a nossa vida apenas é fecunda na medida em que é animada pelo Espírito
Santo. Eis os dons de que fala o texto:
-Palavra de
Sabedoria;
-Palavra de
Conhecimento;
-Fé;
-Dom das curas;
-O poder de operar
milagres;
-Dom da profecia;
-Discernimento dos
Espíritos;
-O dom das
línguas;
- O dom de as
interpretar.
São Paulo sublinha
que a diversidade dos dons e carismas tem uma origem comum: O Espírito Santo.
Eis as palavras do
Apóstolo: “Por isso quero que saibais que ninguém, falando sob a acção do
Espírito Santo, pode dizer: ‘Jesus é maldito’. Do mesmo modo, ninguém pode
dizer Jesus é o Senhor (Cristo ressuscitado e entronizado à direita do pai) a
não ser pelo Espírito.
Há diversidade de
dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de serviços, mas o Senhor é o
mesmo; há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos.
A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (1 Cor 12,
3-7).
Mas é sobretudo no
ensinamento do amor que Paulo nos convida a viver a própria vida de Deus,
entrando na dinâmica do amor infinito.
Não é por acaso
que São João associa o mandamento do amor à Última Ceia, isto é, à Eucaristia.
As qualidades do
amor são as qualidades do próprio Deus, pois Deus é amor:
“O amor é paciente.
O amor é
prestável.
Não é invejoso.
O amor não é
arrogante nem orgulhoso.
Nada faz de
inconveniente.
Não procura o seu
próprio interesse.
O amor não se
irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com
a injustiça, mas rejubila com a Verdade.
O amor tudo
desculpa.
Tudo crê.
Tudo espera.
Tudo suporta.
O amor jamais
passará.
As profecias terão
seu fim.
O dom das línguas
cessará.
A ciência será
inútil (…).
Agora permanecem
estas três: a Fé, a Esperança e o Amor.
Mas a maior delas
é o amor” (1 Cor 13, 4-13).
É este o topo da
vida nova em Cristo. É esta a meta para a qual o Espírito Santo nos quer
conduzir.
e) Eucaristia e
Nova Aliança
Os textos que falam
da Última Ceia associam a Eucaristia com a Nova Aliança cuja plenitude é o
Reino de Deus:
“Tomando um taça,
deu graças e disse: “Tomai e reparti entre vós, pois digo-vos que não tornarei
a beber do fruto da videira, até chegar o Reino de Deus”.
Tomou então o pão
e, depois de dar graças, partiu-o e distribuiu-o por eles dizendo: “Isto é o
meu corpo, que vai ser entregue por vós; fazei isto em minha memória”.
Depois da ceia fez
o mesmo com o cálice, dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue, que
vai ser derramado por vós” (Lc 22, 17-20; cf. Mt 26, 26-29).
À luz da revelação
a Humanidade forma um todo. É uma união orgânica constituída por pessoas, tal
como a Divindade.
Graças ao
acontecimento de Cristo, a Humanidade e a Divindade ficaram definitivamente
unidas.
Esta verdade está
no centro do simbolismo da Eucaristia.
A plenitude da
humanidade é o Reino de Deus, a Comunhão Universal humano-divina cujo
medianeiro é Cristo ressuscitado.
O Espírito Santo,
como vimos, é o seu princípio animador e o vínculo desta organicidade.
Uma vez que a
Humanidade forma uma união orgânica, as pessoas humanas não são ilhas e apenas
encontram a sua plenitude na comunhão de umas com as outras e todas com Deus
através de Cristo.
Eis a afirmação
central da celebração da Eucaristia.
É esta a razão
pela qual o bem e o mal que as pessoas fazem não as afectam apenas a elas, mas
a toda a Humanidade.
Este modo de
entender as coisas aparece muito claramente descrito no profeta Isaías onde ele
faz uma leitura desse acontecimento chocante que é o sofrimento dos justos no
exílio de Babilónia (Is 52, 13-53, 12).
Até este período o
povo bíblico pensava que os justos não podiam sofrer, pois Deus é justo e não
vai fazer sofrer o inocente.
Neste período
pensava-se que Deus era o autor do sofrimento. Provocava-o para castigar os
pecados das pessoas.
Segundo esta
perspectiva, como o justo não é pecador, não deve sofrer. No caso das crianças
que sofrem, pensava-se que os pais eram pecadores.
Ainda no Novo
Testamento encontramos vestígios desta mentalidade:
“Ao passar, Jesus
viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: Rabi,
quem pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou
os seus pais?
Jesus respondeu:
nem pecou ele nem os seus pais. Isto aconteceu para se manifestarem nele as
obras de Deus (Jo 9, 1-3).
O acontecimento do
exílio levou o povo de Deus a buscar novas explicações para a questão do
sofrimento. No exílio da Babilónia era evidente que havia justos a sofrer.
A saída encontrada
no livro de Isaías é que o justo, por formar um todo orgânico com os membros
pecadores do povo, sofre com ele as perseguições e violências.
