A DIVINIZAÇÃO COMO AMOR EM PLENITUDE

                                                                 CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

 

A Humanidade foi concebida e talhada à imagem e semelhança da Divindade.

Eis a razão pela qual as pessoas humanas, naquilo que têm de bom, são tão parecidas com Deus.

Por ser constituída por pessoas, a Humanidade já faz parte da cúpula personalizada do Universo.

Podemos dizer que a Humanidade pertence ao melhor que a Criação foi capaz de produzir.

De facto, a Humanidade é constituída por seres livres, conscientes, responsáveis e capazes de comunhão amorosa.

A Humanidade é como uma árvore gigante na qual, o tronco e os ramos fazem uma unidade alimentada pela mesma seiva.

Mas foi divinizada pela graça de Deus que nos vem por Cristo ressuscitado.

Em Cristo o Divino enxertou-se no Humano, a fim deste ser divinizado.

Acontece como emergência histórica no concreto de cada pessoa.

A Humanidade emerge de modo único, original e irrepetível no concreto de cada pessoa.

Mas a plenitude humana só foi atingida pela ressurreição de Cristo, graças à qual as pessoas humanas são introduzidas na comunhão trinitária das pessoas divinas.

A Humanidade está talhada para a divinização! Jesus Cristo inaugurou a plenitude dos tempos, isto é, a fase dos acabamentos.

No princípio dos tempos, Deus veio, amassou e configurou o barro.

Depois deu-lhe um beijo e o hálito da vida divina passou para o interior do interior de Deus para o Homem (Gn 2, 7).

Este hálito é o Espírito Santo que vivifica e vai modelando a interioridade da pessoa à imagem e semelhança de Deus.

E Foi assim que o Homem se tornou barro com coração, isto é, capaz de eleger o outro como próximo.

Por outras palavras, a construção da Humanidade tornou-se uma tarefa ética cuja lei é o amor.

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

A entrada do hálito de Deus, isto é, do Espírito Santo, no interior do Homem é o impulso que inicia a marcha histórica da humanização cuja lei é:

“Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Orgânica Universal.

Tal como aconteceu no princípio dos tempos, também a plenitude dos tempos foi inaugurada por um beijo de Deus à Humanidade com a comunicação do Espírito Santo.

O segundo beijo de Deus é, naturalmente, o mistério da Encarnação, o enxerto do divino no humano, a fim deste ser divinizado.

Por outras palavras, mediante a Encarnação, o Filho Eterno de Deus encarnou pelo Espírito Santo, dando início à divinização do Homem.

No princípio dos tempos, o Espírito Santo foi dado à Humanidade como presença que anima o processo da sua humanização.

O segundo beijo de Deus dá-nos a possibilidade de sermos membros da Família de Deus (Jo 1, 12-14; Rm 8, 14-16).

Mediante a sua ressurreição, Jesus inaugura a plenitude dos tempos, possibilitando-nos a interacção e comunicação intrínseca com o Espírito Santo.

E é assim que somos incorporando-nos na comunhão familiar da Santíssima Trindade

Mediante esta interacção intrínseca, o Espírito Santo, torna-se uma espécie de Água Viva que faz jorrar vida eterna no coração dos seres humanos (Jo 7, 37-39; 4, 14).

Na verdade, o Espírito Santo é a ternura maternal de Deus através da qual somos inseridos na Família Divina.

São Paulo diz que o Espírito é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

O Espírito santo é uma pessoa cujo jeito de ser é animar relações de amor e criar vínculos de comunhão orgânica.

A História da Humanidade está marcada com o selo do Amor Criador de Deus!

Ao nascer da aurora, Deus amassou o barro que serve de matriz à Humanidade.

Depois, Deus deu-lhe um beijo e este ficou um ser animado pelo sopro vital de Deus.

Quando chegou o meio-dia, isto é, o início da plenitude dos tempos, Deus deu outro beijo à Humanidade, oferecendo-lhe o dom da Salvação em Cristo.

Graças ao dom da revelação, os cristãos conhecem e celebram este plano amoroso de Deus.

A sua missão, portanto, é completar a paixão de Cristo, isto é, anunciar aos homens o amor incondicional de Deus.

Após o pecado humano, Deus, cheio de ternura, vem todos os dias ao alto da colina na esperança de ver o filho pródigo regressar (Lc 15, 11-32).

Com Cristo ressuscitado, a Humanidade recebe o grande dom do Espírito Santo, o qual faz surgir o Homem Novo reconciliado com Deus, como diz São Paulo (2 Cor 5, 17-21).