A interpretação do
sofrimento do justo, no livro de Isaías é que o sofrimento do justo vai
reverter em favor do povo pecador.
Como Deus não
suporta o sofrimento dos justos, vai tomar partido em seu favor, libertando-os
do exílio. Como o povo forma um todo orgânico, os pecadores vão ser libertos
com os justos.
Deste modo, o
sofrimento dos justos adquire um significado redentor.
Por pensar o povo
como um todo orgânico, Isaías passa do justo sofredor para o povo e do povo
para o justo sofredor com toda a naturalidade.
Os pecadores fazem
parte do povo e os justos também. Como o povo vai ser liberto em virtude de
Deus não suportar o seu sofrimento, os pecadores vão ser redimidos pelo
sofrimento do justo:
“O meu servo terá
êxito,
Pois será engrandecido
e exaltado.
Muitos povos
ficaram espantados diante dele ao verem o seu rosto desfigurado e o seu aspecto
disforme.
Do mesmo modo,
Muitos povos e
reis vão ficar espantados ao verem as coisas maravilhosas e inauditas que vão
acontecer (a libertação da Babilónia) (…).
O servo cresceu
diante do Senhor sem figura e sem beleza,
Como um rebento ou
uma raiz em terra árida (o exílio).
Vimo-lo sem
aspecto atraente,
Desprezado e
abandonado pelos homens,
Como homem das
dores,
Habituado ao
sofrimento,
Desprezado e
desconsiderado,
Diante do qual se
tapa o rosto.
Na verdade ele
tomou sobre si as nossas doenças e carregou as nossas dores.
Nós o reputávamos
como um leproso ferido por Deus e humilhado.
Mas foi ferido por
causa dos nossos pecados,
Esmagado por causa
das nossas iniquidades.
O castigo caiu
sobre ele,
Pois fomos curados
nas suas chagas (Deus tomou partido em favor dele).
Andávamos
desgarrados como ovelhas perdidas,
Cada qual seguindo
o seu caminho.
Mas o Senhor
carregou sobre ele os nossos crimes (perdoando-nos por causa dele).
Foi maltratado.
Humilhou-se e não
abriu a boca,
Tal como o
cordeiro que é levado ao matadouro ou a ovelha emudecida nas mãos do
tosquiador.
Sem defesa nem
justiça,
Levaram-no à
força.
Quem é que se
preocupou com o seu destino?
Foi ferido por
causa dos pecados do meu povo e suprimido da terra dos vivos.
Deram-lhe
sepultura entre os ímpios (pagãos caldeus) e uma tumba entre malfeitores,
Apesar de não ter
cometido qualquer crime nem praticado qualquer fraude.
Aprouve ao Senhor
esmagá-lo com sofrimento (levando-o para o exílio),
Mas a sua vida
tornou-se um sacrifício de reparação.
Terá uma
posteridade duradoura e viverá longos dias.
O desígnio do
Senhor (a libertação do exílio) realizar-se-à por meio dele (…).
O Justo
justificará a muitos,
Pois carregou com
os seus crimes.
Por esta razão
terá uma multidão como herança (o povo resgatado do exílio).
Receberá muita
gente como despojos,
Pois entregou a
sua vida à morte,
Foi contado entre
os pecadores, pois tomou sobre si os pecados de muitos,
Sofrendo pelos
culpados” (Is 52, 13-53,12).
Perante a
dificuldade de justificar os sofrimentos e a morte de Jesus, os discípulos
recorreram a estes textos magníficos, dizendo que Jesus é o Servo sofredor.
No entanto, nós
sabemos que a obra salvadora realizada pelo mistério da Encarnação vai muito
além de um simples benefício devido ao sofrimento do justo.
A Encarnação
significa o enxerto do divino no Humano, a fim deste ser divinizado. A
divinização implica ser assumido, incorporado e glorificado na Família Divina.
Mas perante a
dificuldade de justificar a morte de Jesus, os discípulos vão explicá-la
recorrendo aos textos do justo sofredor.
A Humanidade foi
salva pelo sofrimento de um homem justo, Jesus Cristo, o Messias:
“Carregou sobre si
os nossos pecados sobre o madeiro da Cruz, a fim de que nós, estando mortos
para o pecado, possamos viver na justiça. Fomos curados nas suas feridas” (1 Pd
2, 24).
Um morreu por
todos e, nele todos morreram para o pecado (2 Cor 5, 14).
Deus tomou partido
por Jesus, ressuscitando-o e glorificando-o. Como a Humanidade forma um todo
orgânico e Jesus é homem, todos fomos assumidos e glorificados nele e com ele.
Este mesmo
argumento é usado na Segunda Carta a Timóteo:
“Eis uma palavra
digna de confiança: Se morremos com Cristo também vivemos com ele” (2 Tim 2,
11).
Em Cristo Jesus
todos formamos uma só união orgânica. São Paulo descreve de maneira muito
bonita esta união dizendo que não importa a raça, a língua, o estatuto social,
o povo ou o sexo das pessoas.
Todos têm a mesma dignidade em Jesus Cristo,
sublinha o Apóstolo:
“Já não há
diferença entre judeu ou grego, escravo ou livre. Já não há diferença entre
homem ou mulher, pois todos formamos um em Jesus Cristo” (Ga 3, 28).
Noutro texto
acrescenta:
“Apesar de sermos
muitos formamos um só corpo e todos somos membros uns dos outros. O Espírito
Santo actua em todos os membros do Corpo para proveito de todos” (1 Cor
12,4-7).
Jesus Cristo é a
base da nossa união orgânica à divindade:
“Nesse dia
compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).
Na sua oração após
a ceia pascal, Jesus recorda esta verdade enquanto ora a Deus Pai:
“Eu neles, tu em
mim, Pai, a fim de eles serem perfeitos na unidade. Deste modo o mundo
conhecerá que me enviaste e os amaste a eles, tal como me amaste a mim” (Jo 17,
23).
Graças a esta
união orgânica entre nós e Cristo, fomos incorporados na Família de Deus,
tornando-nos filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus filho.
O Espírito é o
amor maternal de Deus. Com seu jeito maternal de amar conduz-nos ao Pai que nos
acolhe como filhos e ao Filho que nos acolhe como irmãos:
“Todos os que se
deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um
espírito de escravidão para andardes no temor.
Pelo contrário,
recebestes um Espírito de adopção graças ao qual chamais “Abba”, ó Pai (…).
Ora, se somos
filhos somos também herdeiros. Somos herdeiros de Deus pai e co-herdeiros com
Cristo, pressupondo que com ele sofremos, para também com ele sermos
glorificados (Rm 8, 14-17).
E mais à frente
São Paulo explicita ainda melhor a nossa pertença a Deus por Cristo:
“Àqueles que Deus
conheceu antecipadamente, também os predestinou para serem uma imagem idêntica
à do seu Filho, de tal modo que este é o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8,
29).
A comunidade
cristã é o sacramento desta unidade orgânica universal já enxertada e assumida
em Deus. São Paulo insiste em que os membros da comunidade formam o corpo de
Cristo:
“Comemos de um só
pão para formarmos um só corpo” (1 Cor 10, 17).
E ainda: “Vós sois
membros do Corpo de Cristo. E cada um de vós é uma parte deste corpo” (1 Cor
12, 27).
Sabemos como o
corpo é mediação de encontro e comunicação. A comunidade, como Corpo de Cristo,
é mediação de encontro e comunicação do mundo com Cristo ressuscitado.
Nesta mesma linha
se situa o seguinte texto da Carta aos Efésios:
“Portanto, cada um
deite fora a hipocrisia e fale a verdade ao seu irmão, pois somos membros de um
só corpo” (Ef 4, 25).
Como vimos acima,
a raiz desta união orgânica universal é Jesus ressuscitado.
O Espírito Santo,
por seu lado, é o princípio vital que anima e dinamiza todo o organismo. É a
seiva que circula do tronco da videira para os ramos, tornando-os fecundos (Jo
15, 1-8).
Graças a esta
união Cristo e à fecundidade do Espírito Santo vamos deixando os frutos da
carne, isto é, as acções do homem velho e passamos gradualmente a produzir os
frutos da Nova Humanidade enxertada em Cristo:
“A carne deseja o
que é contrário ao Espírito e o Espírito o que é contrário à carne.
Se sois conduzidos
pelo Espírito não estais sob o domínio da carne, pois as obras da carne são
patentes: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades,
contendas, ciúmes, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras,
orgias e outras coisas parecidas.
Sobre estas coisas
vos previno como já o fiz antes: Os que praticam estas coisas não herdarão o
Reino de Deus.
Por seu lado, os
frutos do Espírito São: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão, auto-domínio. Contra estas coisas não há lei. Os que são
de Cristo crucificaram a carne.
Se vivemos pelo
Espírito, sigamos o Espírito. Não nos tornemos soberbos, provocando-nos e tendo
inveja uns dos outros” (Ga 5, 17-26).
Como acabamos de
ver, o primeiro fruto do Espírito Santo é o amor e os restantes são modos de
concretizar o amor.
O amor não é um
conjunto de sentimentos. É a manifestação da glória de Deus em nós. A glória de
Deus, segundo a Bíblia, significa a grandeza de Deus. É a manifestação do seu
amor à Humanidade.
Quando uma pessoa
decide amar está a dizer sim à voz do Espírito Santo que se faz ouvir na sua
consciência.
O amor é a
expressão máxima da fecundidade da vida, pois é o primeiro e o principal fruto
do Espírito Santo.
O amor dos outros
por nós capacita-nos para amar. Por outro lado o Espírito Santo, através da
nossa consciência, convida-nos a ser fiéis às possibilidades de amar que os
outros inscreveram em nós.
É este o modo de o
Espírito Santo ser o animador da comunhão orgânica humano-divina da qual Jesus
Cristo é a raiz.
Eis o rosto da
Nova Humanidade. Eis a realização desse Sonho eterno de Deus que é a Nova
aliança em Jesus Cristo.