Na verdade, a pessoa só se encontra na reciprocidade amorosa. Possui-se na medida em que se dá.

Na verdade, é dando-se que a pessoa se encontra e possui plenamente.

A fome de plenitude que todos sentimos só pode ser saciada através das relações de comunhão amorosa.

Na sua interioridade espiritual, a pessoa situa-se ao nível do ser, não do ter, eis a razão pela qual ao dar-se, não se perde, mas se encontra e se encontra assumida em Deus.

O Espírito Santo é o Sangue da Nova Aliança, a carne e o sangue de Cristo ressuscitado, isto é, o alimento da Vida Eterna (Jo 6, 62-63).

É a Água Viva que gera um rio de Vida Eterna no nosso coração (Jo 4, 14; 7, 37-39).

Ao falar da Eucaristia, o Evangelho de São João associa Jesus ressuscitado à Árvore da Vida cujo fruto nos proporciona a vida eterna:

“Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come, viverá por mim. Este é o pão que desceu do Céu” (Jo 6, 57-58).

A Árvore da Vida, diz o Apocalipse, está na plenitude do Paraíso:

“Felizes os que vencem as tribulações e a oposição dos inimigos da Fé, pois Deus dar-lhes-á a comer o fruto da Árvore da Vida” (Apc 2, 7).

Na Nova Jerusalém todos contemplam de modo directo a face do Senhor (Apc 22, 4).

Esta passagem faz-nos lembrar a primeira Carta de São João a qual afirma que, no Céu, todos são semelhantes ao próprio Deus, pois contemplam-no tal como ele é (1 Jo 3, 2).

O Espírito Santo é o pão espiritual que comemos e faz de nós corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27).

Em perspectivas cristãs, a fome de felicidade e plenitude que vibra no mais íntimo do nosso ser, é um apelo a caminharmos na linha da fraternidade e da comunhão.

Na verdade, não fomos feitos para estar sós. A morte espiritual é igual a solidão radical. É isto o que, em linguagem cristã, se chama estado de inferno.

Cristo Ressuscitado comunica-nos o Espírito Santo, não como algo que lhe é exterior, mas como uma realidade intrínseca ao seu ser humano-divino.

Por outras palavras, é o Espírito Santo que faz de Jesus de Nazaré e da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade um só Cristo, homem connosco e Deus com o Pai e o Espírito Santo.

É o mesmo Cristo que nos comunica o Espírito Santo de modo intrínseco, pois é deste modo que o Espírito Santo age e dinamiza a interacção humano-divina de Cristo.

Jesus, no evangelho de João, explica este mistério usando uma imagem muito bonita:

“Eu sou a videira verdadeira e meu Pai o agricultor. Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, a fim de dar mais fruto (…). Permanecei em mim e eu permaneço em vós.

Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco se não permanecerdes em mim” (Jo 15, 1-4).

É este o jeito de Cristo se unir a nós através do Espírito Santo.

O Espírito Santo, com o seu jeito maternal de amar, introduz-nos na família divina como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho (Rm 8, 14-16; cf. Ga 4, 4-7).

O mistério da Encarnação significa a plenitude dos tempos, a qual acontece de modo gradual e progressivo.

Durante cerca de trinta anos só um homem, Jesus de Nazaré, era divino, isto é, organicamente incorporado da comunhão da Família Divina.

Com a morte e ressurreição de Jesus Cristo, a Humanidade é divinizada, isto é, organicamente assumida e incorporada na comunhão divina.

Com Jesus Cristo, a Humanidade entrou na fase dos acabamentos.

Antes de Cristo, o Homem estava apenas em processo de humanização.

Como a morte e ressurreição de Cristo, a Humanidade entra na fase da sua divinização.

A divinização significa a incorporação na comunhão orgânica da Santíssima Trindade como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus filho.

O ser humano é capaz de comungar na medida em que está humanizado.

Isto quer dizer que será eternamente mais divino quem mais se tiver humanizado na história.

A festa do Reino é a superação total da solidão e a conquista definitiva da felicidade que só acontece no face a face da comunhão com Deus.

Como vemos, a nossa humanização depende nós, pois não é uma fatalidade.

Acontece através de um encadeamento de opções, decisões, escolhas e realizações na linha do amor.

A humanização do ser humano é um processo histórico cuja lei é:

“Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal.

A história que construímos estrutura o nosso ser pessoal, o qual é na sua essência, espiritual e eterno.